Reportagem de Aguirre Talento, publicada nesta sexta-feira (10/10/2025) no Estadão, revela que a Polícia Federal (PF) solicitou ao ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorização para aprofundar as investigações sobre a venda de decisões judiciais no Superior Tribunal de Justiça (STJ). O pedido, apresentado no âmbito de um inquérito sigiloso em curso no STF, busca ampliar o alcance das apurações sobre relações entre empresários, advogados e servidores públicos que teriam formado um esquema de corrupção judicial e tráfico de influência dentro da cúpula do Judiciário.
No centro das investigações está a empresa Fource Consultoria e Participações, apontada pela PF como suposto núcleo operacional do esquema, chefiado pelos empresários Haroldo Augusto Filho e Valdoir Slapak. Segundo o relatório parcial entregue a Zanin, Haroldo “mantinha influência direta em gabinetes do STJ”, com intermediação de lobistas e advogados. Um dos nomes citados é o da advogada Catarina Buzzi, filha do ministro Marco Buzzi, mencionada em diálogos obtidos a partir de extrações de dados da nuvem de um dos investigados.
Defesa de Catarina Buzzi repudia associação a investigações
Em nota enviada à imprensa, a defesa de Catarina Buzzi classificou como “descabida e maliciosa” a vinculação de seu nome à investigação. A advogada afirmou nunca ter atuado em favor da Fource ou de seus proprietários, e que o único vínculo existente é um contrato de locação de salas comerciais no edifício onde funcionava o escritório da empresa.
“Alugar imóvel não constitui crime”, diz a nota. “A advogada não se responsabiliza por eventual citação do nome dela em conversas de terceiros, ainda mais em diálogos sem relevância jurídica.”
O gabinete do ministro Marco Buzzi também declarou que o magistrado não tem qualquer relação com os fatos investigados e que jamais proferiu decisões favoráveis aos interesses do empresário Haroldo Augusto Filho.
A empresa Fource e a defesa de Haroldo foram procuradas, mas não responderam até o fechamento da matéria.
Rede de intermediação e influência no STJ
De acordo com a PF, a Fource identificava processos com potencial econômico e contratava dois operadores para “serviços ilícitos”: o lobista Andreson de Oliveira Gonçalves e o advogado Roberto Zampieri, assassinado em dezembro de 2023.
As mensagens interceptadas mostram que Haroldo buscava aproximação com magistrados e familiares por meio de eventos jurídicos, jantares e doações indiretas. Um dos episódios citados foi a tentativa de organizar um jantar para o ministro Marco Buzzi, revelada anteriormente pelo Estadão.
O relatório descreve que “a inserção da Fource em círculos jurídicos de prestígio proporcionava acesso privilegiado a autoridades, alcançando inclusive relações pessoais com advogados e familiares de magistrados”.
Novos diálogos revelam esquema mais amplo
O inquérito aponta que o lobista Andreson Gonçalves montou uma rede de operadores e servidores para comercializar decisões judiciais no STJ. Ele teria cooptado o servidor Márcio Toledo Pinto, recentemente demitido da Corte, em troca de pagamentos vultosos feitos por meio de uma empresa registrada em nome da esposa de Toledo.
A PF identificou transferências de R$ 4 milhões entre 2022 e 2023, coincidindo com o período em que o servidor repassava minutas de decisões do gabinete da ministra Isabel Gallotti. Nos diálogos apreendidos, Andreson enviava comprovantes de depósitos e negociava alterações em textos de minutas antes da assinatura oficial.
A investigação encontrou ainda indícios de uso de aeronaves particulares por autoridades, empréstimos de valores expressivos e tentativas de interferência em indicações para cargos públicos. Por envolver outras jurisdições e possíveis conexões com tribunais estaduais, a PF sugeriu abrir procedimentos autônomos para não dispersar o foco da apuração principal.
Estrutura do esquema e papel de intermediários
Os investigadores descreveram o funcionamento do grupo como um mercado paralelo de influência, em que contratos milionários de advocacia e consultoria mascaravam o pagamento por decisões previamente combinadas.
Zampieri, segundo a PF, “atuava como intermediador, ajustando encaminhamentos e articulando contatos externos”, enquanto Andreson concentrava sua ação em Brasília, explorando vínculos com servidores e chefes de gabinete para alterar prazos e pautas processuais.
O relatório ressalta que a cooptação de servidores era essencial para o esquema, e que os dados coletados na nuvem de Andreson forneceram “evidências robustas de manipulação judicial e corrupção sistêmica”.
Relatório parcial e próximos passos
O documento enviado por Zanin ao STF destaca que a investigação está longe de ser concluída. A PF pede diligências complementares, novas quebras de sigilo e oitiva de personagens ainda não interrogados, entre eles pessoas ligadas à Fource e ao entorno de magistrados.
“O presente relatório não encerra a investigação”, afirma a PF. “Estabelece uma base indiciária sólida para o avanço das diligências e a atribuição individualizada de responsabilidades penais.”
A expectativa é que novos desdobramentos ocorram nas próximas semanas, especialmente se houver autorização judicial para ampliar o escopo das apurações e aprofundar o rastreamento de fluxos financeiros e patrimoniais.
Nepotismo e accountability
A ampliação do inquérito revela a persistente fragilidade dos mecanismos de controle interno no Judiciário e a necessidade de maior transparência na atuação de magistrados e servidores. Casos como o da Fource expõem uma zona cinzenta entre advocacia de influência e corrupção judicial, reforçando o debate sobre integridade institucional, nepotismo indireto e accountability nos tribunais superiores.
O fato de as investigações alcançarem parentes de magistrados — ainda que sem provas de participação direta — reacende discussões sobre conflitos de interesse e barreiras éticas insuficientes no sistema judicial brasileiro. A condução do caso pelo ministro Zanin, por sua vez, será um teste para o compromisso do STF com a imparcialidade e a transparência processual.
Direito de Resposta solicitado pela defesa da advogada Catarina Buzzi
O advogado João Pedro de Souza Mello, representando a advogada Catarina Buzzi, vem exercer o direito de resposta, com fundamento no artigo 5º, inciso V, da Constituição Federal, e na Lei nº 13.188/2015, pelos seguintes esclarecimentos:
“É descabida e maliciosa a tentativa de envolver o nome da advogada Catarina Buzzi em qualquer investigação relacionada a decisões de tribunais superiores. A profissional nunca atuou em processos vinculados à empresa Fource Consultoria, aos seus proprietários, ou a qualquer pessoa física ou jurídica mencionada na reportagem.
A advogada não manteve relação profissional ou contratual com os citados Andreson de Oliveira e Carlos Chaves, tampouco recebeu qualquer pagamento ou vantagem desses indivíduos.
O único vínculo existente é um contrato de locação de três salas comerciais pertencentes à empresa Fource, situadas em prédio na área central de Brasília, onde a advogada manteve endereço profissional. Ressalta-se que alugar um imóvel não configura ilícito penal ou ético.
A advogada não é investigada em nenhum procedimento no Supremo Tribunal Federal nem em qualquer outra instância, e não responde a qualquer inquérito relacionado ao tema da matéria. Eventuais citações a seu nome em conversas de terceiros carecem de relevância jurídica e não possuem valor probatório.
A investigação mencionada na reportagem, até onde é de conhecimento público, diz respeito a casos específicos que não têm qualquer relação com a atuação profissional de Catarina Buzzi.
Por respeito à verdade e à reputação da advogada, requer-se que esta nota seja publicada com igual destaque e visibilidade à matéria original, em cumprimento aos princípios da veracidade, proporcionalidade e direito à honra previstos na legislação vigente.
Brasília, 17 de outubro de 2025
João Pedro de Souza Mello
Advogado de Catarina Buzzi”
Principais Dados
1. Contexto da Investigação
- Órgão responsável: Polícia Federal (PF)
- Autoridade supervisora: Ministro Cristiano Zanin (STF)
- Objeto: Venda de decisões judiciais e tráfico de influência no STJ
- Natureza: Inquérito criminal em curso, sob sigilo judicial
- Status: Relatório parcial encaminhado ao STF; novas diligências solicitadas
2. Núcleo Central do Esquema
- Empresa investigada: Fource Consultoria e Participações
- Principais sócios: Haroldo Augusto Filho e Valdoir Slapak
- Atuação: Intermediação de decisões judiciais e aproximação com magistrados
- Método: Patrocínio de eventos jurídicos, jantares e relações pessoais com membros e familiares do STJ
3. Envolvidos e Citações
- Haroldo Augusto Filho: Empresário apontado como articulador; teria influência direta em gabinetes do STJ
- Valdoir Slapak: Sócio da Fource, cofundador do esquema
- Andreson de Oliveira Gonçalves: Lobista; coordenava rede de operadores e servidores estratégicos
- Roberto Zampieri: Advogado intermediador; assassinado em dezembro de 2023
- Márcio Toledo Pinto: Servidor do STJ demitido; repassava minutas de decisões à rede
- Catarina Buzzi: Advogada, filha do ministro Marco Buzzi; citada por manter relação locatícia com a Fource, mas nega qualquer envolvimento
- Ministro Marco Buzzi (STJ): Mencionado indiretamente; gabinete afirma não haver irregularidades
4. Evidências e Operações Financeiras
- Transferências identificadas: R$ 4 milhões
- Período: 2022–2023
- Origem: Contas ligadas a Andreson Gonçalves
- Destino: Empresa em nome da esposa do servidor Márcio Toledo Pinto
- Finalidade presumida: Pagamento por manipulação de minutas e favorecimento em decisões
5. Diálogos e Provas Digitais
- Fonte: Nuvem do celular do lobista Andreson Gonçalves
- Conteúdo:
- Comprovantes de depósitos enviados a servidores
- Conversas sobre minutas de decisões judiciais
- Citações a outros servidores e assessores do STJ
- Indícios de empréstimos de aeronaves e vantagens pessoais
- Conclusão da PF: Existência de um “mercado paralelo de influência” com contratos simulando serviços jurídicos
6. Conexões Institucionais e Desdobramentos
- Tribunal central: Superior Tribunal de Justiça (STJ)
- Gabinetes mencionados: Ministra Isabel Gallotti e outros ainda não identificados
- Possível ampliação: Outras unidades jurisdicionais e tribunais estaduais
- Pedido da PF: Criação de procedimentos autônomos para novas frentes de apuração
7. Situação Processual e Próximos Passos
- Natureza do documento: Relatório Parcial
- Encaminhamento: STF, sob relatoria de Cristiano Zanin
- Pedidos adicionais da PF:
- Quebras de sigilo bancário e telefônico
- Novas oitivas de personagens ligados à Fource
- Rastreamento de fluxos financeiros e patrimoniais
- Conclusão da PF: “Base indiciária sólida para avanço das diligências e atribuição individualizada de responsabilidades penais.”
8. Posição das Defesas
- Catarina Buzzi: Nega relação com o esquema; afirma ter apenas alugado salas comerciais da Fource
- Ministro Marco Buzzi: Informa não ter proferido decisões que beneficiem empresários investigados
- Fource e Haroldo Augusto Filho: Não se manifestaram até o fechamento da matéria
- Servidores e lobistas citados: Sem respostas oficiais até o momento
9. Relevância Institucional
- Tema sensível: Corrupção judicial e integridade do sistema de Justiça
- Impacto: Fragilidade nos mecanismos de controle interno e imagem do STJ
- Debate público: Nepotismo indireto, influência privada e falta de accountability no Judiciário
- Símbolo do caso: Confronto entre o dever de imparcialidade e a influência de redes de poder invisíveis
Aqui está uma linha do tempo sintética e verificável da Operação Sisamnes e dos principais fatos já tornados públicos. Sempre que possível, incluo datas precisas e o ato processual correspondente.
Linha do tempo da Operação Sisamnes
- Dez 2023 — Homicídio do advogado Roberto Zampieri (Cuiabá/MT). O caso, depois conectado às apurações sobre venda de decisões, torna-se ponto de partida de diversas diligências. A PF prendeu suspeitos em fases posteriores da Sisamnes.
- 26 nov 2024 — 1ª fase deflagrada; prisão do lobista Andreson de Oliveira Gonçalves. A PF investiga organização criminosa, corrupção, exploração de prestígio e violação de sigilo funcional relacionadas à venda de decisões no STJ.
- 20 dez 2024 — 2ª fase; bloqueio de bens. A PF anuncia bloqueio de valores (R$ 1,8 milhão) e explica a origem do nome “Sisamnes” (juiz persa punido por corrupção, na tradição relatada por Heródoto).
- 18 mar 2025 — Nova fase mira venda de decisões no STJ. Prisão de investigados por comercialização de decisões; a PF volta a contextualizar o nome da operação.
- 28 mai 2025 — Prisões ligadas ao homicídio de Zampieri; operação se expande. Cinco suspeitos do assassinato são presos. No mesmo período, a PF descreve rede financeiro-empresarial para lavar propinas ligadas à compra de decisões no STJ.
- Jul–ago 2025 — Avanço das provas digitais e conexão com empresários. Reportagens destacam que a Fource atuaria nos bastidores, adquirindo posições em litígios e aproximando-se de gabinetes; peritos encontram novas minutas em dispositivos de Andreson.
- 5 set 2025 — Demissão do servidor Márcio José Toledo Pinto (STJ). Ato no DOU após PAD; ele é citado por repassar minutas do gabinete da ministra Isabel Gallotti ao lobista Andreson, mediante repasses financeiros a empresa em nome da esposa.
- 3 out 2025 — Busca da PF na casa do lobista Andreson (DF). Medidas cautelares reforçam linha de investigação sobre vazamento/alteração de minutas e trânsito de vantagens.
- 10 out 2025 — Relatório parcial aponta a Fource como “núcleo central” do esquema. Documento enviado ao ministro Cristiano Zanin (STF) pede ampliação de diligências, cita Haroldo Augusto Filho e Valdoir Slapak (Fource), e menciona Catarina Buzzi (filha do ministro Marco Buzzi). Defesas negam irregularidades; empresa não se manifesta.
- 10 out 2025 — Nova frente: contratos e valores com grandes grupos. A PF avalia mensagens em que Andreson diz ter recebido R$ 19 milhões para atuar em processo ligado à JBS; investigação pedirá aprofundamento.
- 10–11 out 2025 — Delegado responsável entrega relatório parcial e pede saída do caso. Pedido é formalizado após indicar próximos passos, inclusive frentes autônomas envolvendo outras jurisdições.
- Out 2025 — Detalhes sobre o “mercado paralelo de influência”. A PF descreve contratos milionários de advocacia/consultoria usados para simular serviços e remunerar decisões previamente combinadas; há referências a empréstimo de aeronaves, indícios de influência em indicações e criação de contatos falsos com nomes de servidores do STJ.
Notas de contexto histórico (origem do nome)
- “Sisamnes” remete ao juiz persa esfolado por ordem do rei Cambises II por corrupção — metáfora adotada pela PF para denominar a operação.
Rastros financeiros
A cronologia mostra que a prova digital (nuvem de Andreson) e os rastros financeiros sustentam a expansão do caso do homicídio de Zampieri para um esquema sistêmico: minutas antecipadas, contratos de fachada e intermediação por operadores e servidores. O relatório parcial de 10/10/2025 consolida a Fource como pilar operacional e justifica novas quebras e oitiva de envolvidos, agora também mirando relações empresariais de grande porte.











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