Territórios do Crime: 50 milhões de brasileiros vivem sob regras de facções — Estado paralelo avança sobre serviços, política e economia

A consolidação da chamada governança criminal — expressão que descreve territórios em que grupos armados substituem o Estado e impõem suas próprias leis — já submete cerca de 50 milhões de brasileiros ao domínio direto de facções. O dado, apresentado em estudo publicado pela Cambridge University Press, com base no levantamento Latinobarómetro 2020, confirma que o Brasil lidera a América Latina em extensão de áreas controladas por organizações criminosas.

O fenômeno, que ultrapassa a dimensão da segurança pública, adquiriu contornos políticos, econômicos e sociais, desafiando a autoridade do Estado e ameaçando a estabilidade institucional do país. A expansão dessas zonas autônomas, onde o crime se organiza como poder paralelo, reflete a erosão da soberania estatal em vastas regiões urbanas e rurais, criando uma estrutura de poder que rivaliza com a presença do Estado e mina a confiança pública nas instituições.

As operações Carbono Oculto, Contenção, Primus e Freedom, deflagradas entre outubro e novembro de 2025, evidenciam a escalada do crime organizado e os esforços do Estado para reconquistar o controle territorial. Ainda que representem avanços pontuais, as ações policiais revelam a complexidade do enfrentamento a redes criminosas que já se infiltram em estruturas políticas e econômicas, transformando a segurança pública em um tema de governança nacional e não apenas de repressão penal.

Os dados do estudo apontam para a necessidade urgente de uma estratégia de combate em duas frentes complementares: a primeira, voltada ao enfrentamento do poder financeiro das facções, que movimentam bilhões de reais por meio de atividades ilícitas e de mecanismos de lavagem de dinheiro com ramificações no sistema bancário e no comércio internacional; a segunda, destinada a neutralizar o poderio armado que mantém milhões de brasileiros sob coerção e medo, dentro de um “Brasil dentro do Brasil” — o Brasil do Crime, onde a lei do fuzil e a lógica da milícia suplantam o império da Constituição.

Sem uma resposta coordenada, que una inteligência financeira, cooperação institucional e presença permanente do Estado, o país corre o risco de assistir à consolidação de uma soberania paralela, com seu próprio sistema de controle, economia e justiça — um Estado criminoso emergente no interior da República formal.

O que é governança criminal e por que ela cresce

A governança criminal ocorre quando facções passam a exercer controle social, territorial e econômico, assumindo funções típicas do Estado: impor regras, arbitrar conflitos e fornecer serviços clandestinos em comunidades dominadas. O estudo da Cambridge indica que 14% dos latino-americanos vivem sob esse regime; no Brasil, o índice chega a um em cada quatro habitantes, o equivalente a 24% da população.

Os pesquisadores destacam que a repressão mal planejada e o encarceramento em massa acabam estimulando a formação de redes mais coesas, que se fortalecem dentro e fora dos presídios. Quanto maior a ameaça de operações policiais e apreensões, mais as facções tendem a se organizar como “governos” locais, criando suas próprias normas de convivência, punições e mecanismos de arrecadação.

Estado paralelo e a erosão da soberania

Para Víctor Gabriel de Oliveira Rodríguez, professor da Faculdade de Direito da USP em Ribeirão Preto, o país vive uma forma de Estado paralelo consolidado.

“Há um abandono do Estado nessas áreas, pois lidar com o domínio das facções tem um alto custo político e operacional. Mas essa economia é apenas aparente, porque o impacto social e econômico da criminalidade é muito maior”, afirma.

O professor destaca que comunidades como as favelas do Rio de Janeiro são exemplos clássicos dessa substituição institucional:

“A polícia não entra, a lei oficial não é aplicada, e os ‘tribunais do crime’ impõem sentenças e punições em lugar da Justiça.”

Esse processo, segundo ele, configura um tipo de narcoestado — quando a política e a economia locais passam a girar em torno das dinâmicas impostas pelo narcotráfico, mesmo sem participação direta de agentes públicos no crime.

O mapa das facções e os novos negócios ilegais

O levantamento nacional de segurança pública aponta a existência de 64 facções criminosas espalhadas pelas 27 unidades da federação. Entre elas, duas atuam de forma nacional: o Primeiro Comando da Capital (PCC), presente em 25 estados, e o Comando Vermelho (CV), com presença em 26. Bahia, Pernambuco e Mato Grosso do Sul estão entre os estados com maior número de grupos — 17, 12 e 10, respectivamente.

Além do tráfico de drogas, essas facções controlam serviços de gás, internet, transporte, energia e moradia, cobrando “taxas de segurança” compulsórias e punindo quem recusa. As quadrilhas se infiltram no setor imobiliário, ocupam terrenos, constroem imóveis sem autorização e os vendem com lucros elevados. O crime, que antes se limitava à violência armada, passou a dominar mercados clandestinos paralelos, com efeitos diretos sobre a economia formal.

A rotina de medo e a economia do crime

A vida cotidiana em comunidades dominadas é marcada por medo, silêncio e extorsão. Moradores relatam que não podem escolher livremente os serviços que utilizam, nem transitar após certos horários. O domínio do crime afeta também pequenos empreendedores: mercados e oficinas são obrigados a pagar mensalidades às facções, sob ameaça de expulsão ou execução.

O Atlas da Violência estima que as perdas econômicas associadas ao crime organizado e à violência chegam a 5,9% do PIB brasileiro. Essa cifra inclui a desvalorização imobiliária, o impacto sobre o turismo e os custos indiretos com saúde, segurança e evasão escolar. Em muitos locais, a facção funciona como o único poder presente — fiscalizando a entrada de veículos, controlando horários de funcionamento e até intervindo em disputas familiares.

Deslocamentos forçados e cidades fantasmas

O avanço das facções para o interior do país já provocou deslocamentos forçados de milhares de pessoas. No Ceará, comunidades inteiras foram abandonadas após ameaças de quadrilhas rivais. Em Morada Nova, cerca de 2 mil moradores deixaram suas casas em 2025, transformando o distrito em uma “cidade fantasma”. Situação semelhante ocorreu em Pacatuba, onde famílias fugiram sob risco de ataques com granadas. O poder público local, impotente, reconheceu “situação anormal e emergencial”.

Esses episódios refletem um processo de limpeza territorial executado por facções que disputam rotas de tráfico e pontos de arrecadação. A ausência do Estado e a vulnerabilidade econômica das famílias favorecem a consolidação desses enclaves de poder.

A disputa entre repressão e urbanismo social

A política de segurança pública oscila entre operações militares de curto prazo e projetos de reurbanização. A Operação Contenção, realizada em 28 de outubro de 2025 no Rio de Janeiro, reuniu 2.500 agentes e resultou em 117 mortes, a maioria de integrantes do Comando Vermelho. A ação revelou o dilema entre eficácia imediata e sustentabilidade: sem presença contínua, os territórios voltam rapidamente ao controle do crime.

Por outro lado, experiências como o programa Usinas da Paz, no Pará, combinam educação, cultura e políticas de emprego com policiamento comunitário. A iniciativa reduziu em 75% os crimes letais nas áreas atendidas, mostrando que o Estado permanente é mais eficiente que a repressão episódica.

Educação, infâncias e trauma social

Crianças e adolescentes que vivem em zonas dominadas enfrentam interrupções frequentes nas aulas por causa de tiroteios e operações policiais. Professores relatam que os alunos sofrem com síndrome do pânico, depressão e ansiedade, e que o medo cotidiano prejudica o aprendizado. O impacto é duradouro: o trauma psicológico se soma à evasão escolar, gerando um ciclo de vulnerabilidade que alimenta a base de recrutamento das próprias facções.

Nas unidades de saúde dessas regiões, o número de atendimentos de emergência psiquiátrica aumentou em 25% em 2025, segundo gestores municipais. O medo, portanto, converte-se em fenômeno estrutural e atravessa gerações.

A influência política das facções

As facções também exercem influência eleitoral e administrativa. Em diversos estados, candidatos negociam o acesso a áreas controladas em troca de promessas de proteção ou favores. Com isso, surgem dívidas políticas implícitas que dificultam o enfrentamento do crime após a eleição.

A presença do narcotráfico no processo democrático — seja por coação direta, seja por cumplicidade silenciosa — gera erosão institucional. O poder público passa a operar sob as restrições impostas pelos criminosos, perdendo legitimidade e autoridade. O resultado é uma democracia fragmentada, em que a soberania do voto é condicionada pelo medo.

Caminhos para a retomada: soberania e Estado permanente

Especialistas em segurança pública convergem em um ponto: sem presença contínua do Estado, não há pacificação duradoura. As experiências mais bem-sucedidas combinam ocupação policial estável, serviços públicos essenciais, infraestrutura urbana e programas sociais permanentes. A repressão, por si só, apenas muda o foco do problema de um território para outro.

A recuperação do espaço público requer coordenação entre União, estados e municípios, combate à corrupção policial, reforma prisional para reduzir o recrutamento de facções e proteção econômica a moradores e comerciantes dispostos a romper o vínculo com o crime.

Falência progressiva

O avanço da governança criminal reflete a falência progressiva da autoridade estatal e a erosão da confiança nas instituições democráticas. O Estado brasileiro oscila entre omissão e repressão, sem planejamento de longo prazo, permitindo que o crime se transforme em poder político e econômico organizado.

Enquanto o Estado se ausenta, as facções se sofisticam: controlam serviços, moldam comportamentos e penetram na política local. Combater essa estrutura exige mais do que operações militares — requer reconstrução institucional, presença social e reforma judicial e policial profunda. O desafio é reconstruir a soberania sem cair em soluções simplistas ou militarizadas.

Principais dados organizados sobre Segurança Pública no Brasil

População sob domínio de facções:
– 50 milhões de brasileiros (24% da população).
– 77 a 101 milhões de latino-americanos sob governança criminal (14% da região).

Estrutura do crime organizado:
– 64 facções ativas em 27 estados.
– PCC em 25 unidades da federação; CV em 26.
– Estados com mais facções: Bahia (17), Pernambuco (12), Mato Grosso do Sul (10).

Impactos econômicos e sociais:
– Custos da violência equivalem a 5,9% do PIB nacional.
– Perdas imobiliárias, evasão escolar e retração do turismo.
– Aumento de 25% em atendimentos de saúde mental nas zonas dominadas.

Territórios e deslocamentos:
– Cidades do Ceará, como Morada Nova e Pacatuba, sofreram êxodo forçado de moradores.
– Expansão de facções pelo Norte e Nordeste, com rotas de tráfico pela Amazônia.

Respostas estatais e resultados:
– Operação Contenção (Rio de Janeiro, 2025): 2.500 agentes, 117 mortos, controle temporário.
– Programa Usinas da Paz (Pará): queda de 75% nos homicídios com urbanismo social.

Fontes dos dados

Cambridge University Press – “Criminal Governance in Latin America: Prevalence and Correlates”, com base no Latinobarómetro 2020.
– Entrevista com Víctor Gabriel de Oliveira Rodríguez (USP-Ribeirão Preto).
– Reportagens da revista VEJA (edição nº 2969, novembro de 2025).
– Levantamento de O GLOBO sobre a presença de 64 facções em 27 estados.
Atlas da Violência (Ipea e Fórum Brasileiro de Segurança Pública).
– Dados complementares de secretarias estaduais de segurança e universidades federais.

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