O Governo da Bahia participou, nesta quinta (20/11/2025) e sexta-feira (21), do seminário regional com comunidades tradicionais de fundo de pasto das regiões de Monte Santo, Uauá e Juazeiro, encontro que fortalece a discussão sobre conservação da Caatinga, segurança alimentar e patrimônio agrícola mundial. O evento reforçou o processo de elaboração do dossiê que poderá credenciar esses territórios ao reconhecimento internacional da FAO no programa SIPAM.
O seminário, realizado com apoio da Coordenação-Geral do Bahia Sem Fome e da Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), reuniu aproximadamente 60 representantes de comunidades tradicionais que buscam, desde janeiro de 2025, o terceiro reconhecimento brasileiro no programa SIPAM — Sistemas Importantes de Patrimônio Agrícola Mundial.
Durante o encontro, foram compartilhadas práticas agrícolas, formas de manejo sustentável e estratégias de conservação da Caatinga, saberes que estruturam há séculos o modo de vida das comunidades de fundo de pasto. A aproximação com a FAO pode consolidar oficialmente esse patrimônio imaterial, ambiental e produtivo.
O coordenador-geral do Bahia Sem Fome, Tiago Pereira, afirmou que apoiar essas iniciativas significa fortalecer um modelo de desenvolvimento que integra agricultura sustentável, geração de renda e combate à fome. Segundo ele, as comunidades mantêm a Caatinga viva “de forma sustentável e saudável”, demonstrando que preservação e produtividade podem caminhar juntas.
Comunidades entregam dossiê para reconhecimento internacional
O articulador estadual das Comunidades Tradicionais de Fundos e Fechos de Pasto, Valdivino Rodrigues, confirmou a entrega de um dossiê preparado ao longo do ano, além do plano de conservação dinâmica concluído ontem. Ambos os documentos serão encaminhados à FAO como parte da candidatura ao programa SIPAM.
O reconhecimento da FAO é considerado decisivo não apenas para o semiárido baiano, mas para o semiárido brasileiro como um todo. A certificação SIPAM eleva o status internacional do sistema agrícola, reforça a preservação ambiental e amplia as possibilidades de apoio técnico, econômico e institucional.
Criado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, o programa SIPAM identifica sistemas agrícolas tradicionais que combinam sustentabilidade, biodiversidade, cultura e resiliência, preservando paisagens e práticas únicas ao redor do mundo.
Brasil já conta com dois sistemas reconhecidos pela FAO
O Brasil possui atualmente dois sistemas certificados:
- Apanhadores de Flores Sempre-vivas da Serra do Espinhaço (MG) — reconhecido em março de 2020 pela forte interação entre comunidade, paisagem e preservação ambiental.
- Cultivo de erva-mate sombreada (PR) — reconhecido em maio de 2025, prática ancestral dos povos Guarani e Kaingang; cerimônia oficial ocorreu em Roma em 31 de outubro de 2025.
Caso obtenham a certificação, as comunidades de fundo de pasto se tornarão o terceiro sistema brasileiro SIPAM, fortalecendo a visibilidade do semiárido baiano no cenário internacional de agricultura sustentável.
Organização e relevância institucional
O seminário foi promovido pela Articulação Estadual de Fundo e Fecho de Pasto, pela Escola Família Agrícola do Sertão (EFASE) e pelo Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), com apoio direto do Governo da Bahia, por meio do Bahia Sem Fome.
Para Nilton Oliveira, coordenador do Eixo Produção Apropriada do IRPAA, o apoio do programa estadual amplia a capacidade das comunidades de manter seus territórios produtivos, respeitando a biodiversidade e afirmando modos de vida tradicionais. Ele destaca que políticas públicas voltadas à segurança alimentar devem caminhar junto com ações que garantam a permanência e o fortalecimento das práticas comunitárias.
Fundo de Pasto: tradição centenária e sustentabilidade
As comunidades de fundo de pasto são caracterizadas pelo uso comunitário da terra, aliado ao uso individual; pela criação de caprinos e ovinos; pela produção agrícola de base familiar para consumo e comercialização; e pelo extrativismo sustentável.
Esses territórios, localizados na Caatinga e em zonas de transição com o Cerrado, preservam estruturas sociais baseadas em parentesco, compadrio e solidariedade. Em muitos casos, a ocupação remonta ao início do século XIX, com cerca de 200 anos de presença contínua.
A manutenção da Caatinga “em pé” é uma marca dessas comunidades, que praticam manejo sustentável adaptado ao clima semiárido, preservando recursos naturais e conhecimento tradicional.
Eficácia produtiva
O seminário regional reforça o protagonismo das comunidades tradicionais de fundo de pasto em um momento em que o Brasil precisa ampliar políticas de conservação da Caatinga. O processo de candidatura ao selo SIPAM evidencia que sistemas agrícolas tradicionais conseguem reunir sustentabilidade ambiental, identidade cultural e eficácia produtiva, contrariando percepções de que o desenvolvimento exige rompimento com práticas históricas.
Apesar dos avanços, ainda existem desafios: a regularização fundiária, a ampliação do acesso a políticas de fomento e a proteção contra pressões territoriais externas continuam sendo pontos sensíveis. O reconhecimento internacional pode fortalecer essas agendas, mas depende de continuidade política e institucional para transformar a certificação em benefícios tangíveis.












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