Por que os homens ainda cuidam tão pouco da própria saúde? | Por Thiago Vieira

Quando me formei em medicina, vivi um dos momentos mais marcantes da minha carreira: começar a trabalhar em unidades de saúde da família em pequenas comunidades rurais. A cada dia da semana eu atendia em um povoado diferente, conhecendo de perto realidades diversas e aprendendo com cada família — idosos, gestantes, crianças e adultos de todas as idades.

Mesmo diante dessa diversidade, um detalhe sempre chamava minha atenção: os homens eram minoria nas consultas. No início pensei que isso se devia ao contexto rural. Com o tempo, e depois de trabalhar também em centros urbanos, percebi que o fenômeno se repetia. E os números mostram que essa não é apenas uma impressão dos profissionais de saúde.

No Brasil, os homens vivem entre 5 e 7 anos menos que as mulheres, segundo dados do Ministério da Saúde e do IBGE. Além disso, cerca de 70% deles só buscam atendimento quando os sintomas já estão mais avançados, e aproximadamente 30% não fazem nenhum acompanhamento regular, mesmo tendo acesso a uma unidade básica. A combinação de fatores culturais — como a ideia de que “homem não adoece” ou de que “precisa ser forte” — e de barreiras práticas, como horários de trabalho incompatíveis com o funcionamento das unidades, ajuda a explicar esse comportamento.

Neste mês de Novembro Azul, dedicado à conscientização sobre a saúde do homem e ao combate ao câncer de próstata, vale reforçar um ponto fundamental: cuidar da saúde não deve começar quando a doença aparece. Pelo contrário, começa muito antes.
Consultas de rotina, exames simples, acompanhamento da pressão arterial, do colesterol, da glicemia e orientação sobre hábitos saudáveis fazem diferença real. A detecção precoce de doenças aumenta as chances de tratamento efetivo, reduz complicações e melhora a qualidade de vida.

Mais do que falar sobre próstata, o Novembro Azul é um convite para que cada homem repense sua relação com o próprio corpo e rompa a barreira cultural que o distancia dos serviços de saúde. Cuidar-se não é sinal de fragilidade — é um ato de responsabilidade consigo mesmo e com quem se ama.

*Thiago Vieira, médico oncologista clínico, atua no diagnóstico e tratamento de diversos tipos de câncer. Comprometido com a assistência integral ao paciente oncológico, dedica-se também à educação em saúde e à divulgação científica, com o propósito de tornar a informação médica mais acessível e próxima da comunidade.

*Contato através do e-mail: thiagosanvieira@hotmail.com


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