Salvador: Registro do Sítio Arqueológico Cemitério dos Africanos é homologado pelo IPHAN e revela o maior cemitério de escravizados da América Latina

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) homologou o registro do Sítio Arqueológico Cemitério dos Africanos, localizado sob o estacionamento do Complexo da Pupileira, em Salvador. O estudo, conduzido pela Arqueólogos Consultoria LTDA, confirma a existência do antigo Cemitério do Campo da Pólvora, considerado um dos maiores cemitérios de pessoas escravizadas da América Latina. O reconhecimento garante proteção oficial e abre caminho para a criação de um centro de memória dedicado à ancestralidade africana.

Confirmação científica e homologação do IPHAN

O relatório final, disponível para consulta pública no sistema SEI do IPHAN, foi elaborado após meses de escavações, análises laboratoriais e escuta social. A arqueóloga e antropóloga Jeanne Dias, coordenadora da pesquisa, destacou que o material coletado inclui 224 peças, sendo 100 fragmentos ósseos humanos pertencentes a, pelo menos, dois indivíduos. Segundo ela, os achados confirmam a densidade de sepultamentos e a localização precisa do antigo campo santo.

A ocupação identificada pelos pesquisadores, em uma área de apenas 1,5 m² a três metros de profundidade, revelou indícios da presença de centenas de milhares de pessoas enterradas ao longo de 170 anos. Entre elas, estavam pobres, indigentes, não batizados, excomungados, prostitutas, criminosos, suicidas, escravizados e insurgentes, incluindo líderes da Revolta dos Malês, de 1835.

Reunião pública e integração institucional

A apresentação dos resultados ocorreu em 21 de outubro de 2025, com a participação de representantes do IPHAN, do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), da Santa Casa de Misericórdia, proprietária do terreno, e do Ministério Público da Bahia (MPBA). Estiveram presentes os procuradores Alan Cedraz, Cristina Seixas e Lívia Vaz, além do professor Dr. Samuel Vida e da doutoranda Silvana Olivieri.

Durante o encontro, os pesquisadores detalharam todas as etapas da investigação: escutas sociais, reuniões comunitárias mediadas pelo MP, rituais inter-religiosos e análise da cadeia operatória arqueológica. Jeanne Dias explicou que nenhuma exumação direta foi realizada, preservando o caráter sagrado do local.

“Os fragmentos encontrados foram coletados apenas quando vieram à superfície durante o peneiramento, pois seria impossível devolvê-los ao ponto de origem”, afirmou.

Relevância histórica e recomendações para preservação

O Cemitério dos Africanos é um marco da história afro-brasileira e um testemunho da marginalização social e religiosa que marcou o período colonial e imperial. Os pesquisadores defendem a continuidade das escutas sociais e a criação de um espaço permanente de memória e educação no próprio local, aberto ao público.

O parecer técnico do IPHAN recomenda o isolamento e desocupação da área atualmente utilizada como estacionamento, para viabilizar a continuidade das pesquisas e a implantação de um memorial dedicado à resistência africana e afrodescendente. O Ministério Público da Bahia deve acompanhar o cumprimento das medidas de preservação e diálogo comunitário.

Significado cultural e perspectivas futuras

O reconhecimento do sítio reforça o papel de Salvador como epicentro da memória afro-brasileira e amplia a responsabilidade das instituições públicas na preservação da herança africana. A descoberta do cemitério, sob uma das áreas mais tradicionais da cidade, é também um alerta sobre o apagamento histórico e o valor da arqueologia urbana como instrumento de justiça histórica.

A expectativa é que, com a desocupação da área e a consolidação do centro de memória, o espaço se torne um referencial internacional de pesquisa e turismo histórico, atraindo estudiosos e visitantes interessados na trajetória dos povos africanos no Brasil.

Reparação simbólica e institucional

A homologação do Cemitério dos Africanos representa não apenas um avanço técnico-científico, mas um ato de reparação simbólica e institucional. O caso evidencia a tensão entre memória e urbanização, expondo o conflito entre o patrimônio histórico e os interesses econômicos que moldaram o centro de Salvador. O desafio agora é transformar o reconhecimento formal em política pública efetiva de preservação e valorização da história afro-brasileira, garantindo que a memória dos esquecidos não seja novamente soterrada — desta vez, pela negligência do presente.


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