PT aprova resolução política com foco em soberania, reforma tributária e resistência a Trump; Lula aposta em frente ampla e diálogo com Centrão para 2026

O Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) aprovou neste sábado (23/08/2025), em Brasília, a nova Resolução Política Nacional, que define as diretrizes da sigla para os próximos anos. O documento estabelece como prioridades o enfrentamento à ofensiva internacional de Donald Trump, o fortalecimento da soberania nacional, o avanço da reforma tributária e a construção de uma frente ampla democrática rumo às eleições de 2026.

Além de reafirmar as conquistas do governo Lula e convocar mobilizações populares, a resolução destaca a necessidade de ampliar alianças no Congresso e de enfrentar o desafio de regular as Big Techs, sem comprometer a competitividade política no ambiente digital.

O texto também projeta um discurso de enfrentamento direto aos Estados Unidos sob Trump e ao bolsonarismo, apontados como protagonistas de uma ofensiva articulada contra o Brasil. Ao mesmo tempo, reafirma o compromisso histórico do PT com a justiça social e a continuidade do governo Lula, valorizando programas sociais, conquistas econômicas e a consolidação de um projeto popular de desenvolvimento nacional.

Ameaças externas e soberania nacional

Segundo a resolução, o país enfrenta um ataque profundo à sua soberania, descrito como um movimento articulado pelo presidente norte-americano Donald Trump em aliança com setores da direita brasileira. O documento cita medidas como retaliações econômicas, pressões diplomáticas e ataques ao sistema de pagamentos instantâneos PIX, além de ameaças relacionadas a terras raras e à Amazônia.

O PT interpreta essas ações como parte de uma ofensiva de caráter fascista e imperialista, cujo objetivo seria fragilizar as instituições brasileiras, impor anistia a Jair Bolsonaro e seus aliados, e inviabilizar a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2026. Para o partido, trata-se de um movimento prolongado, que exigirá resistência política, institucional e social em diferentes frentes.

Alianças políticas e frente ampla democrática

A resolução orienta a construção de uma frente ampla em defesa da democracia e da soberania nacional, unindo partidos progressistas, movimentos sociais, sindicatos e setores da sociedade civil. O PT se compromete a liderar essa articulação, tanto no campo eleitoral quanto nas mobilizações populares.

Cada diretório estadual terá a tarefa de organizar coligações que fortaleçam o projeto de reeleição de Lula e garantam maioria parlamentar no Senado e na Câmara dos Deputados. A estratégia prevê também o fortalecimento da militância nas bases sociais, ampliando a capacidade de mobilização em todas as regiões do país.

Reforma tributária e justiça social

O texto dedica espaço central à reforma da renda, apontada como um divisor de águas na redução das desigualdades. O plano prevê isenção de Imposto de Renda para trabalhadores com renda até R$ 5 mil, redução para rendas de até R$ 7 mil e tributação mais elevada para salários acima de R$ 50 mil.

Segundo o partido, essa mudança estrutural permitirá financiar políticas públicas de impacto direto sobre a vida da população e corrigir distorções históricas em que os mais pobres arcam proporcionalmente com maior peso tributário. A defesa dessa agenda ganhou impulso com a aprovação, na Câmara dos Deputados, da urgência do Projeto de Lei 1087/2025.

Conquistas do governo Lula

A resolução destaca as principais políticas públicas implementadas no atual mandato presidencial. São citados programas como o Bolsa Família ampliado, o Minha Casa Minha Vida, o Plano Safra da Agricultura Familiar, o Mais Médicos, o Desenrola, o Pé de Meia, a Escola em Tempo Integral, o Novo PAC e o Plano de Transformação Ecológica.

O partido celebra, em especial, a retirada do Brasil do Mapa da Fome pela segunda vez, após o retrocesso registrado durante o governo Bolsonaro. O texto também enaltece a redução do desemprego e o crescimento econômico como sinais de que um governo popular é capaz de promover desenvolvimento com inclusão social.

Big Techs e guerra híbrida

Outro ponto central da resolução é a crítica ao papel das Big Techs na disseminação de desinformação, discursos de ódio e manipulação política. O PT alerta para o uso crescente das redes sociais e da inteligência artificial em estratégias de guerra híbrida, voltadas a desestabilizar governos progressistas e corroer a confiança nas instituições democráticas.

A sigla defende uma regulação democrática das plataformas digitais, incluindo mecanismos de punição para violações, fortalecimento da comunicação pública, investimentos em tecnologias nacionais e a valorização de comunicadores populares, como rádios comunitárias e redes periféricas. Para o partido, a regulação da internet é condição indispensável para proteger a soberania e a democracia.

Amazônia e COP30

A realização da COP30 na Amazônia brasileira, prevista para 2025, é destacada como marco estratégico para o país. O evento, segundo a resolução, representa não apenas um compromisso ambiental, mas também um gesto de afirmação da soberania sobre os recursos naturais da região.

O texto sublinha que a floresta amazônica deve ser gerida prioritariamente pelo povo brasileiro, com protagonismo dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Para o PT, a conferência será oportunidade para projetar um modelo de desenvolvimento sustentável e soberano, em contraposição a pressões externas e práticas coloniais.

Mobilizações populares e calendário de lutas

A resolução convoca ampla mobilização da militância e de movimentos aliados para o próximo 7 de Setembro, em atos unificados sob o lema “Quem manda no Brasil é o povo brasileiro”. Além disso, orienta a realização de plebiscitos populares sobre temas como o fim da escala 6×1 e a taxação dos super-ricos, com caráter pedagógico e mobilizador.

Outro destaque é a preparação da 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, marcada para 25 de novembro, em Brasília. A marcha é apresentada como expressão do protagonismo das mulheres negras na luta contra o racismo, o machismo e todas as formas de opressão.

Direitos sociais e enfrentamento às desigualdades

A resolução reafirma o compromisso histórico do PT com a luta contra o racismo, o machismo e a discriminação contra a população LGBTQIA+. O texto denuncia os altos índices de feminicídio no país e defende a ampliação de políticas de proteção, acolhimento e prevenção à violência contra mulheres.

O partido também enfatiza a importância de fortalecer políticas públicas de saúde, educação e segurança, mantendo os pisos constitucionais e ampliando investimentos em áreas estratégicas. Nesse contexto, o fortalecimento da renda, da geração de empregos e da inclusão social é considerado essencial para consolidar a democracia.

Haddad e Alckmin reforçam defesa da soberania nacional e criticam tarifaço de Trump

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Geraldo Alckmin, defenderam neste sábado a importância de preservar a soberania nacional e adotar medidas para proteger a economia brasileira diante das tarifas de 50% impostas pelo governo de Donald Trump. O encontro ocorreu durante reunião do Diretório Nacional do PT, em Brasília, sob condução do presidente do partido, Edinho Silva.

Haddad: soberania e proteção ao setor produtivo

Em sua intervenção, Haddad destacou que o governo Lula reagiu ao tarifaço de Trump com medidas emergenciais e estruturais. O ministro ressaltou que o plano de contingência incluiu concessão de crédito, ampliação de seguros para exportadores e estímulos à manutenção dos empregos.

“Nós vamos ter o tripé perfeito: sistema tributário moderno, crédito e seguro. Esse plano fortalece especialmente os pequenos e médios exportadores, que antes não tinham acesso a seguro”, afirmou Haddad.

Ele também sublinhou o compromisso do governo em promover justiça tributária, lembrando que a faixa de isenção do imposto de renda passará a R$ 5 mil, beneficiando mais da metade dos trabalhadores celetistas.

Haddad reforçou que o Brasil manterá relações estratégicas com os Estados Unidos, mas sem abrir mão da independência dos Poderes nem da postura soberana.

“Jamais pensamos em abrir mão da parceria com os EUA, mas não aceitaremos condições que nos diminuam. As relações têm 200 anos e não serão apagadas por medidas temporárias do governo Trump”, declarou o ministro.

Alckmin: crítica ao desequilíbrio comercial

O vice-presidente Geraldo Alckmin apontou que os Estados Unidos têm superávit comercial com o Brasil e, portanto, a imposição de tarifas é “injustificada”. Ele lembrou que 8 dos 10 principais produtos exportados pelos EUA ao Brasil não pagam impostos, enquanto as barreiras impostas atingem setores sensíveis da indústria nacional.

Segundo Alckmin, 42% das exportações brasileiras aos EUA ficaram de fora do tarifaço, mas cerca de 37% foram taxadas em até 50%, prejudicando especialmente máquinas, calçados, têxteis e alimentos processados.

“O Brasil exportou U$ 40 bilhões aos EUA em 2024. É nosso segundo maior parceiro, atrás apenas da China. Impor tarifas nesse nível prejudica nossa competitividade internacional”, avaliou.

Apesar das críticas, Alckmin afirmou que houve avanços diplomáticos recentes, com recuos dos EUA em alguns setores. Itens como aeronaves e suco de laranja foram excluídos do tarifaço, enquanto o aço e o alumínio foram transferidos para a seção 232, reduzindo parte do impacto sobre a indústria de máquinas.

Segundo o vice-presidente, a orientação do presidente Lula é manter a via da negociação, preservando o diálogo, mas assegurando os interesses nacionais.

Resistência política e comunicação

O senador Humberto Costa também participou do encontro, denunciando tentativas de sabotagem da extrema-direita no Congresso, sobretudo em pautas como anistia a golpistas, ataques ao STF e pressões internacionais contra o Brasil. Para ele, a oposição busca enfraquecer o governo em meio à crise comercial.

Humberto destacou ainda avanços na comunicação do PT e do governo. “Este é o governo do PT que mais tem conseguido comunicar seus resultados, especialmente na economia. Se a população sentir esses efeitos, Lula chegará em 2026 fortalecido”, afirmou.

Lacunas em temas decisivos

A resolução política do Partido dos Trabalhadores (PT) combina um discurso de resistência soberanista com propostas de reforma social e econômica, reforçando a estratégia de mobilização permanente contra o avanço da extrema direita e a pressão internacional representada por Donald Trump. Ao mesmo tempo, busca consolidar uma narrativa de conquistas do governo Lula, transformando resultados de gestão em símbolos de legitimidade política e eleitoral.

Apesar da retórica unificadora, permanecem lacunas em temas decisivos para a governabilidade, especialmente na relação com o Centrão e setores moderados do Congresso. A adesão dessas forças será indispensável para a aprovação de reformas estruturais, e a ausência de diretrizes claras para essa articulação indica um ponto vulnerável na estratégia petista.

Outro desafio relevante é o embate com as Big Techs. O partido se coloca diante da necessidade de regular o ambiente digital em nome da soberania informacional e da integridade democrática, mas enfrenta o risco de, ao fazê-lo, comprometer sua própria capacidade de competir em plataformas que concentram o debate político. A regulação digital, portanto, pode se tornar um campo de contradições entre discurso normativo e prática política.

O debate no Diretório Nacional do PT expôs também a tensão entre pragmatismo e afirmação soberana. O ministro Fernando Haddad apresentou medidas técnicas para blindar a economia e reforçar a justiça tributária, enquanto Geraldo Alckmin utilizou dados de comércio exterior para questionar a legitimidade e a eficácia do tarifaço de Trump. O contraste revela a tentativa de equilibrar a defesa da autonomia nacional com a necessidade de preservar o diálogo com Washington, em um momento de forte ofensiva tarifária e pressão diplomática.

No entanto, esse esforço de conciliação evidencia os limites da estratégia brasileira: ao mesmo tempo em que busca resistir ao imperialismo econômico, o governo não dispõe de instrumentos robustos para influenciar as escolhas de Washington. O resultado é uma política marcada por tensões internas e externas, agravadas pela obstrução sistemática da oposição no Congresso.

O cenário para 2026, portanto, permanece incerto e polarizado. A combinação entre disputa eleitoral acirrada, ofensiva internacional e desafios de governabilidade interna pode redefinir o equilíbrio de forças políticas no Brasil. Mais do que projetar conquistas, a resolução do PT expressa o dilema de um partido que precisa, simultaneamente, resistir, governar e negociar, sem perder de vista a construção de uma narrativa de estabilidade e soberania.

O Diretório Nacional do PT aprovou resolução política que orienta a estratégia do partido até 2026, com ênfase em soberania nacional, reforma tributária e resistência às pressões de Donald Trump. O texto projeta mobilizações populares, alianças políticas e defende regulação das Big Techs. Ao mesmo tempo, reafirma conquistas do governo Lula, mas evidencia lacunas na relação com o Centrão e os limites da estratégia frente à crise comercial com os EUA.
Edinho Silva lidera reunião do Diretório Nacional do PT, realizada no sábado (23/08/2025), em Brasília, que aprovou resolução política e definiu estratégias para as eleições de 2026.

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