Caso Banco Master: BC aciona MPF, aponta fraudes bilionárias com fundos da Reag, revela falhas estruturais da regulação e expõe tensão institucional entre BC, STF e TCU; investigação cita elo com PCC

O Banco Central acionou o MPF e comunicou ao TCU novos indícios de fraude no Banco Master, envolvendo R$ 11,5 bilhões em operações com fundos ligados à Reag. As investigações apontam falhas graves de gestão, suspeita de uso de “laranjas” e conexão com a tentativa de venda do banco ao BRB. O caso envolve apurações no STF, disputas institucionais e levanta questionamentos sobre a solidez da regulação financeira no país.
Banco Central aponta novas fraudes do Banco Master, aciona MPF e detalha operações suspeitas de R$ 11,5 bilhões envolvendo fundos ligados à Reag.

O Banco Central do Brasil comunicou formalmente, neste final de dezembro de 2025, ao Tribunal de Contas da União (TCU) que acionou o Ministério Público Federal (MPF) diante de novos indícios de fraude, gestão temerária e irregularidades estruturais em operações realizadas pelo Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, em conjunto com fundos de investimento administrados pela Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários.

As apurações indicam que, entre julho de 2023 e julho de 2024, foram estruturadas operações em desacordo com normas do Sistema Financeiro Nacional, envolvendo valores expressivos, fragilidades de controle e possível uso de mecanismos para ocultação de recursos, ampliando a dimensão do escândalo que levou à liquidação extrajudicial do banco, decretada em novembro de 2025.

Segundo o relatório técnico enviado ao TCU, o conjunto de operações sob suspeita soma R$ 11,5 bilhões, sendo parte relevante vinculada a fundos administrados pela Reag. Trata-se da segunda comunicação do Banco Central ao MPF envolvendo o Banco Master. A primeira referiu-se à revenda de aproximadamente R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consignado inexistentes ao Banco de Brasília (BRB), episódio central das investigações criminais em curso.

Operações estruturadas, falhas de gestão e riscos sistêmicos

O Banco Central apontou inadequado gerenciamento de capital e de risco, operações sem garantias suficientes, problemas de liquidez, baixa diversificação de ativos e deficiências nos mecanismos de controle interno. De acordo com o regulador, essas falhas agravaram a crise financeira da instituição e justificaram a instauração de processos administrativos sancionadores, atualmente em fase de instrução.

As operações analisadas fazem parte de um conjunto de estruturas financeiras complexas, utilizadas pelo Banco Master para captar, redistribuir e realocar recursos por meio de fundos de investimento. Técnicos do Banco Central consideram que o desenho dessas operações não atendia aos requisitos mínimos de prudência, ampliando riscos não apenas para investidores, mas também para a estabilidade do sistema financeiro.

Suspeita de uso de “laranjas” e tentativa de venda ao BRB

Entre as hipóteses investigadas está a utilização de fundos para pulverizar recursos em nome de terceiros, prática conhecida como uso de “laranjas”. Segundo informações apuradas, determinados fundos teriam servido como veículos intermediários para redistribuição de recursos, dificultando a rastreabilidade dos valores e a identificação dos beneficiários finais.

Há indícios de que parte desses recursos tenha sido realocada no contexto da tentativa de venda do Banco Master ao BRB, operação que acabou frustrada, mas que revelou um esquema mais amplo de créditos inexistentes, contratos forjados e valores artificialmente inflados. As investigações apontam que, antes mesmo da formalização do negócio, o banco teria negociado carteiras de crédito consignado falsas, combinando contratos inexistentes e “prêmios” fictícios.

Reag, Operação Carbono Oculto e apurações sobre possíveis vínculos com o PCC

A administradora Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários passou a ocupar posição central no conjunto de investigações que envolvem o Banco Master após ter sido alvo da Operação Carbono Oculto, deflagrada para apurar possíveis conexões entre empresas do setor financeiro, o mercado de combustíveis e o Primeiro Comando da Capital (PCC). A operação busca identificar se estruturas empresariais e instrumentos financeiros complexos teriam sido utilizados para ocultação, pulverização e circulação de recursos de origem ilícita, com o objetivo de dificultar o rastreamento dos fluxos financeiros pelas autoridades.

Segundo informações reunidas no âmbito das investigações, fundos administrados pela Reag teriam sido empregados como veículos intermediários para redistribuição de recursos, o que levantou suspeitas sobre a utilização de terceiros interpostos (“laranjas”) e sobre a real destinação dos valores movimentados. Esse modelo operacional, quando associado a operações estruturadas de grande volume, amplia significativamente os riscos regulatórios e criminais, especialmente diante da possibilidade de contaminação do sistema financeiro por recursos oriundos de organizações criminosas.

Embora não existam, até o momento, condenações judiciais decorrentes especificamente da Operação Carbono Oculto, o fato de a Reag figurar nesse inquérito elevou o nível de atenção dos órgãos de controle sobre suas operações conjuntas com o Banco Master. A convergência entre indícios de fraudes financeiras, falhas graves de governança bancária e investigações sobre crime organizado reforçou a gravidade institucional do caso e contribuiu para a decisão do Banco Central de aprofundar comunicações ao Ministério Público Federal e aos órgãos de fiscalização.

Atuação do TCU e questionamentos à supervisão do Banco Central

No plano administrativo, o TCU instaurou procedimento para apurar eventuais falhas ou omissões do Banco Central na supervisão do Banco Master. O processo tramita sob sigilo e tem provocado debates internos na Corte de Contas sobre os limites de atuação do tribunal diante das competências legais do regulador financeiro.

Há divergências entre ministros e técnicos quanto à possibilidade de o TCU questionar ou até anular atos relacionados à liquidação extrajudicial da instituição. Fontes avaliam que esse movimento pode ser explorado pela defesa de Daniel Vorcaro como instrumento para fragilizar a atuação do Banco Central, retardar desfechos judiciais e reduzir riscos penais futuros.

Depoimentos no STF, acareações e tensões institucionais

No âmbito criminal, as investigações tramitam no Supremo Tribunal Federal, sob sigilo. Na terça-feira (30/12), Daniel Vorcaro, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, prestaram depoimentos à Polícia Federal, na sede da Corte.

As oitivas individuais duraram quase sete horas e resultaram em uma acareação entre Vorcaro e Paulo Henrique Costa, após a identificação de contradições relevantes nos relatos. O diretor do Banco Central foi dispensado desse procedimento. A condução dos depoimentos, o papel do relator do caso e a definição das estratégias investigativas geraram desconforto entre diferentes instituições, incluindo Polícia Federal, Ministério Público e setores do sistema financeiro.

Reações corporativas e defesa da autonomia do regulador

O caso também provocou manifestações corporativas. O Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central divulgou nota pública repudiando tentativas de criar antagonismo artificial entre o Banco Central e o Judiciário, alertando para o risco de politização da regulação financeira.

A entidade criticou iniciativas legislativas que buscam alterar o regime jurídico do Banco Central, argumentando que tais propostas podem comprometer a autonomia técnica da instituição, fragilizar a fiscalização e expor servidores a insegurança jurídica, justamente em um momento de crise institucional sensível.

Regulação sob pressão e riscos para o sistema

O caso Banco Master revela um cenário de sobreposição de crises: fraudes financeiras de grande escala, fragilidades na governança bancária, disputas institucionais e crescente judicialização da regulação. As comunicações sucessivas do Banco Central ao MPF indicam que as irregularidades não são episódicas, mas refletem um modelo de negócios sustentado por operações opacas e de alto risco.

Ao mesmo tempo, a intensificação das disputas entre órgãos de controle e instâncias do Judiciário cria um ambiente propício à diluição de responsabilidades e ao enfraquecimento da autoridade regulatória. O risco maior não se limita ao destino de um banco específico, mas à credibilidade do sistema de supervisão financeira e à capacidade do Estado de conter fraudes sistêmicas sem captura política ou institucional.

O desfecho do caso será um teste decisivo para a autonomia do Banco Central, para os limites de atuação do TCU e para o papel do Supremo na condução de investigações sensíveis que envolvem grandes interesses econômicos.

Principais dados do caso

Valores financeiros

  • R$ 11,5 bilhões em operações suspeitas com fundos
  • R$ 12,2 bilhões em créditos consignados inexistentes vendidos ao BRB
  • Bilhões em contratos forjados e valores inflados (“prêmios”)

Período investigado

  • Julho de 2023 a julho de 2024 (operações com fundos)
  • Novembro de 2025 (liquidação extrajudicial do banco)

Irregularidades apontadas

  • Gestão inadequada de capital e risco
  • Falta de garantias e problemas de liquidez
  • Baixa diversificação de ativos
  • Estruturas financeiras opacas

Instituições envolvidas

  • Banco Central do Brasil
  • Ministério Público Federal
  • Tribunal de Contas da União
  • Supremo Tribunal Federal
  • Polícia Federal

Desdobramentos institucionais

  • Processos administrativos sancionadores
  • Investigações criminais sob sigilo
  • Acareações por contradições em depoimentos
  • Tensões entre regulador, Judiciário e órgãos de controle

Impactos potenciais

  • Questionamento da autonomia do Banco Central
  • Risco à credibilidade da supervisão financeira
  • Precedentes institucionais para casos futuros

*Com informações da Folha de S.Paulo, Estadão, Veja, Poder360, Globo e Metrópoles.

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