Brasil avança na criação de batalhões hidroviários para recuperar rios navegáveis e impulsionar integração fluvial

A Câmara dos Deputados aprovou, por ampla maioria, o PLP 178/23, que institui batalhões hidroviários do Exército com a missão de estruturar, manter e conservar rios navegáveis. Inspirada em modelos internacionais de gestão fluvial, a iniciativa tem como foco inicial o Rio São Francisco, onde será instalado o primeiro batalhão na região do Médio São Francisco, no município de Barra (BA). A proposta segue agora para apreciação do Senado Federal.

Batalhões hidroviários e a estratégia de recuperação dos rios

O projeto estabelece unidades militares especializadas responsáveis por desassoreamento, conservação de margens, reflorestamento de áreas degradadas e manutenção de rotas navegáveis. Trata-se de um modelo semelhante ao implementado nos Estados Unidos, especialmente no trabalho do Corpo de Engenheiros do Exército no Rio Mississippi, referência global em infraestrutura fluvial e logística de transporte.

Além da experiência norte-americana, o texto cita o exemplo do Rio Amarelo, na China, cuja revitalização por meio de engenharia fluvial garantiu estabilidade hidrológica e maior eficiência no escoamento da produção agrícola e industrial. No Brasil, a expectativa é que o novo sistema fortaleça o uso estratégico dos rios para integração econômica, transporte de cargas, turismo e sustentabilidade ambiental.

O ponto de partida será o trecho entre Pirapora (MG) e Petrolina (PE), área historicamente afetada por assoreamento, irregularidades de fluxo e perda da navegabilidade. Ao consolidar batalhões permanentes, o projeto pretende assegurar manutenção contínua, evitando ações pontuais que, ao longo dos anos, se mostraram insuficientes para garantir a recuperação do Velho Chico.

O São Francisco como eixo estruturante do desenvolvimento

Durante a votação, o deputado João Leão, autor do PLP, destacou que a degradação do Rio São Francisco compromete a navegação em trechos que, no passado, abrigavam embarcações de grande porte, como o histórico navio Benjamin Guimarães, símbolo da atividade fluvial no país. Para ele, devolver navegabilidade ao rio significa resgatar parte importante da infraestrutura logística nacional.

O parlamentar citou ainda experiência anterior realizada no Oeste da Bahia, em parceria com o Exército, que permitiu a recuperação de margens e o reflorestamento de matas ciliares em um trecho de 6 quilômetros. A intervenção, bem-sucedida, reforçou o argumento de que ações estruturadas de engenharia e conservação podem ser ampliadas de forma permanente em escala nacional.

Segundo Leão, o Brasil passa a integrar o grupo de países que utilizam seus sistemas fluviais como vetores de desenvolvimento regional, favorecendo o transporte de baixo custo, com menor impacto ambiental e maior capacidade de integração econômica entre regiões.

Ele também ressaltou a expressiva aprovação do texto: 427 votos favoráveis, resultado que qualificou como um marco no esforço de reconstrução dos rios brasileiros. Para o autor, o placar revela consenso parlamentar sobre a urgência de revitalizar hidrovias estratégicas para o país.

Tramitação e próximos passos no Senado

Após aprovação na Câmara, o projeto segue para o Senado Federal, onde deverá passar pelas comissões temáticas antes de ser apreciado em plenário. A expectativa é que a matéria avance com celeridade, diante do apoio suprapartidário e do reconhecimento da importância econômica e ambiental dos rios brasileiros.

Se aprovado, o governo federal deverá regulamentar os batalhões hidroviários, definir estrutura, efetivo, cronograma de implantação e parâmetros operacionais. O primeiro batalhão está previsto para Barra (BA), ponto estratégico para a recuperação do Médio São Francisco e para a reativação gradual da navegação comercial no trecho.

A proposta também poderá abrir caminho para futuras expansões em outros rios de grande potencial logístico, como o Tocantins-Araguaia, o Madeira e o Paraguai, ampliando a rede hidroviária nacional.

O desafio de transformar intenção em estrutura permanente

A criação de batalhões hidroviários representa avanço relevante na tentativa de transformar rios degradados em eixos funcionais de transporte e desenvolvimento. No entanto, o sucesso do projeto depende de continuidade orçamentária, capacidade técnica e integração entre Exército, órgãos ambientais e governos estaduais. Sem coordenação federativa, há risco de fragmentação das ações.

Outro ponto crucial é a definição de critérios transparentes para intervenções, evitando que obras de conservação se limitem a trechos isolados, sem impacto sistêmico. A experiência internacional mostra que programas de revitalização só produzem resultados consistentes quando combinam engenharia, monitoramento, fiscalização e participação comunitária.

O Senado terá papel central ao aperfeiçoar o texto e assegurar mecanismos que garantam supervisão institucional e metas claras. Se bem implementado, o modelo pode inaugurar uma política nacional permanente de gestão fluvial, algo historicamente negligenciado no Brasil.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading