O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou nesta quinta-feira (20/11/2025) ordem executiva que revoga a tarifa adicional de 40% aplicada desde julho a mais de 200 produtos agrícolas e pecuários do Brasil, incluindo carne bovina, café, frutas tropicais, cacau, fertilizantes e partes aeronáuticas. A medida, com efeito retroativo a 13 de novembro, ocorre após “progresso inicial nas negociações” com o governo brasileiro e em meio à alta da inflação de alimentos nos EUA, pressionando a Casa Branca a aliviar o tarifaço global.
O governo brasileiro recebeu a decisão com “satisfação”, vinculando o recuo à estratégia de diálogo adotada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se reuniu com Trump em outubro, na Malásia, e manteve tratativas por meio do Itamaraty e de missões empresariais. Ainda assim, parte das tarifas sobre bens industriais e outros segmentos estratégicos permanece em vigor, o que mantém em aberto uma agenda de negociações complexa entre os dois países.
Trump recua no tarifaço e alivia pressão sobre o agro brasileiro
A retirada da sobretaxa de 40% beneficia diretamente carne bovina, café, frutas e outros produtos agropecuários, pilares da pauta exportadora brasileira para o mercado norte-americano. Desde a entrada em vigor das tarifas de 50% em agosto, as exportações de café do Brasil para os EUA despencaram 54,4% em outubro, segundo o Cecafé, com perda de espaço para concorrentes em um dos mercados mais relevantes do mundo.
Os Estados Unidos enfrentam inflação acumulada entre 12% e 18% nos preços da carne bovina e alta de cerca de 20% no café em relação ao ano anterior, o que tornou politicamente sensível a manutenção de tarifas elevadas sobre alimentos importados. Para o governo norte-americano, aliviar a pressão sobre os preços internos tornou-se prioridade em um contexto de desgaste junto à classe média e de disputas eleitorais em torno do custo de vida.
Entidades do agronegócio brasileiro reagiram de forma imediata. A Abiec e a Abrafrigo destacaram que a medida restabelece a competitividade da carne brasileira no mercado americano, que volta a enfrentar a alíquota padrão de 26,4%. No café, o Cecafé avalia que a revogação das sobretaxas cria condições para que o Brasil recupere o espaço perdido ao longo dos meses em que as tarifas estiveram em vigor.
Diplomacia brasileira reivindica resultado das negociações
O Itamaraty divulgou nota destacando que a ordem executiva faz referência direta à conversa telefônica entre Lula e Trump em 6 de outubro e à reunião entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado Marco Rubio, realizada em Washington, em 13 de novembro. Esses contatos são apresentados como marcos do “avanço inicial das negociações” sobre o tarifaço.
O governo brasileiro enfatiza que a decisão dos EUA confirma a eficácia de uma estratégia baseada em “diálogo e cooperação”, em contraste com respostas puramente retaliatórias. A chancelaria afirma que o Brasil continuará a pressionar pela eliminação das tarifas remanescentes, que ainda incidem sobre parte da pauta de comércio bilateral, sobretudo bens industriais.
No Congresso, parlamentares da base governista, especialmente ligados ao agronegócio, celebraram a decisão. Para o líder do PT na Câmara, José Guimarães, o recuo “confirma a força da diplomacia ativa do governo Lula” e mostra que a pressão combinada de governo e setor privado produziu resultados concretos.
Oposição credita recuo a interesses internos dos EUA
Setores da oposição, por outro lado, rejeitam atribuir ao governo brasileiro o protagonismo na reversão da medida. Para líderes do campo conservador, a decisão de Trump responde antes de tudo às demandas do eleitorado americano, preocupado com a escalada do custo de vida.
O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, argumenta que, se o gesto fosse resultado direto da atuação diplomática do governo brasileiro, o anúncio teria sido feito de forma conjunta com o chanceler Mauro Vieira na semana anterior. O empresário Paulo Figueiredo, próximo ao deputado Eduardo Bolsonaro, sustentou que Trump apenas ajustou tarifas “em busca da redução de preços domésticos” em segmentos nos quais os EUA não conseguem produzir em escala suficiente.
Essa disputa narrativa evidencia como o tarifaço se converteu em tema de política interna brasileira, servindo tanto para a base governista reforçar a imagem de capacidade de negociação quanto para a oposição criticar a eficácia da política externa do governo Lula.
Tarifaço global e impacto sobre comércio e inflação nos EUA
A decisão desta quinta-feira não pode ser compreendida isoladamente. Ela se insere no contexto mais amplo das tarifas globais de dois dígitos implementadas por Trump a partir de abril, que elevaram a taxa tarifária efetiva dos EUA para mais de 18%, o maior nível desde 1934. As medidas, que incluíram sobretaxas de 50% sobre exportações brasileiras, reconfiguraram o sistema comercial norte-americano em nome de uma política de “proteção de empregos domésticos”.
Dados do Departamento de Comércio dos EUA mostram que, em agosto, as importações caíram 5,1% e o déficit comercial encolheu quase 24% em relação a julho. À primeira vista, os números poderiam ser usados como argumento para defender a eficácia do tarifaço na redução do déficit. No entanto, analistas ressaltam que a queda nas importações foi antecedida por um período de forte estocagem, quando empresas correram para antecipar compras antes da entrada em vigor das tarifas.
À medida que os estoques foram se esgotando, as empresas passaram a repassar o custo das tarifas para o consumidor, contribuindo para a inflação de alimentos, bens industrializados e insumos produtivos. Esse movimento atingiu diretamente a percepção pública sobre o governo Trump e abriu espaço para que adversários políticos explorassem o tema do aumento do custo de vida nas eleições.
Setor privado brasileiro atuou nos bastidores das negociações
Além da frente diplomática conduzida pelo Itamaraty, o recuo parcial dos EUA foi resultado de intensa mobilização do setor privado brasileiro. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) enviou delegações a Washington, acompanhadas por representantes de diversos segmentos produtivos, para dialogar com autoridades americanas e defender a redução das tarifas.
Empresários ligados ao setor de carnes, como Joesley Batista, da JBS, realizaram audiências com Trump e sua equipe econômica, ressaltando a importância do Brasil para o abastecimento do mercado americano e os efeitos negativos das sobretaxas na cadeia produtiva e nos preços ao consumidor.
A Câmara Americana de Comércio no Brasil (Amcham) publicou nota afirmando que a retirada das tarifas sobre produtos agrícolas brasileiros representa “um avanço importante rumo à normalização do comércio bilateral” e reforça a necessidade de avançar em novas rodadas de isenção, sobretudo para produtos industriais.
Agenda pendente: bens industriais, riscos jurídicos e cenário futuro
Apesar da retirada das sobretaxas para mais de 200 itens agropecuários, parte relevante da pauta exportadora brasileira continua sujeita a tarifas adicionais, especialmente em segmentos industriais e de maior valor agregado. O Itamaraty admite que a negociação será mais complexa nessa etapa, pois envolve concorrência direta com cadeias produtivas sensíveis para o mercado de trabalho americano.
Há ainda uma dimensão jurídica em aberto: a Suprema Corte dos EUA analisa se Trump extrapolou sua autoridade legal ao implementar parte do pacote tarifário. Uma eventual decisão pela limitação ou derrubada das medidas poderia reorganizar o tabuleiro comercial e abrir espaço para rearranjos mais profundos nas relações dos EUA com seus principais parceiros, inclusive o Brasil.
Para o governo brasileiro, o desafio será transformar a vitória parcial no agro em um acordo mais amplo, capaz de reduzir a vulnerabilidade do país a decisões unilaterais da Casa Branca. Nesse contexto, ganha relevância a estratégia de diversificação de mercados, com maior aproximação de China, Índia, países árabes e BRICS, sem romper os laços históricos com os Estados Unidos.
Vitória parcial, dependência estrutural
A retirada das tarifas de 40% sobre carne, café, frutas e derivados representa, de fato, uma vitória pontual para o agronegócio brasileiro e alivia a pressão imediata sobre produtores, exportadores e cadeias logísticas. Também oferece ao governo Lula um ativo político: a narrativa de que a diplomacia e o diálogo produziram resultados concretos, sem necessidade de escalada retórica ou medidas de retaliação.
No entanto, a estrutura do problema permanece. O episódio evidenciou a dependência do Brasil em relação ao mercado norte-americano para determinados produtos estratégicos e mostrou como decisões unilaterais de Washington podem, em poucos meses, desorganizar fluxos de exportação, reduzir receitas e gerar incertezas em setores inteiros da economia. A reversão parcial do tarifaço, por mais relevante que seja, não altera esse dado de fundo.
A disputa interna de narrativa — governo atribuindo o recuo ao êxito da diplomacia, oposição dizendo tratar-se apenas de cálculo doméstico americano — tende a prosseguir no debate público, especialmente em um cenário de polarização política. O teste real estará na capacidade do Brasil de negociar a eliminação do restante das tarifas, consolidar mecanismos estáveis de solução de controvérsias e, ao mesmo tempo, ampliar sua inserção em outros mercados, reduzindo a exposição a mudanças bruscas na política comercial dos Estados Unidos.
Principais Dados
1. Economia e comércio exterior
- Revogação da tarifa adicional de 40% sobre mais de 200 produtos brasileiros.
- Tarifa efetiva dos EUA havia ultrapassado 18%, maior nível desde 1934.
- Importações americanas caíram 5,1% em agosto, com déficit comercial reduzido em 24% frente a julho.
- Déficit de bens e serviços ainda 25% maior no acumulado do ano em relação a 2024.
2. Setores e produtos afetados
- Beneficiados: carne bovina, café, frutas (manga, coco, açaí, abacaxi), cacau e derivados, vegetais, raízes, tubérculos, alimentos processados, bebidas, combustíveis fósseis, petróleo, fertilizantes, minérios e partes aeronáuticas.
- Carne bovina volta à alíquota de 26,4%, vigente antes do tarifaço.
- Exportações de café para os EUA caíram 54,4% em outubro, após a tarifa de 50%.
3. Indicadores de preços e inflação
- Inflação da carne bovina nos EUA: entre 12% e 18% em relação ao ano anterior.
- Café registra alta de cerca de 20% no CPI americano.
- Pressão inflacionária leva o governo Trump a buscar redução de preços domésticos.
4. Política e diplomacia
- Referência explícita, na ordem executiva, à conversa telefônica entre Lula e Trump em 6 de outubro.
- Menção à reunião entre Mauro Vieira e Marco Rubio em 13 de novembro, em Washington.
- Governo Lula atribui recuo ao “diálogo e bom senso” na relação bilateral.
- Oposição afirma que decisão visa apenas interesses internos dos EUA, sem protagonismo brasileiro.
5. Atores institucionais e empresariais
- Atuação de Cecafé, Abiec, Abrafrigo, CNI e Amcham em defesa da redução das tarifas.
- Participação de empresários do setor de carnes, como Joesley Batista, em audiências com Trump.
- Lideranças políticas brasileiras divididas entre valorização da diplomacia e crítica à dependência estrutural do mercado americano.
6. Cronologia essencial do tarifaço
- Abril de 2025: anúncio das tarifas globais de dois dígitos por Trump.
- Fim de julho de 2025: imposição da tarifa de 50% sobre exportações brasileiras, com lista de exceções.
- 6 de outubro de 2025: conversa entre Lula e Trump, em meio à Cúpula da ASEAN, na Malásia.
- 13 de novembro de 2025: reunião entre Mauro Vieira e Marco Rubio em Washington.
- 14 de novembro de 2025: anúncio de retirada da tarifa-base de 10% para alguns produtos agrícolas.
- 20 de novembro de 2025: revogação da tarifa adicional de 40% para mais de 200 produtos brasileiros, com retroatividade a 13 de novembro.
*Com informações da Folha de S.Paulo, Revista Veja e Presidência da República.











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