Feira livre histórica de Feira de Santana permanece viva na memória popular

A antiga feira livre de Feira de Santana, considerada por muitos a maior do país até sua desativação em 1977, ainda desperta lembranças e discussões sobre seu impacto na formação econômica, cultural e turística do município. Com 48 anos desde sua extinção, a feira segue como referência histórica de um modelo de comércio popular, que influenciou diretamente no desenvolvimento da cidade.

A feira foi oficialmente desmobilizada com a inauguração do Centro de Abastecimento de Feira de Santana (CAF), criado para modernizar e reorganizar a atividade comercial. Contudo, registros e depoimentos apontam que a feira teve início ainda no século XVIII, sendo associada à formação espontânea de um polo de comércio na região. Sua relevância foi tamanha que atraiu, em 1859, a visita do Imperador Dom Pedro II.

A dinâmica da feira, segundo estudiosos, representava não apenas um espaço de compra e venda, mas um centro de convivência comunitária e expressão cultural popular. O modelo europeu de feira, introduzido no Brasil durante o período colonial, se consolidou em Feira de Santana como ponto central da economia local, sendo complementado pela feira de gado, que se destacava paralelamente em outro ponto do município.

Mesmo com a transição para o CAF, a cidade não perdeu a tradição do comércio informal e de rua. A presença de feiras livres nos bairros evidencia que a cultura do mercado aberto continua ativa. Essa permanência indica que o modelo estruturado do centro de abastecimento não substituiu totalmente o formato anterior, que permanece vivo no cotidiano de muitos feirenses.

O professor e pesquisador Raymundo Luiz Lopes, em análise publicada, interpreta a extinção da feira livre como consequência do projeto de modernização urbana da década de 1970. Segundo ele, a busca por um modelo de cidade industrializada e progressista acabou promovendo o afastamento de práticas consideradas tradicionais. Para Lopes, a feira livre passou a ser vista como incompatível com a imagem da “nova Feira de Santana”.

Raymundo Lopes também destaca que a feira representava mais que uma estrutura comercial: era um espaço de interação social, negociação direta e vivência popular, elementos ausentes nos ambientes padronizados de consumo atuais, como shoppings e supermercados. A movimentação constante, o contato direto entre pessoas e a prática da pechincha são características apontadas como centrais na identidade da feira.

Na visão do pesquisador, o modelo moderno de consumo substituiu o convívio pela automatização. Com isso, os espaços comerciais atuais teriam perdido a espontaneidade, o diálogo e a relação humana que caracterizavam a feira tradicional. Apesar disso, a memória coletiva da feira livre segue presente no cotidiano e continua sendo evocada por quem viveu sua efervescência.

Atualmente, Feira de Santana, com população estimada próxima a 700 mil habitantes, mantém a tradição das feiras em diversos bairros, como Feira X, Tomba, Sobradinho e Rua Nova, entre outros. Essas feiras, embora menores, preservam aspectos da feira histórica, como o comércio direto, os preços acessíveis e o contato entre vendedores e consumidores.


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