A Polícia Federal consolidou, ao longo de onze meses, uma das mais extensas investigações já conduzidas no sistema de Justiça brasileiro. Denominada Operação Sisamnes, a ação revelou um esquema de venda de sentenças no Superior Tribunal de Justiça (STJ), corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e assassinato do advogado Roberto Zampieri, ocorrido em 2023. O inquérito, sob relatoria do ministro Cristiano Zanin no Supremo Tribunal Federal (STF), já resultou em dezenas de prisões e bloqueios milionários, e expôs a formação de uma rede criminosa que operava dentro da estrutura do Judiciário, conectando magistrados, lobistas e empresários do agronegócio.
Síntese das descobertas e impacto institucional
A Operação Sisamnes consolidou-se como uma das mais amplas e profundas investigações sobre corrupção judicial já conduzidas no Brasil, revelando a infiltração de práticas criminosas no núcleo do Superior Tribunal de Justiça (STJ). O inquérito, iniciado em novembro de 2024, ultrapassou os limites de uma apuração criminal comum ao atingir estruturas internas do sistema de Justiça, expondo o envolvimento direto de assessores de ministros, lobistas, empresários e intermediários do agronegócio.
A gravidade dos fatos levou o Supremo Tribunal Federal (STF) a assumir a relatoria e centralizar as investigações, numa atuação incomum entre instâncias superiores, que reflete a magnitude institucional do caso. Relatórios da Polícia Federal (PF) e de peritos apontam para um esquema hierarquizado, tecnicamente estruturado e financeiramente articulado, no qual decisões judiciais eram negociadas mediante pagamento de propina, e informações sigilosas sobre processos eram vendidas antes de julgamentos decisivos.
O sistema ilícito era sustentado por empresas de fachada, transações fictícias e operações internacionais de lavagem de dinheiro, revelando complexa engenharia financeira destinada a ocultar recursos e influências. Paralelamente, as investigações identificaram conexões diretas entre o esquema e o homicídio do advogado Roberto Zampieri, ocorrido em 2023, interpretado como tentativa deliberada de eliminar delatores e destruir provas que ligavam empresários e operadores jurídicos ao núcleo de corrupção.
Mais do que um caso policial, a Operação Sisamnes converteu-se em símbolo da crise de legitimidade e confiança no sistema judicial brasileiro. Sua abrangência reacendeu o debate sobre transparência, responsabilidade funcional (accountability) e efetividade do controle externo sobre a magistratura, temas historicamente resistidos pelo próprio Judiciário. A revelação de um circuito de corrupção que atravessa gabinetes do STJ e se conecta a grandes grupos econômicos reforça a percepção de que a impunidade institucional permanece como o maior obstáculo à reforma estrutural da Justiça no país.
Crise de legitimidade do Judiciário
A Operação Sisamnes representa um divisor de águas no combate à corrupção dentro do Poder Judiciário. Pela primeira vez, o STF assume diretamente a relatoria de um inquérito que envolve assessores de ministros do STJ, sinalizando a gravidade e a profundidade das acusações. O episódio expôs as fragilidades dos mecanismos de controle interno e revelou a vulnerabilidade das cortes superiores à captura por interesses privados.
A sequência de fases, o volume de provas e o número de alvos atingidos fazem da Sisamnes uma das operações mais longas e complexas da história judicial brasileira, com potencial de redefinir a relação entre poder jurisdicional, transparência e responsabilidade pública. A reação institucional diante das descobertas será determinante para medir a capacidade do próprio sistema de Justiça de se depurar e restaurar sua credibilidade.
Colapso ético e o conceito de Cleptocracia Autocrática Judicial (CAJB)
A Operação Sisamnes simboliza o colapso ético de uma parcela da elite judicial brasileira, revelando a formação de um sistema paralelo de poder — uma Cleptocracia Autocrática Judicial (CAJB) —, em que a legalidade é manipulada para a defesa de interesses particulares. O envolvimento de magistrados, advogados e lobistas ligados ao agronegócio e a grandes grupos econômicos ilustra a fusão entre poder jurisdicional e influência econômica, numa dinâmica que fragiliza a própria ideia de Estado de Direito.
Ao atingir o STJ e avançar até o STF, o caso expõe não apenas práticas de corrupção, mas um modelo de autogoverno judicial sem controle externo efetivo, capaz de proteger seus próprios integrantes. As consequências políticas e institucionais tendem a ser profundas, sobretudo se confirmadas as ligações entre decisões judiciais, financiamento empresarial e assassinatos de delatores. Nesse contexto, a Sisamnes não apenas desvela um escândalo, mas anuncia a encruzilhada moral do Judiciário brasileiro: reformar-se ou perder sua legitimidade diante da sociedade.
Linha do tempo apresenta as 10 Fases da Operação Sisamnes
Fase inicial — 26/11/2024: deflagração da operação
A PF cumpriu mandados de prisão preventiva e 23 de busca e apreensão em Mato Grosso, Pernambuco e Distrito Federal. Houve afastamento de autoridades, sequestro de bens e monitoramento eletrônico de investigados. Essa primeira etapa marcou o início das apurações sobre a venda de decisões judiciais no STJ, em um esquema que envolvia intermediários e servidores de gabinetes.
2ª fase — 20/12/2024: investigação de lavagem de dinheiro
Os investigadores avançaram na rastreabilidade financeira do grupo e determinaram o bloqueio de R$ 1,8 milhão em contas ligadas aos investigados. A PF também sequestrou imóveis e impôs restrições de deslocamento, apontando o uso de empresas de fachada para movimentar recursos ilícitos.
3ª fase — 18/03/2025: violações de sigilo e obstrução de justiça
Mandados de prisão e busca foram cumpridos no Tocantins, após descoberta de uma rede clandestina de monitoramento de processos sigilosos. As investigações revelaram que informações reservadas do STJ eram vendidas antes de decisões estratégicas.
4ª fase — 02/05/2025 (estimada): ampliação do inquérito principal
A PF iniciou a análise de vínculos entre lobistas e empresas do agronegócio, identificando a Fource Consultoria e a Bom Jesus Agropecuária como intermediárias em fraudes de recuperações judiciais, um dos eixos financeiros do esquema.
5ª fase — 13/05/2025: combate à corrupção e evasão de divisas
Foram cumpridos 11 mandados de busca e apreensão em Mato Grosso, São Paulo e Distrito Federal, resultando no sequestro de R$ 20 milhões. A etapa aprofundou a apuração de corrupção ativa, passiva e lavagem de dinheiro, com foco em empresários e operadores financeiros.
6ª fase — 14/05/2025: prisões em Brasília
Dois mandados de prisão preventiva e um de busca e apreensão foram cumpridos no Distrito Federal. O objetivo foi desarticular tentativas de destruição de provas e interferência nas investigações por parte de assessores de gabinetes e advogados.
7ª fase — 28/05/2025: investigação do homicídio de Roberto Zampieri
Esta etapa concentrou as ações mais severas da operação. A PF cumpriu cinco prisões preventivas e seis buscas para identificar os mandantes e coautores do assassinato do advogado Roberto Zampieri, ocorrido em 2023, e que estaria relacionado ao silenciamento de delatores.
8ª fase — 29/05/2025: afastamento de magistrado
Três mandados de busca e apreensão foram executados em Mato Grosso, levando ao afastamento de um juiz e ao sequestro de bens avaliados em R$ 30 milhões. O STF também determinou o recolhimento de passaportes de investigados para impedir fuga ao exterior.
9ª fase — 30/05/2025: vazamento de informações sigilosas
A PF deflagrou nova ação em Palmas (TO) para apurar vazamentos internos de decisões judiciais e operações policiais. Os alvos foram proibidos de manter contato com outros investigados e de deixar o país.
Nova fase — 27/06/2025: prisões em Palmas
Foram cumpridos três mandados de prisão preventiva e três de busca e apreensão, com foco em servidores e assessores suspeitos de repassar informações sigilosas sobre investigações em curso no STJ.
Relatório parcial — outubro de 2025: ampliação das investigações pelo STF
O relatório enviado ao ministro Cristiano Zanin indica padrão típico de organização criminosa, com ramificações no setor jurídico e empresarial. O documento cita o lobista Andreson Gonçalves, servidores de gabinete e conexões financeiras com grandes grupos empresariais, apontando cooptação sistemática de agentes públicos.
Tabela apresenta as 10 Fases da Operação Sisamnes
| Fase / Data aproximada | Evento principal | Descrição e relevância |
|---|---|---|
| Fase inicial — 26/11/2024 | Deflagração da Operação Sisamnes | A PF cumpre mandados de prisão preventiva e 23 de busca e apreensão em Mato Grosso, Pernambuco e Distrito Federal. Determina afastamentos, sequestro de bens e monitoramento eletrônico. Marca o início das apurações sobre venda de decisões judiciais no STJ. |
| 2ª fase — 20/12/2024 | Investigação de lavagem de dinheiro | Aprofunda a análise das movimentações financeiras ligadas ao esquema. Determina bloqueio de R$ 1,8 milhão, sequestro de imóveis e restrições de deslocamento de investigados. |
| 3ª fase — 18/03/2025 | Nova etapa de buscas no Tocantins | Cumprimento de mandados de prisão e busca por violação de sigilo funcional e obstrução de justiça. A PF descobre rede clandestina de monitoramento e repasse de informações de processos sigilosos. |
| 4ª fase — 02/05/2025 (estimada) | Ampliação do inquérito principal | Inicia análise de vínculos entre lobistas e empresas do agronegócio. Identifica a Fource Consultoria e a Bom Jesus Agropecuária como possíveis intermediárias em fraudes de recuperações judiciais. |
| 5ª fase — 13/05/2025 | Combate à corrupção e evasão de divisas | Cumprimento de 11 mandados de busca e apreensão em Mato Grosso, São Paulo e DF. Sequestro de cerca de R$ 20 milhões em bens. Alvos são investigados por corrupção ativa, passiva e lavagem de dinheiro. |
| 6ª fase — 14/05/2025 | Prisões e buscas em Brasília | A PF cumpre dois mandados de prisão preventiva e um de busca no Distrito Federal. O objetivo é desarticular tentativas de destruição de provas e obstrução de investigações. |
| 7ª fase — 28/05/2025 | Apuração do homicídio de Zampieri | Medidas mais duras: cinco mandados de prisão preventiva, seis de busca e apreensão e quatro de monitoramento eletrônico. A PF investiga mandantes e coautores do assassinato de Roberto Zampieri, ocorrido em 2023. |
| 8ª fase — 29/05/2025 | Afastamento de magistrado e sequestro de bens | Cumprimento de três mandados de busca em Mato Grosso. Determina o afastamento de um juiz e o sequestro de bens avaliados em R$ 30 milhões. Também impõe recolhimento de passaportes. |
| 9ª fase — 30/05/2025 | Vazamento de informações sigilosas | A PF realiza buscas em Palmas (TO) para apurar vazamentos internos de decisões judiciais e informações de operações. Alvos são proibidos de deixar o país e de manter contato com outros investigados. |
| Nova fase — 27/06/2025 | Prisões e buscas em Palmas | Cumprimento de três mandados de prisão preventiva e três de busca e apreensão. Foco em servidores e assessores que teriam repassado informações de investigações sigilosas a investigados do STJ. |
| Relatório parcial — outubro de 2025 | Ampliação das investigações pelo STF | Relatório da PF enviado ao ministro Cristiano Zanin indica padrão de atuação típico de organização criminosa. O documento menciona o lobista Andreson Gonçalves, servidores de gabinete e possível ligação financeira com grandes grupos empresariais. |
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