No marco do centenário do jornal O Globo, o jornalista André Miranda, editor executivo do veículo de imprensa, publicou, neste mesmo dia, terça-feira (29/07/2025), o artigo especial intitulado “Para Roberto Marinho, os olhos da comunicação deveriam estar sempre voltados para o futuro”, no próprio O Globo, rememorando a trajetória de um dos mais influentes nomes da imprensa brasileira. O texto traça um panorama sobre a vida e o legado de Roberto Marinho, destacando sua atuação como empresário da comunicação, suas contribuições para o jornalismo e os dilemas que marcaram sua carreira.
A origem de um império midiático
Roberto Pisani Marinho nasceu em 3 de dezembro de 1904, no Rio de Janeiro, em uma família já ligada ao jornalismo. Seu pai, Irineu Marinho, fundou o vespertino A Noite em 1911 e, após perder o controle da publicação, criou o jornal O Globo em 29 de julho de 1925. Pouco depois, Irineu faleceu em 21 de agosto do mesmo ano, vítima de infarto. Com apenas 20 anos, Roberto iniciaria então sua carreira no jornal fundado pelo pai.
No entanto, ele só assumiu a direção da empresa seis anos depois, em 1931, aos 26 anos, quando o Brasil vivia uma fase de instabilidade institucional com a ascensão de Getúlio Vargas, que mais tarde instauraria o Estado Novo. Desde então, Marinho liderou o jornal por mais de sete décadas, consolidando um império de mídia que ultrapassaria os limites do impresso.
Expansão e consolidação do Grupo Globo
Durante as décadas seguintes, Roberto Marinho fundou e estruturou os principais pilares do que viria a ser o Grupo Globo, ampliando significativamente sua atuação nos meios de comunicação. Em 1944, criou a Rádio Globo; em 1952, a Rio Gráfica e Editora (rebatizada como Editora Globo em 1986); em 1965, lançou a TV Globo, que se tornaria a maior emissora da América Latina; em 1969, fundou a Som Livre (vendida em 2021 à Sony Music); e, em 1991, a Globosat (incorporada à Globo em 2019).
“O que caracterizava o Dr. Roberto era a postura, o modo de trabalhar e a forma como lidava com os funcionários”, relembra o editor José Mario Pereira, que o acompanhou de perto.
Segundo ele, Marinho mantinha a rotina de chegar cedo ao jornal, mesmo após o crescimento do conglomerado, e era conhecido por ouvir atentamente seus colaboradores, sem nunca levantar a voz.
Entre o poder e a crítica: relações com o regime militar
Um dos aspectos mais debatidos de sua trajetória foi o apoio inicial ao golpe militar de 1964 e à subsequente ditadura. Tal posição rendeu severas críticas à sua figura e ao jornal. Em editorial publicado em 2013, O Globo reconheceu esse apoio como um erro histórico. No entanto, conforme destaca o jornalista Leonencio Nossa, autor da trilogia biográfica sobre Marinho, o comportamento do empresário diante do regime foi “ambíguo”: embora tenha aparecido ao lado de generais e protegido seus negócios, também garantiu abrigo a jornalistas que denunciaram as violações do regime.
Um episódio marcante ilustra sua resistência à censura: ao receber a exigência de enviar ao regime uma “lista de comunistas” na empresa, Marinho teria encaminhado a folha de pagamento completa, afirmando:
“Quem tem que descobrir os comunistas são vocês”.
A frase, célebre, consolidou a imagem de um empresário astuto, capaz de defender seus profissionais diante das arbitrariedades do governo.
Cultura, política e antagonismos
Roberto Marinho também teve papel relevante na vida cultural e política do país, estabelecendo interlocução com figuras de diversos espectros ideológicos. Apesar disso, protagonizou confrontos notórios com políticos como Carlos Lacerda e Leonel Brizola, este último um crítico frequente da emissora. Brizola, contudo, compareceu ao velório do empresário em 2003 e reconheceu:
“Embora existissem grandes diferenças entre nós, ele nunca me negou espaço”.
Sua influência também se fez sentir na dramaturgia e no jornalismo televisivo, áreas nas quais a TV Globo alcançou centralidade no cotidiano brasileiro. As novelas da emissora tornaram-se fenômenos culturais, enquanto suas coberturas jornalísticas passaram a moldar a percepção da sociedade sobre fatos e figuras públicas.
Vida pessoal e legado institucional
Casado três vezes, Roberto Marinho teve quatro filhos e uma numerosa família. Era conhecido por gostar de esportes como hipismo e caça submarina, e manteve o hábito de ler jornais diariamente até o fim da vida. Em 1977, fundou a Fundação Roberto Marinho, voltada para projetos educacionais e de preservação do patrimônio.
Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1993 e recebeu distinções internacionais, como dois prêmios Emmy e dois Maria Moors Cabot, concedidos pela Universidade de Columbia.
Faleceu em 6 de agosto de 2003, aos 98 anos, em sua residência no Cosme Velho, que hoje abriga um centro cultural com seu nome.
Visão de futuro e síntese de um século
Durante entrevista à televisão francesa em 1980, Marinho resumiu seu pensamento sobre o papel da comunicação:
“Em um país em desenvolvimento, os olhos da comunicação devem estar sempre voltados para o futuro”.
A frase, que deu título ao artigo de André Miranda, traduz a perspectiva de um homem que comandou um dos mais influentes conglomerados de mídia do planeta. Seu legado é indissociável do próprio desenvolvimento da imprensa brasileira ao longo do século XX — com suas virtudes, contradições, erros e acertos.
Equilíbrio e profundidade
A reportagem de André Miranda cumpre papel essencial ao reconstituir a figura de Roberto Marinho com equilíbrio e profundidade. O texto reconhece os méritos do empresário na consolidação de um dos maiores grupos de mídia do mundo, mas também não ignora seus posicionamentos controversos, especialmente durante o regime militar.
Ao revisitar o centenário de O Globo, o artigo contribui para um debate mais maduro sobre a responsabilidade da imprensa, sua relação com o poder e o impacto que lideranças como Marinho tiveram sobre o jornalismo, a política e a cultura brasileira. Trata-se de um resgate histórico oportuno em tempos de transformações profundas na comunicação.
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