A percepção de que o Custo Brasil pesa cada vez mais sobre a produção industrial se consolidou entre as empresas. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que 64% dos empresários afirmam que o impacto aumentou nos últimos três anos, enquanto 27% dizem que permanece estável e apenas 6% observaram redução. O tema dominou o Seminário Custo Brasil, realizado na capital paulista, em evento promovido pela Folha de S. Paulo com apoio institucional da entidade.
O termo Custo Brasil reúne o conjunto de entraves burocráticos, tributários e logísticos que encarecem a produção e reduzem a competitividade nacional, desde a alta carga fiscal até gargalos de infraestrutura. Segundo estudo do Movimento Brasil Competitivo (MBC) em parceria com o MDIC, o impacto anual para as empresas chega a R$ 1,7 trilhão, equivalente a 20% do PIB brasileiro — um montante que, na avaliação de especialistas, representa desperdício de potencial econômico.
Durante o encontro, o diretor de Desenvolvimento Industrial, Tecnologia e Inovação da CNI, Jefferson Gomes, defendeu ação coordenada entre governo e setor produtivo. Para ele, superar o Custo Brasil é condição essencial para ampliar investimentos, gerar empregos e transformar o potencial industrial do país em crescimento real.
“Não é apenas uma questão contábil. É a chave para transformar potencial em riqueza, emprego qualificado e bem-estar”, afirmou.
Percepção regional e impacto por porte de empresa
Os efeitos do Custo Brasil variam entre regiões e perfis empresariais. No Sul, 72% dos empresários relatam aumento do impacto nos custos. Nordeste e Sudeste apresentam 63% de percepção de alta, enquanto 53% das companhias do Norte e Centro-Oeste afirmam sentir crescimento relevante do peso tributário e operacional.
Entre as médias e grandes empresas, 69% apontam agravamento do cenário. Nos pequenos negócios, o percentual é de 63%, indicando que a pressão é generalizada e atinge tanto indústrias de grande porte quanto empreendedores de menor estrutura financeira.
Energia e crédito no centro das preocupações do setor
Gomes destacou que o progresso educacional e tecnológico não é suficiente para destravar o crescimento se os custos estruturais continuarem altos. Para ele, a redução dos juros é ponto central, especialmente para crédito produtivo, um dos pilares de expansão industrial.
Segundo o diretor, a taxa Selic próxima de 15% reduz investimento e consumo, fatores essenciais para a geração de renda e dinamismo econômico.
Outro fator relevante é o preço da energia. A CNI defende medidas para ampliar a oferta de energia renovável com qualidade e menor custo, reduzindo encargos e subsídios que hoje representam 26% da conta de luz. O setor industrial considera o acesso energético competitivo uma variável estratégica para atrair novos projetos e aumentar a produtividade.
Para avançar, a CNI sugere investimentos robustos em infraestrutura e logística, com foco na eficiência regulatória, modernização de portos, ampliação de redes de transmissão e melhoria do transporte de cargas.
“O diagnóstico está claro e as soluções são conhecidas. É hora de agir”, concluiu Gomes, defendendo maior protagonismo do poder público.
Entraves históricos, cobranças atuais
A discussão sobre o Custo Brasil não é recente. Há décadas, empresários e economistas apontam que burocracia, insegurança jurídica, tributação complexa e infraestrutura insuficiente reduzem a capacidade competitiva nacional. Persistência desse quadro reforça a percepção de que o país avança lentamente em reformas estruturais, mesmo diante de diagnósticos repetidos e consensuais.
A indústria busca respostas imediatas em um contexto de crescimento econômico modesto, câmbio volátil e aumento da concorrência global. O apelo feito pela CNI — redução de juros, energia mais barata e logística eficiente — evidencia que o setor produtivo cobra celeridade nas decisões governamentais para evitar fuga de investimentos e ampliação da desindustrialização.
A agenda proposta aponta para prioridades urgentes: simplificação tributária, previsibilidade regulatória e segurança jurídica. Caso não haja mudanças concretas, o risco é prolongar um ciclo crônico de custos elevados que afetam desde o preço final ao consumidor até a capacidade do país de competir no comércio internacional.
Principais Dados
Percepção do Custo Brasil
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64% das indústrias afirmam que o custo aumentou nos últimos três anos
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27% dizem que o impacto permanece igual
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6% apontam redução
Impacto Econômico
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Valor estimado anual do Custo Brasil: R$ 1,7 trilhão
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Representa aproximadamente 20% do PIB brasileiro
Percepção por Região
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Sul: 72% relatam aumento
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Nordeste: 63% relatam aumento
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Sudeste: 63% relatam aumento
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Norte/Centro-Oeste: 53% relatam aumento
Percepção por Porte de Empresa
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Médias e grandes empresas: 69% afirmam aumento
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Pequenas empresas: 63% afirmam aumento
Energia e Insumos
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Encargos e subsídios na energia representam 26% da conta de luz
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CNI defende energia renovável, estável e a preços competitivos
Gargalos Estruturais Identificados
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Juros altos prejudicam acesso ao crédito produtivo (Selic próxima de 15%)
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Infraestrutura deficiente impacta logística nacional
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Burocracia e complexidade regulatória desestimulam investimentos










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