Resiliência do Sul Global às tarifas dos EUA indica mudança no centro de poder econômico mundial

A maioria das economias emergentes demonstrou capacidade de resistir às tarifas impostas pelos Estados Unidos, segundo relatório da Verisk Maplecroft divulgado nesta segunda-feira (17/11/2025). A análise indica que o cenário comercial global tornou-se mais multipolar e menos suscetível a pressões unilaterais, fortalecendo países do Sul Global e ampliando o papel do BRICS como plataforma de integração econômica e política.

A publicação destaca que, mesmo após o anúncio do chamado “Dia da Libertação”, quando tarifas de 10% a 50% foram aplicadas a todos os parceiros comerciais dos EUA, o impacto foi menor que o previsto. No caso brasileiro, analistas afirmam que o país utilizou mecanismos internos para amortecer efeitos econômicos e manter estabilidade, reduzindo a vulnerabilidade a medidas impostas por Washington.

Especialistas consultados afirmam que a política tarifária norte-americana perdeu eficácia, pois compradores e vendedores permanecem interdependentes, e o mercado internacional não responde mais de forma linear às pressões unilaterais dos Estados Unidos.

Mercados internos e capacidade de reação

Para o analista geopolítico Hugo Albuquerque, a eficácia reduzida das tarifas é explicada pela interdependência econômica global. Ele observa que compradores e vendedores mantêm necessidades complementares, o que limita os efeitos de barreiras comerciais de grande escala. Segundo ele, essa dinâmica atinge simultaneamente as duas pontas da cadeia comercial.

No caso brasileiro, Albuquerque aponta o papel do mercado interno, que absorve parte da oferta e reduz vulnerabilidades. Ele afirma que investimentos em infraestrutura e industrialização poderiam ampliar ainda mais essa capacidade de resposta do país em cenários de tensões comerciais.

Diego Pautasso, doutor em ciência política, reforça que o Brasil da década de 1960 ou 1970 não teria resistido a um embargo tarifário dessa magnitude, em razão da dependência das exportações para os EUA. Hoje, porém, o mercado norte-americano representa aproximadamente 10% das vendas externas do país, percentual inferior ao de outros parceiros estratégicos.

Cenário econômico interno e estabilidade

A resiliência brasileira também é atribuída à adoção de medidas internas que reduziram os impactos de curto prazo das tarifas, como projeções de perda de produtividade ou queda no emprego. Dados do Boletim Focus, divulgados na segunda-feira (17/11/2025), apontam previsão de crescimento do PIB de 2,16% para este ano, com inflação dentro da meta pela primeira vez desde o início de 2025.

Para os analistas, a capacidade atual de adotar políticas compensatórias é significativamente maior que nas últimas décadas. Essa governança interna contribui para limitar o efeito das medidas tarifárias norte-americanas e reforça a autonomia do país na formulação de respostas econômicas.

A estabilidade dos indicadores também demonstra maior margem de manobra para ajustes fiscais e comerciais, favorecendo estratégias de mitigação de riscos e de diversificação de mercados.

Multipolaridade e expansão do BRICS

A ascensão da multipolaridade é apontada como o principal fator que permitiu ao Brasil e a outras economias emergentes resistirem ao tarifaço norte-americano. Pautasso observa que o fortalecimento do Sul Global tem raízes históricas, com marcos como a Conferência de Bandung (1955), o Movimento dos Países Não Alinhados (1961) e o G77 (1964).

Para os especialistas, o diferencial atual é o papel desempenhado pelo BRICS como âncora geoeconômica, reunindo países com grandes mercados, capacidade tecnológica e potencial de investimento. Isso proporciona alternativas viáveis de financiamento, parceria comercial e transferência tecnológica para países menores.

Os analistas afirmam que o aumento da participação do Brasil, China e Índia na balança comercial africana confirma essa mudança. Ao mesmo tempo, a fatia dos EUA e da Europa vem reduzindo, o que evidencia perda de capacidade de pressão política e econômica de Washington no cenário global.

No caso chinês, por exemplo, a participação dos EUA como destino das exportações caiu de cerca de 20% para 12% nas últimas décadas, reduzindo o impacto potencial de medidas tarifárias.

Declínio relativo do antigo centro econômico global

O relatório e as análises convergem para o diagnóstico de que o “antigo centro sistêmico”, composto por Estados Unidos, Europa e Japão, enfrenta perda relativa de influência. Isso inclui redução de participação no PIB mundial, menor relevância como polo comercial e diminuição do peso como financiador de investimentos no Sul Global.

Segundo Hugo Albuquerque, medidas de coerção tarifária não representam demonstrações de força, mas sim sinais de limitação da capacidade de liderança internacional dos EUA. Para ele, o BRICS oferece alternativas de circulação de capitais e cooperação, mas ainda precisa avançar em mecanismos como moeda comum, fundo monetário próprio e sistemas de trocas integrados.

*Com informações da Sputnik News.


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