As novas estratégias adotadas por Washington para conter a ascensão da China após a vitória do presidente Donald Trump têm repercussões profundas no cenário internacional. Tão logo tomou posse, Trump anunciou medidas entendidas como uma guerra comercial e tecnológica contra vários países, principalmente contra a China. Segundo o professor Lanxin Xiang, membro do Centro Stimson (think tank sediado em Washington, DC, especialista em relações entre China, EUA e Europa, e professor emérito do Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais e do Desenvolvimento (IHEID), em Genebra — e ex-diretor do Instituto de Estudos de Segurança da Universidade de Xangai), “O regime chinês se preocupa menos com a guerra comercial de Trump do que com a possibilidade de uma confrontação militar com os EUA por causa de Taiwan.”
Com Trump, podemos ter certeza de que não haverá guerra com os Estados Unidos da América em decorrência de algum incidente envolvendo Taiwan. Isso torna mais fácil para Beijing definir sua estratégia para a ilha a médio prazo.
Tudo indica que o interesse de Trump não é a independência de Taiwan. “Ao deixar claro que não deseja se envolver em um conflito militar do outro lado do planeta, Trump reconhece a influência chinesa no Leste Asiático”, além de demonstrar que seu interesse principal é resolver o problema do déficit comercial dos EUA com a China.
A balança comercial entre as duas superpotências estava desequilibrada. A China reconheceu que o desequilíbrio havia saído de controle, necessitando de ajuste. As tarifas de até 150% sobre produtos chineses, inicialmente anunciadas por Trump, eram inaceitáveis, mas o presidente americano firmou um acordo que fixou as tarifas em 55%, considerado um avanço importante nas relações bilaterais.
Em 2024, os EUA exportaram US$ 144,5 bilhões em bens para a China, enquanto a China exportou US$ 439,7 bilhões para os EUA. O saldo foi de déficit de US$ 295,2 bilhões para os norte-americanos, aumento de mais de quatro vezes em relação a 1999. Desde então, o déficit americano aumentou consideravelmente a favor da China.
Para ajustar esse déficit, o meio não é o aumento de tarifas, conforme reconhecido pelo próprio Trump. A maior preocupação chinesa é Taiwan, resultado da guerra civil entre o governo nacionalista (Kuomintang) e os comunistas. Em 1949, os nacionalistas, liderados por Chiang Kai-shek, foram derrotados e refugiaram-se em Taiwan, estabelecendo um governo autônomo, autointitulado República da China, a menos de 200 km da costa chinesa.
Desde então, a China luta por uma reunificação, de preferência pacífica. O princípio de uma única China foi reinterpretado por Deng Xiaoping, ao criar a política de “um país, dois sistemas”, desenvolvida para lidar com a realidade de Taiwan. Segundo o conceito, dois sistemas coexistiriam dentro do Estado soberano da República Popular da China: um socialista e outro capitalista.
Hong Kong é o exemplo mais conhecido dessa política. Quando colônia, era administrada por um governador nomeado pelo monarca britânico, que exercia funções executivas e legislativas. Com a retomada da soberania chinesa em julho de 1997, a Lei Básica da Região Administrativa Especial de Hong Kong passou a reger o princípio de “um país, dois sistemas”, permitindo a manutenção de sua economia capitalista e autonomia política, exceto em política externa e defesa, por um período de 50 anos.
A lei de segurança imposta por Pequim em 2020 enfraqueceu o conceito de “um país, dois sistemas”, ameaçando a autonomia da região. Hoje, prevalece o princípio de “patriotas governando Hong Kong”, considerado essencial para reformar o sistema eleitoral e garantir a estabilidade democrática local.
Qualquer residente de Hong Kong pode concorrer às eleições e participar do governo, conforme previsto em lei. Sob o princípio de “um país, dois sistemas”, Hong Kong vem mantendo a democracia e um progresso constante.
*Luiz Holanda, advogado e professor universitário.








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