As audiências para ouvir os envolvidos no caso do Banco Master começaram nesta terça-feira (30/12/2025) sob clima de tensão institucional, após um desentendimento entre a delegada da Polícia Federal Janaína Palazzo e o juiz auxiliar Carlos Vieira Von Adamek, que atua junto ao ministro Dias Toffoli, relator do processo no Supremo Tribunal Federal. O conflito ocorreu no momento em que se discutia a ordem e a forma de realização dos depoimentos e acareações, envolvendo diretamente o banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, investigado por supostas irregularidades financeiras de grande escala.
Divergência institucional marca o início das oitivas
A discordância teve início quando a delegada Janaína Palazzo, responsável pela investigação, defendeu a realização imediata de uma acareação, conforme havia sido inicialmente determinado por decisão do ministro Dias Toffoli. O juiz auxiliar Carlos Vieira Von Adamek, no entanto, entrou em contato com o ministro, que optou por alterar o procedimento, determinando que os depoimentos individuais fossem colhidos antes.
Na sequência, Adamek encaminhou à delegada uma lista de perguntas a serem feitas a Daniel Vorcaro. Segundo apuração do UOL, o tom da conversa se elevou, e a delegada sustentou que a condução do depoimento caberia exclusivamente à Polícia Federal, responsável legal pela investigação criminal.
Diante do impasse, o juiz auxiliar voltou a contatar o ministro Toffoli, que teria orientado que as perguntas fossem feitas como se partissem diretamente do relator. Apesar do episódio, as perguntas foram encaminhadas, mas não houve interferência direta do juiz auxiliar durante o depoimento.
Depoimento de Daniel Vorcaro e acareação posterior
Daniel Vorcaro foi ouvido por quase três horas pela Polícia Federal. Após o depoimento individual, ele foi submetido a uma acareação com Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), instituição que também figura no centro das investigações.
Já o diretor do Banco Central, Ailton de Aquino Santos, que havia sido inicialmente incluído na acareação, foi dispensado. A justificativa apresentada é que o dirigente não é investigado formalmente no caso, e a acareação tem como objetivo confrontar versões divergentes entre suspeitos.
Recuo de Toffoli alterou a dinâmica das audiências
A realização dos depoimentos ocorreu após um recuo do ministro Dias Toffoli. Em decisão anterior, o relator havia determinado uma acareação conjunta entre Vorcaro, o ex-presidente do BRB e o diretor do Banco Central. Na véspera das oitivas, contudo, atendeu a um pedido da Polícia Federal e autorizou que os depoimentos fossem tomados separadamente, deixando a critério da delegada a necessidade de eventual acareação posterior.
A mudança de entendimento foi interpretada nos bastidores como uma tentativa de reduzir tensões operacionais, mas acabou expondo divergências sobre os limites de atuação entre Judiciário e polícia investigativa.
Investigação aponta uso de empresa de fachada e créditos inexistentes
De acordo com a investigação da Polícia Federal, o Banco Master teria utilizado uma empresa de fachada para criar créditos inexistentes, que teriam servido de base para operações financeiras irregulares. O banco de Daniel Vorcaro teria recebido R$ 12,2 bilhões do BRB a partir desses ativos supostamente inexistentes.
Além disso, a PF apura o uso da estrutura e dos canais do Banco de Brasília para distribuição irregular de produtos financeiros, o que amplia o alcance institucional e financeiro do caso.
Prisão, soltura e medidas cautelares
Daniel Vorcaro foi preso em novembro de 2025, ao tentar embarcar para os Emirados Árabes Unidos no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP). Dias depois, a Justiça determinou sua soltura, impondo medidas cautelares, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica.
A decisão de soltura e os desdobramentos posteriores passaram a ser alvo de críticas de analistas e observadores do sistema de Justiça, que apontam sinais de degradação ética, moral e legal na condução do caso.
Tensões institucionais e desgaste da credibilidade do STF
O episódio envolvendo o desentendimento entre a delegada da Polícia Federal e o juiz auxiliar do STF revela um conflito sensível de competências em um dos casos financeiros mais relevantes do país. A interferência indireta do relator, ainda que formalmente respaldada por decisões judiciais, expõe fragilidades na separação entre investigação policial e supervisão judicial.
A sucessão de ajustes procedimentais, recuos e comunicações diretas durante a oitiva reforça a percepção de insegurança institucional e alimenta críticas de que o sistema estaria excessivamente flexível quando se trata de figuras de alto poder econômico. A narrativa de que “vendeu, tem que entregar”, repetida por analistas, traduz a expectativa social por responsabilização efetiva.
Do ponto de vista institucional, o caso Banco Master tende a se tornar um marco de desgaste para o STF, especialmente se persistirem sinais de tratamento diferenciado. A condução dos próximos passos da investigação será determinante para avaliar se a Corte conseguirá recompor sua credibilidade ou aprofundará a percepção de complacência.
*Com informações da Folha de S.Paulo, Estadão, Veja, Poder360, Globo e Metrópoles e UOL.
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