Inadimplência atinge 77,8 milhões de brasileiros e valor médio das dívidas chega a R$ 6,2 mil, revela estudo da Monest

O Brasil chegou à marca de 77,8 milhões de pessoas inadimplentes, segundo o Anuário de Cobrança 2025 da fintech Monest, especializada em soluções de renegociação digital. O número representa um crescimento de 15 milhões de inadimplentes em cinco anos, o que evidencia a consolidação de um problema estrutural de crédito e consumo no país. os dados foram divulgados na quarta-feira (29/10/2025).

O estudo revela que o valor médio das dívidas por pessoa é de R$ 6,2 mil, patamar que impõe severa restrição ao orçamento familiar e compromete a capacidade de planejamento financeiro. Mesmo diante de uma inflação controlada e de redução na taxa Selic, o endividamento segue em alta — alimentado pela informalidade, desemprego e crédito rotativo.

Critérios que influenciam a decisão de não pagar

De acordo com o levantamento, o valor da dívida é o principal critério que leva o consumidor a não quitar suas obrigações (17,9%), superando fatores como data de pagamento inadequada (15,5%), condições da oferta (10,1%) e falta de dinheiro para pagamento à vista (7,3%).

Outros motivos mencionados incluem juros elevados (5,7%) e desemprego (4%), o que demonstra que o problema da inadimplência vai além da escassez de renda — envolve também questões comportamentais, renegociações ineficazes e prazos desalinhados à realidade do devedor.

Tecnologia e personalização na cobrança

Para o fundador da Monest, Thiago Oliveira, o uso da tecnologia e da inteligência artificial (IA) é uma ferramenta estratégica para personalizar o processo de cobrança e oferecer soluções mais justas.

“As pessoas não ficam inadimplentes porque querem, mas sempre que estão inadimplentes, querem sair dessa situação”, afirma.
“Cabe a nós, do lado das negociações, usar as tecnologias disponíveis para compreender e personalizar cada jornada, construindo uma operação financeira que faça sentido para o devedor.”

A Monest analisou mais de 6 milhões de conversas realizadas entre uma agente virtual de IA e devedores por meio do WhatsApp e ligações telefônicas. Segundo Oliveira, a abordagem baseada em dados permite construir acordos mais sustentáveis e reduzir o ciclo da inadimplência.

Perfil dos devedores e tipos de dívida

O levantamento mostra que a faixa etária mais representativa entre os inadimplentes é a de 41 a 65 anos (35,3%), seguida por 26 a 40 anos (33,9%), acima de 65 anos (19,3%) e 18 a 25 anos (11,4%).

Quanto à origem das dívidas, bancos e cartões de crédito lideram o ranking (27,3%), reflexo do uso do crédito rotativo e do parcelamento como complemento de renda. Logo em seguida aparecem contas básicas de água e luz (20,6%), das quais 74% estão atrasadas há mais de um ano. Outras categorias incluem dívidas financeiras (19,5%) e serviços diversos (11,9%).

A inadimplência como fenômeno social e econômico

O crescimento do endividamento tem se tornado um indicador de vulnerabilidade financeira que transcende as estatísticas econômicas. Ele reflete a desorganização estrutural do crédito no Brasil, em que o acesso fácil ao consumo convive com a falta de educação financeira e políticas públicas de reestruturação da renda familiar.

Economistas destacam que, sem um ambiente de crédito mais transparente e sem a redução de juros abusivos, a recuperação do poder de compra tende a ser lenta. A digitalização das cobranças e a adoção de IA podem ser um diferencial, mas não substituem reformas que equilibrem a relação entre bancos e consumidores.

Sistema financeiro penaliza

O cenário exposto pela Monest evidencia um sistema financeiro que penaliza o inadimplente em vez de reeducá-lo. A concentração das dívidas em serviços essenciais e no crédito rotativo aponta para um modelo de consumo baseado na sobrevivência, não na prosperidade. A inadimplência, portanto, deve ser vista como um sintoma de desigualdade e falha institucional, que exige tanto políticas públicas de renda quanto inovação privada responsável.

Principais dados do Anuário de Cobrança 2025 da fintech Monest

Panorama Geral

  • Total de inadimplentes: 77,8 milhões de brasileiros
  • Aumento em 5 anos: +15 milhões de pessoas
  • Valor médio da dívida por pessoa: R$ 6,2 mil
  • Fonte: Anuário de Cobrança 2025 – Monest
  • Data de divulgação: 29/10/2025

Perfil dos Devedores

  • 41 a 65 anos: 35,3%
  • 26 a 40 anos: 33,9%
  • Acima de 65 anos: 19,3%
  • 18 a 25 anos: 11,4%

Tipos de Dívida

  • Bancos e cartões de crédito: 27,3%
  • Contas básicas (água e luz): 20,6%
    • 74% desses débitos estão atrasados há mais de 1 ano
  • Dívidas financeiras: 19,5%
  • Serviços diversos: 11,9%

Motivos para Não Pagar as Contas

  1. Valor da dívida: 17,9%
  2. Data de pagamento inadequada: 15,5%
  3. Condições da oferta: 10,1%
  4. Falta de dinheiro / não poder pagar à vista: 7,3%
  5. Juros altos: 5,7%
  6. Desemprego: 4%

Tecnologia e Negociação

  • Número de conversas analisadas: mais de 6 milhões
  • Canais: WhatsApp e telefone
  • Ferramenta: agente virtual com Inteligência Artificial (IA)
  • Objetivo: personalizar a jornada de negociação e criar soluções financeiras sustentáveis

Fenômeno estrutural

  • A inadimplência se tornou fenômeno estrutural do crédito no Brasil.
  • A tecnologia é vista como meio de reconstruir a saúde financeira, mas ainda insuficiente sem políticas públicas e educação financeira.
  • O estudo evidencia o peso das dívidas essenciais e a necessidade de reformas regulatórias e educacionais para reequilibrar o sistema de crédito.

*Com informações do Valor.


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