Plano de Ocupação Total de Gaza por Israel prevê deslocamento de 900 mil palestinos
O gabinete de segurança de Israel aprovou, nesta quinta-feira (07/08/2025), o plano do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu para a ocupação total da Faixa de Gaza, incluindo o deslocamento forçado de aproximadamente 900 mil palestinos. A decisão ocorre quase dois anos após o início do conflito e sinaliza uma escalada sem precedentes, em meio à forte oposição internacional e a divisões internas em Israel.
O plano, segundo fontes da imprensa israelense e correspondentes internacionais, será executado em etapas e não implica ocupação imediata de toda a Faixa de Gaza. O primeiro passo consiste na retirada compulsória de cerca de 900 mil palestinos residentes na Cidade de Gaza, o que representa metade da população do território. A fase seguinte prevê a ocupação efetiva da cidade. Caso o Hamas não retome as negociações, a terceira etapa prevê a ocupação integral de todo o enclave palestino.
Atualmente, Israel já exerce controle sobre 75% da Faixa de Gaza, mantendo um perímetro militarizado ao longo da fronteira. O detalhamento do plano indica que o objetivo inicial de Israel é criar uma “zona tampão” permanente junto à cerca que separa Gaza de Israel, ampliando o controle territorial e restringindo a circulação de palestinos.
Divergências Internas e Oposição ao Plano
As divergências internas em Israel ficaram evidentes durante as reuniões do gabinete de segurança. Eyal Zamir, chefe do Estado-Maior do Exército de Israel, alertou para riscos práticos do plano, citando o esgotamento das tropas, problemas de manutenção do equipamento militar e o agravamento da crise humanitária e sanitária em Gaza.
Representantes da ala mais radical do governo, como Bezalel Smotrich (ministro das Finanças) e Itamar Ben Gvir (ministro da Segurança Nacional), defendem a reocupação total da Faixa e a reconstrução dos assentamentos desmantelados há 20 anos. Já opositores como Yair Lapid, líder da oposição, e familiares de reféns israelenses, criticam a medida, argumentando que ela coloca em risco a vida dos sequestrados ainda mantidos pelo Hamas e impõe custos humanos e políticos elevados à sociedade israelense.
Levantamento recente divulgado em julho revela que 74% da população israelense deseja o fim do conflito e a libertação dos reféns, inclusive 60% dos eleitores dos partidos que compõem a base do governo Netanyahu.
Pressão Internacional e Impasses nas Negociações
No cenário internacional, a proposta de ocupação total de Gaza foi recebida com críticas contundentes. Organismos multilaterais, como a ONU, através do subsecretário-geral Miroslav Jenca, alertaram para “consequências catastróficas” caso Israel avance com o plano. Além disso, os Estados Unidos — tradicional aliado de Israel — têm manifestado restrições: segundo o portal Axios, fontes do governo Donald Trump não apoiam a anexação definitiva de partes da Faixa.
As negociações entre Israel e Hamas permanecem estagnadas, principalmente em razão do impasse sobre o tamanho e a função da “zona tampão”. Enquanto Israel exige o controle de até 2 km ao redor de toda a Faixa, o Hamas aceita ceder apenas 800 metros. O último mapa apresentado pelos israelenses estabelece controle entre 1,2 km e 1,4 km, mas não houve consenso.
Em resposta às pressões, o governo israelense deve autorizar a entrada de um volume de ajuda humanitária quatro vezes maior do que o permitido atualmente, como tentativa de atenuar críticas externas e buscar legitimidade para a ofensiva.
OMS denuncia destruição sistemática e pede apoio internacional para Gaza
Na terça-feira, 22 de julho de 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu um alerta internacional sobre a deterioração da situação humanitária na Faixa de Gaza, após ataques israelenses atingirem diretamente uma casa de hóspedes e o principal depósito da agência na cidade de Deir Al-Balah. O episódio, considerado pela agência um “grande golpe” ao já debilitado sistema de saúde de Gaza, resultou na perda de equipamentos e medicamentos essenciais, agravando o cenário de crise.
Ataques em Deir Al-Balah agravam colapso do sistema de saúde
A ofensiva israelense registrada na segunda-feira (21/07/2025) atingiu instalações fundamentais para o funcionamento da assistência médica internacional, segundo relato do representante da OMS no Território Palestino, Rik Peeperkorn. Além da destruição física dos prédios, a operação resultou na detenção de um funcionário da agência e na perda de suprimentos críticos para o atendimento da população civil.
“Trata-se de um padrão de destruição sistemática das instalações de saúde”, afirmou Peeperkorn, ao pedir a ampliação do fluxo de ajuda humanitária e a atuação mais incisiva da comunidade internacional para garantir o acesso a medicamentos e equipamentos.
Ordens de evacuação e restrições agravam crise humanitária
As ordens de evacuação emitidas por Israel para a região central de Gaza vêm limitando drasticamente o acesso da população aos serviços essenciais, incluindo hospitais e centros de distribuição de alimentos. Após os ataques, funcionários da ONU precisaram ser transferidos devido ao “risco significativo” de permanecerem na região, aumentando ainda mais o déficit de profissionais para atendimento às vítimas.
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, caracterizou a situação como um “horror humanitário”, destacando o nível de morte e destruição sem precedentes. Ele ressaltou que instalações da ONU, mesmo previamente notificadas às partes do conflito, continuam sendo alvejadas, violando o Direito Internacional Humanitário.
Fome e mortalidade: números alarmantes em 24 horas
Dados das autoridades de saúde locais indicam que, apenas nas últimas 24 horas, mais de 12 crianças e adultos morreram de fome. Várias pessoas deram entrada em hospitais em estado de exaustão severa, consequência direta da escassez de alimentos e do bloqueio às operações humanitárias.
Relatos do Escritório da ONU para Assistência Humanitária (Ocha) confirmam que centenas de pessoas têm sofrido desmaios, ferimentos a balas e até mortes durante a busca por alimentos. A fome iminente, agravada pelo colapso das redes de abastecimento e pela destruição de estoques, coloca a população civil em situação de extremo risco.
Morte de Suleiman al-Obeid, o “Pelé Palestino”, evidencia devastação do esporte em Gaza sob ataques israelenses
Suleiman al-Obeid, um dos maiores ícones do futebol palestino, foi morto na quarta-feira (07/08/2025) durante um ataque israelense no sul da Faixa de Gaza, segundo informou a Federação Palestina de Futebol. Conhecido por sua habilidade e apelidado de “Pelé Palestino”, al-Obeid se destacou como artilheiro e capitão, deixando um legado marcado por mais de 100 gols e uma carreira dedicada integralmente ao esporte em sua terra natal.
Ascensão de um símbolo do futebol palestino
Nascido em Gaza, em 1984, Suleiman al-Obeid iniciou sua trajetória no futebol profissional em 2007 pela Premier League de Gaza, consolidando-se rapidamente como referência técnica e de liderança. Em 2009, transferiu-se para o Markaz Shabab Al-Amari, da Cisjordânia, onde foi campeão da liga em 2011.
Após quatro temporadas bem-sucedidas fora de Gaza, retornou à região de origem e destacou-se como artilheiro por três anos consecutivos (2016, 2017 e 2018), atuando por clubes tradicionais como Gaza SC e Khadamat Al-Shatea, pelo qual seguia jogando até 2023.
Contribuição internacional e trajetória exemplar
Pai de cinco filhos, Suleiman al-Obeid defendeu a seleção nacional da Palestina em 24 partidas, marcando dois gols – incluindo um emblemático gol de bicicleta contra o Iêmen, em 2010. Exerceu a função de capitão tanto no clube quanto na seleção, consolidando-se como referência para gerações de jovens palestinos. Seu comprometimento em permanecer no país, mesmo diante de sucessivas crises e conflitos, é apontado como símbolo de resistência e apego à pátria.
O impacto da guerra no esporte palestino
A morte de Suleiman al-Obeid ocorre em um contexto de devastação generalizada do esporte na Palestina. De acordo com a Associação Palestina de Futebol, ao menos 807 atletas e olheiros morreram desde o início das operações israelenses na Faixa de Gaza, sendo 420 jogadores de futebol.
Além da perda de vidas, 288 instalações esportivas foram destruídas em Gaza e na Cisjordânia desde outubro de 2023, dificultando ainda mais a prática esportiva e a formação de novos talentos. A Federação destaca que o esporte palestino enfrenta um processo de dizimação, com repetidos ataques a centros de treinamento e estádios.
Mais vítimas entre ex-jogadores internacionais
Suleiman al-Obeid tornou-se o terceiro ex-jogador internacional palestino morto em ataques desde 2023, após as mortes de Moyin al-Maghribi, em janeiro de 2024, e Mohammed Barakat, em março do mesmo ano. Tais perdas acentuam a vulnerabilidade de atletas e o impacto humanitário do conflito, que vai além dos campos de batalha e atinge todas as esferas da vida social.











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