Morreu nesta terça-feira (02/09/2025), em São Paulo, o jornalista Mino Carta, aos 91 anos. Fundador e diretor de redação da revista CartaCapital, ele estava internado havia duas semanas no hospital Sírio-Libanês. A causa da morte não foi divulgada.
Nascido em Gênova, Itália, em 1934, Demetrio – que se tornaria conhecido como Mino Carta – chegou ao Brasil em 1946, junto aos pais. A família fixou residência em São Paulo, onde ele ingressou na Universidade de São Paulo (USP) para cursar Direito, mas abandonou o curso antes da conclusão.
Sua vocação pelo jornalismo foi marcada pela tradição familiar. O avô materno, Luigi Becherucci, foi afastado da direção do jornal genovês Caffaro durante a perseguição fascista. Já o pai, Giannino, após ser preso pelo regime de Benito Mussolini, emigrou para o Brasil após a Segunda Guerra Mundial, tendo sido convidado a dirigir a Folha de S.Paulo. O cargo, porém, não pôde ser assumido por conta da condição de estrangeiro.
Início da carreira no jornalismo
O primeiro contato de Mino Carta com a profissão ocorreu de forma inusitada. Seu pai foi convidado para escrever sobre os preparativos do Brasil para a Copa do Mundo de 1950, mas, por não gostar de futebol, transferiu a tarefa ao filho. A partir daí, iniciou-se uma carreira que atravessou décadas e marcou a história da imprensa brasileira.
Ao longo da vida, Mino fundou e dirigiu alguns dos mais importantes veículos do país, entre eles as revistas Quatro Rodas, Veja, IstoÉ e, por fim, a CartaCapital, além do tradicional Jornal da Tarde.
Desafios durante a ditadura militar
Durante a década de 1970, Mino atuou na revista Veja em um período em que o veículo fazia oposição ao regime militar. Em entrevistas posteriores, descreveu a experiência como “ótima”, destacando a habilidade necessária para driblar a censura oficial e enfrentar pressões políticas. Segundo ele, era um momento em que o jornalista exercia plenamente o papel de observador e analista, oferecendo à sociedade interpretações críticas da conjuntura.
Reconhecimento e prêmios
Mino Carta recebeu diversas homenagens ao longo da carreira. Foi agraciado com o título de doutor honoris causa pela Faculdade Cásper Líbero e, em 2006, eleito Jornalista Brasileiro de Maior Destaque no Ano pela Associação dos Correspondentes da Imprensa Estrangeira no Brasil (ACIE).
Além da atuação jornalística, publicou obras de ficção e não-ficção, entre elas o romance O Castelo de Âmbar e o livro Histórias da Mooca, marcado por referências pessoais e culturais.
Legado e influência
A morte de Mino Carta encerra um capítulo da história da imprensa nacional. Sua trajetória esteve ligada à criação de veículos independentes e ao enfrentamento de poderes políticos e econômicos. Com a CartaCapital, consolidou-se como um dos principais nomes do jornalismo opinativo e investigativo, sempre em defesa de uma visão crítica da realidade brasileira.
Vazio na imprensa contemporânea
A partida de Mino Carta reforça o vazio na imprensa contemporânea, marcada pela concentração midiática e pela disputa por relevância em plataformas digitais. Seu legado evidencia a importância de veículos independentes, sustentados por convicções editoriais próprias, em contraste com a crescente pressão econômica e política sobre a mídia. Ao mesmo tempo, sua figura suscita debates sobre o papel do jornalismo crítico, ora aclamado como resistência, ora acusado de excessiva militância.








Deixe um comentário