Em 8 de agosto de 2025, o colunismo social completou 70 anos como prática estruturada na imprensa de Feira de Santana, consolidando-se como registro histórico da vida social, cultural e econômica da cidade. Iniciado formalmente em 1955 nas páginas da Folha do Norte, o gênero acompanhou transformações de costumes, consolidou personagens e eventos e ajudou a formar a memória urbana, mantendo-se relevante mesmo diante das mudanças tecnológicas e editoriais.
As colunas sociais ganharam projeção nacional ainda no Sudeste, com nomes que se tornaram referência do gênero, a exemplo de Ibrahim Sued, no Rio de Janeiro. No interior da Bahia, porém, o colunismo adquiriu contornos próprios, adaptando-se à dinâmica das cidades médias e às relações sociais locais.
Antes mesmo do surgimento da Folha do Norte, em 1909, periódicos de curta duração já publicavam notas sobre casamentos, aniversários e viagens. Eram registros breves, sem a crônica detalhada e o estilo narrativo que caracterizariam o colunismo social décadas depois.
A formalização do gênero em Feira de Santana ocorreu em 30 de junho de 1955, quando a Folha do Norte, então semanário, passou a publicar a coluna Sociedade, assinada pelas iniciais H.D., do dentista Hélio Dórea, figura respeitada na comunidade local.
Hélio Dórea e os primeiros anos da crônica social
Hélio Dórea inaugurou um novo padrão de cobertura social ao registrar viagens, recepções, eventos religiosos, namoros, casamentos e visitas de autoridades, oferecendo ao leitor um retrato organizado da vida social feirense. Sua atuação marcou o início de um jornalismo voltado à observação sistemática da elite local, algo até então inexistente no interior baiano.
Com a transferência de Dórea para o Espírito Santo, a coluna passou por um breve período sob responsabilidade da professora Ana Maria Oliveira, até que, em 10 de novembro de 1956, surgisse uma nova fase.
M. Portugal e a expansão do gênero
A partir de 1956, a coluna Sociedade passou a ser assinada por Emanuel Simões Portugal, conhecido como M. Portugal, que rapidamente se consolidou como o principal nome do colunismo social feirense. Seu êxito lhe rendeu o reconhecimento de ser o “Ibrahim Sued da Bahia”.
M. Portugal imprimiu dinamismo e inovação, promovendo campanhas sociais, festas beneficentes e eventos que mobilizavam clubes e famílias tradicionais. Sua atuação extrapolou o jornal impresso ao levar o colunismo para o rádio, inicialmente na Rádio Cultura de Feira, ampliando o alcance das informações sociais.
Nesse período, a atriz Zoila Chagas também manteve coluna na Folha do Norte, ainda que de forma passageira, reforçando a diversidade de vozes no segmento.
Clubes, mansões e a sociedade em evidência
O crescimento dos clubes sociais e a abertura das mansões familiares para grandes recepções tornaram o colunismo social um elemento indispensável da imprensa local. Os colunistas passaram a circular por ambientes exclusivos, registrando festas, coquetéis, viagens e, progressivamente, informações ligadas ao mundo empresarial da alta sociedade.
Esse conteúdo despertava interesse não apenas dos protagonistas, mas também do público em geral, que acompanhava à distância a vida dos grupos economicamente privilegiados. O colunismo funcionava, assim, como janela simbólica para um universo social restrito.
Disputas, profissionalização e novos nomes
Com a consolidação do gênero, surgiram outros nomes de destaque. Antônio José Larangeira, então bancário, iniciou sua trajetória na Folha do Norte, passou pelo Diário de Notícias e alcançou projeção em A Tarde, tornando-se referência no jornalismo baiano.
Outro personagem marcante foi Cid Daltro, que conciliava coluna impressa e programa na Rádio Sociedade, em um contexto de competição intensa entre colunistas pela primazia da informação social.
Continuidade e adaptação no jornalismo contemporâneo
Entre os nomes que atravessaram décadas, destaca-se Oydema Ferreira, ainda em atividade na imprensa local. Sua trajetória inclui passagens pelo Jornal da Bahia, Tribuna da Bahia e A Tarde, antes de se fixar na Folha do Estado. Oydema organizou eventos emblemáticos, como Noite de Destaques, Gente que Brilha e Noite de Debutantes, que projetaram Feira de Santana no circuito cultural e social.
Mais recentemente, Ailton Pitombo passou a assinar a coluna Socioeconômico, no Jornal NoiteDia, mantendo a tradição do colunismo com foco na interseção entre sociedade e economia.
O colunismo social em um mundo em transformação
A evolução tecnológica, a internet e a inteligência artificial alteraram profundamente os fluxos de informação. Ainda assim, o colunismo social preserva valor como registro histórico e memória social, documentando costumes, relações e transformações que escapam à cobertura factual diária.
Mesmo com menor centralidade no cotidiano informativo, o gênero permanece como testemunho de uma época e de uma forma específica de narrar a vida urbana.
Memória, elite e função histórica do colunismo
O colunismo social em Feira de Santana desempenhou papel relevante na construção da memória urbana, ao registrar práticas, valores e hierarquias sociais ao longo de sete décadas. Sua importância vai além da curiosidade: trata-se de fonte histórica para compreender a formação das elites locais e suas redes de poder.
Ao mesmo tempo, o gênero sempre refletiu tensões sociais, ao privilegiar determinados grupos e espaços em detrimento de outros. Essa seletividade, inerente ao colunismo tradicional, ajuda a explicar tanto seu prestígio quanto suas limitações.
No cenário atual, marcado por novas formas de comunicação, o desafio reside em preservar o rigor histórico e a relevância documental do colunismo, evitando sua diluição em conteúdos efêmeros e descontextualizados.
Principais colunistas e personagens
- Hélio Dórea – Iniciador do colunismo social formal em 1955
- Ana Maria Oliveira – Substituição temporária
- Emanuel Simões Portugal (M. Portugal) – Consolidação e expansão do gênero
- Zoila Chagas – Atuação passageira
- Antônio José Larangeira – Projeção estadual no jornalismo baiano
- Cid Daltro – Integração entre imprensa escrita e rádio
- Oydema Ferreira – Continuidade e longevidade profissional
*Com informações do jornalista Zadir Marque Porto.











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