Crise no Banco Master revela rombo bilionário, falhas regulatórias e redes políticas no sistema financeiro; Operação Compliance Zero terá desdobramentos

A liquidação do Banco Master, decretada nesta terça-feira (18/11/2025), consolidou uma das maiores crises bancárias das últimas décadas no Brasil. A Polícia Federal afirma que o rombo provocado por fraudes financeiras pode chegar a R$ 12 bilhões, em um esquema que envolvia títulos falsos, operações simuladas e triangulações contábeis. A ofensiva resultou na prisão do controlador Daniel Vorcaro, no afastamento da cúpula do BRB e na ativação emergencial do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para pagar 1,6 milhão de investidores. A expectativa é de que a Operação Compliance Zero desencadeada pela Polícia federal (PF) tenha desdobramentos.

A gênese da crise: como uma instituição de médio porte chegou ao colapso

Desde 2021, o Banco Master vinha adotando uma estratégia agressiva de expansão, baseada na captação de recursos com CDBs com rentabilidade acima do mercado, chegando a 140% do CDI — percentual incomum até para bancos médios. Esse tipo de remuneração costuma indicar busca acelerada por liquidez, algo que chamou a atenção de analistas e reguladores.

Ao mesmo tempo, o banco expandia sua atuação em crédito consignado, precatórios, fundos estruturados e produtos de varejo, além de entrar em setores variados por meio de participações em empresas de turismo, educação, saúde e varejo. A multiplicidade de frentes, embora vendida como diversificação, também dificultava a fiscalização.

No plano institucional, o Master buscou consolidar uma imagem de solidez ao inaugurar sede luxuosa na Faria Lima, promover eventos de grande porte e aproximar seu quadro diretivo de autoridades políticas e jurídicas influentes. Paralelamente, surgiam questionamentos sobre riscos de solvência e práticas de governança.

O início das investigações e o aprofundamento das suspeitas

As apurações começaram em 2024, quando o Banco Central detectou operações repetitivas e de volume crescente envolvendo a venda de carteiras de crédito consignado ao Banco de Brasília (BRB). Os padrões levantaram suspeita de que o Master estaria utilizando essas transações para melhorar artificialmente seus demonstrativos financeiros.

Segundo o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, ouvido pela CPI do Crime Organizado, as operações tinham potencial de causar danos sistêmicos ao mercado e constituíam um sofisticado esquema de simulação de créditos e emissão de títulos falsos.

As informações motivaram um relato de fato do Banco Central ao Ministério Público Federal, que, por sua vez, acionou a PF. A partir desse ponto, as investigações passaram a apontar para práticas reiteradas e estruturadas de fraude.

A prisão de Daniel Vorcaro: tentativa frustrada de deixar o país

Na noite de segunda-feira (17), Daniel Vorcaro foi preso no Aeroporto de Guarulhos, ao tentar embarcar em um avião particular. Câmeras de segurança registraram o momento em que agentes federais à paisana o abordam ainda na fila do raio-x.

A defesa afirmou que o destino seria Dubai, para concluir negociações de venda do banco ao grupo Fictor, acompanhado de investidores dos Emirados Árabes Unidos. Porém, o plano de voo apresentado indicava Malta como primeiro destino, levantando suspeitas de fuga.

A PF considera que a operação de venda anunciada horas antes funcionaria como manobra para encobrir a real intenção de evasão. As ordens de prisão haviam sido assinadas às 15h29 daquele mesmo dia, mas o deslocamento inesperado do banqueiro antecipou o cumprimento dos mandados.

BRB: suspeitas, afastamentos e repercussões institucionais

O caso atingiu frontalmente o Banco de Brasília (BRB), parceiro do Master em operações de crédito consignado. O presidente Paulo Henrique Costa e o diretor de Finanças Dario Oswaldo Garcia Júnior foram afastados pela Justiça.

Inicialmente, houve determinação de bloqueio patrimonial amplo, mas a 10ª Vara Federal de Brasília retificou a decisão, esclarecendo que o BRB, como instituição, não é alvo das medidas de constrição, que atingem apenas pessoas físicas e empresas diretamente investigadas.

O governo do Distrito Federal nomeou Celso Eloi de Souza Cavalhero, superintendente da Caixa, para assumir interinamente a presidência do banco, sujeito à aprovação pela Câmara Legislativa.

A investigação se aprofunda sobre a atuação de dirigentes do BRB nas operações suspeitas e na tentativa de compra do Master, aprovada em março por R$ 2 bilhões, que poderia ter servido para juntar balanços e mascarar prejuízos.

Os ex-sócios do Master e a teia de relações políticas: o caso Augusto Lima

A prisão de Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro e figura influente no mercado de crédito consignado, ampliou o alcance político do caso. Economista baiano, Lima construiu sua projeção após adquirir a antiga Cesta do Povo, na Bahia, durante o governo de Rui Costa, criando o sistema Credcesta, que depois seria incorporado ao Master.

Com trânsito entre diferentes grupos políticos — PT, União Brasil, PL —, Lima mantinha relações próximas com figuras como Jacques Wagner, ACM Neto e João Roma. Seu casamento com Flávia Peres, ex-ministra do governo Bolsonaro e apoiada por Arthur Lira, ampliou essas conexões para o centrão.

A defesa afirma que Lima deixou todas as funções executivas do Master em maio de 2024 e que não participou das operações sob investigação. Entretanto, sua prisão indica que autoridades veem relevância em sua atuação anterior, sobretudo pela ligação com o Credcesta, considerado um dos braços mais sólidos da instituição.

As conexões de Maurício Quadrado e a expansão de riscos no mercado

Outro ex-sócio, Maurício Quadrado, também aparece nas investigações. Sua aquisição do Letsbank, braço digital do Voiter, foi negada pelo Banco Central, enquanto a de Lima foi aprovada. Quadrado já havia sido citado em apurações envolvendo fundos de investimento e operações de mercado relacionadas ao empresário Nelson Tanure.

Sua presença no caso destaca o papel de fundos alternativos, gestoras paralelas e plataformas digitais na circulação de valores de origem heterogênea — terreno fértil para irregularidades.

Liquidação extrajudicial: o colapso operacional e humano na Faria Lima

Com a decisão do Banco Central, a sede do Master amanheceu praticamente vazia. Funcionários relataram surpresa, insegurança e ausência de comunicação interna. De instituição premiada como “Great Place to Work” em 2024, o ambiente se transformou em cenário de apreensão.

A liquidação extinguiu automaticamente os contratos de trabalho, conforme determina a legislação. Com isso, mais de 500 empregados perderam o vínculo, restando como prioridade o pagamento de verbas rescisórias no processo de liquidação.

A movimentação de policiais federais, técnicos do Banco Central e carros com vidros escuros contrastava com a imagem de prosperidade que a instituição sustentou até dias antes, reforçada pelo prédio de treze andares recém-inaugurado e seu design sofisticado.

FGC assume o impacto: ressarcimento recorde e debate sobre reformas

O FGC informou que cobrirá integralmente R$ 41 bilhões em depósitos garantidos, beneficiando cerca de 1,6 milhão de investidores. Trata-se de uma das maiores operações de ressarcimento da história do fundo, que conta atualmente com R$ 120 bilhões em liquidez.

A operação será iniciada em aproximadamente 30 dias, após consolidação dos dados fornecidos pela liquidante nomeada pelo BC. Credores pessoa física farão o pedido via aplicativo; empresas, pelo Portal do Investidor.

O caso reacendeu debate técnico sobre o modelo de atuação do FGC, que:

não diferencia riscos entre instituições;
– garante bancos frágeis nos mesmos termos de bancos robustos;
– incentiva captação agressiva por instituições com problemas de gestão;
– permite distorções no mercado de varejo financeiro.

Economistas defendem atualização das regras, incluindo critérios mais rígidos de alavancagem, liquidez, rating interno e limites de captação, de modo a reduzir riscos sistêmicos e proteger investidores de varejo.

O colapso do modelo: plataformas, fintechs e a fragilidade do ecossistema regulatório

A crise do Master ocorre em um contexto de expansão acelerada das plataformas de investimento, que democratizaram o acesso a produtos bancários, mas também criaram brechas:

– captação massiva sem análise técnica do investidor;
– priorização da rentabilidade sobre o risco;
– competição agressiva por taxas elevadas;
– insuficiência de supervisão contínua;
– entrada de agentes oportunistas no sistema financeiro ampliado.

Especialistas apontam que a combinação entre taxas altas, garantia do FGC e marketing digital moldou uma espécie de “economia paralela” dentro do sistema financeiro formal, onde instituições pequenas disputam clientes com promessas que não podem cumprir.

Nova fronteira das investigações: crime organizado, operações financeiras e política nacional

O avanço da Operação Compliance Zero coincide com outras investigações que intimidam Brasília, como a Operação Carbono Oculto, que atingiu redes de lavagem de dinheiro ligadas ao PCC e ao mercado de combustíveis. Alguns dos investigados têm vínculos com operações financeiras associadas ao Master.

Ao mesmo tempo, cresce o temor de que delações envolvendo fraudes, propinas, triangulações e fundos estruturados desencadeiem uma nova Lava Jato, agora concentrada no setor financeiro e nas engrenagens políticas que sustentam operações de alto risco.

A discussão sobre um projeto antifacção no Congresso ganhou dramaticidade diante do caso, evidenciando a urgência de respostas institucionais robustas para lidar com organizações criminosas sofisticadas que transitam entre mercados legais e ilegais.

Uma crise que expõe o desequilíbrio entre inovação financeira e controle estatal

A liquidação do Banco Master evidencia um problema estrutural: a sofisticação do sistema financeiro brasileiro não foi acompanhada por mecanismos proporcionais de fiscalização, prudência e transparência. As lacunas regulatórias permitiram que um banco médio, com práticas agressivas e contabilidade opaca, alcançasse escala capaz de gerar risco sistêmico.

Além disso, o caso revela como a proximidade entre elites financeiras e núcleos de poder político cria um ambiente propício para decisões que favorecem interesses particulares, dificultam a supervisão e fragilizam a credibilidade institucional. A tentativa de anexar o Master ao BRB, em meio às investigações, ilustra essa lógica.

O episódio reforça a necessidade de aprimorar a governança do FGC, modernizar os instrumentos de supervisão do Banco Central e repensar o papel das plataformas de investimento na indução de comportamentos de risco em massa. A resposta imediata do Estado foi firme, mas os desafios sistêmicos permanecem.

*Com informações da Polícia Federal, Veja, UOL, Folha de S.Paulo, Metrópoles e Estadão.

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