Ao completar três anos à frente do Governo da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT) chega a um momento de inflexão política e administrativa. Embora tenha consolidado uma ampla base de apoio institucional, com maioria das prefeituras sob influência de seu grupo político, o governador aparece atrás de seu principal adversário, ACM Neto, nas pesquisas de intenção de voto divulgadas até agora, antecipando desde já o clima eleitoral de 2026.
Levantamento do instituto Quaest divulgado em agosto aponta ACM Neto com 41% das intenções de voto, contra 34% de Jerônimo, resultado que contrasta com o domínio territorial do grupo governista no estado. Em entrevista concedida à Folha de S.Paulo, o governador relativiza os números e sustenta que, enquanto a oposição cresce nas pesquisas, sua base avança “nas urnas”, em referência ao controle político-administrativo dos municípios.
Jerônimo Rodrigues aposta no peso eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Bahia e avalia que o chefe do Executivo federal se encontra em situação mais confortável do que na eleição de 2022. Para o governador, a disputa estadual e a presidencial permanecem diretamente interligadas, tanto no discurso político quanto na estratégia eleitoral adotada pelo grupo governista.
Nesse contexto, Jerônimo Rodrigues articula a formação de uma chapa majoritária do PT ao lado de dois ex-governadores da Bahia com projeção nacional e pretensões ao Senado Federal nas Eleições de 2026: Jaques Wagner, senador da República eleito em 2018, e Rui Costa, ministro da Casa Civil do governo Lula III, consolidando um arranjo que antecipa o xadrez político e reforça a centralidade da aliança petista no cenário baiano.
Base política forte e pré-candidatura confirmada
Questionado sobre uma eventual candidatura à reeleição, Jerônimo confirmou-se pré-candidato, afirmando não haver outro nome colocado dentro do seu grupo político. Comentários sobre uma possível alternativa envolvendo Rui Costa foram descartados pelo governador, que reafirmou o foco em concluir o mandato com entregas administrativas e na reversão dos indicadores eleitorais.
Ao comparar seu cenário ao enfrentado por seus antecessores Jaques Wagner e Rui Costa em suas reeleições, Jerônimo reconhece que ambos estavam mais confortáveis nas pesquisas. Ainda assim, sustenta que mede sua força política pelo apoio de prefeitos e lideranças locais, apostando no trabalho até o último dia de governo para reverter o quadro.
Para o governador, o embate de 2026 carrega também um simbolismo histórico. Ele afirma enfrentar não apenas um adversário político, mas o “herdeiro do carlismo”, em referência direta a ACM Neto, herdeiro político do ex-senador Antônio Carlos Magalhães.
Relação com Lula e disputa nacional em 2026
Jerônimo afirma que a relação entre ele e o presidente Lula é de interdependência eleitoral. Segundo o governador, Lula precisará do desempenho da base petista na Bahia tanto quanto o grupo local dependerá do presidente para manter sua vantagem histórica no estado.
Na avaliação do petista, o cenário nacional é mais favorável ao presidente do que em 2022, especialmente com maior penetração eleitoral em regiões como o Norte e o Sudeste. Ainda assim, o governador ressalta que sua responsabilidade principal é fortalecer o desempenho estadual e ampliar as bancadas federal e estadual aliadas.
Chapa majoritária e tensões na base aliada
A formação da chapa para 2026, especialmente para o Senado, é apontada como um dos principais desafios internos. Jaques Wagner e Rui Costa manifestam interesse em disputar as duas vagas, o que impõe negociações delicadas com partidos da base, como o PSD, do senador Angelo Coronel.
Jerônimo afirma que as conversas seguem em curso e que o objetivo é construir uma composição “ganha-ganha”, sem rupturas. Segundo ele, o diálogo é feito de forma direta, com compensações políticas quando possível, e prazo até março para definição de uma solução consensual.
O governador também criticou o atual Congresso Nacional, afirmando que parte dos parlamentares atua para criar mecanismos de autoproteção, inclusive de políticos com ligações com o crime organizado. Para ele, não deve haver privilégios institucionais e quem comete erros deve responder judicialmente.
Segurança pública: discurso firme e dados preocupantes
A segurança pública segue como o tema mais sensível da gestão. Jerônimo defende um “braço forte” do Estado contra o crime organizado, mas ressalta que isso não pode ser interpretado como autorização para excessos policiais. Segundo dados oficiais, a letalidade policial caiu em 2024, mas a Bahia ainda lidera os números absolutos do país, com 1.370 mortes em ações policiais entre janeiro e outubro de 2025.
O governador reconhece a gravidade dos indicadores e defende a ampliação do uso de câmeras corporais pelas forças de segurança, tanto como instrumento de transparência quanto de proteção ao próprio policial. Ele admite que a implementação inicial foi pontual e insuficiente diante da dimensão do problema.
Jerônimo também destaca que o avanço das facções criminosas nas comunidades, com extorsões e controle ilegal de serviços, exige um sistema nacional de segurança pública, nos moldes do SUS na saúde. Para ele, estados e municípios não conseguem enfrentar o problema sem maior participação orçamentária e operacional da União.
Infraestrutura, endividamento e a ponte Salvador-Itaparica
Outro ponto central da entrevista foi a renegociação do contrato da ponte Salvador–Itaparica, cujo custo estimado subiu para R$ 12 bilhões, entre investimentos diretos e contraprestações, valor cerca de quatro vezes superior ao inicialmente previsto.
Jerônimo afirma que a renegociação foi conduzida pelo Tribunal de Contas do Estado e defende a obra como estratégica para a mobilidade estadual e nacional. Segundo ele, a ponte permitirá economia de até 150 quilômetros para cargas oriundas do Oeste baiano e ganhou status de projeto nacional ao ser incluída no orçamento federal.
Sobre os impactos ambientais e sociais, especialmente em comunidades tradicionais de Itaparica, o governador reconhece riscos como a especulação imobiliária e afirma que o Estado criou uma secretaria específica para fiscalizar o consórcio e garantir compensações quando necessárias.
Empréstimos, finanças e combate à fome
A gestão Jerônimo Rodrigues foi autorizada a contratar empréstimos que somam até R$ 26 bilhões, o que gerou críticas da oposição. O governador sustenta que o Estado mantém boa saúde fiscal e que parte do endividamento compensa a falta de acesso a crédito durante o governo Bolsonaro.
No campo social, Jerônimo reafirma que o combate à fome é a principal marca de sua gestão. Segundo ele, 2,3 milhões de pessoas saíram da situação de fome, mas ainda restam cerca de 700 mil em insegurança alimentar, número que admite não considerar aceitável.
Além de programas de distribuição de alimentos, restaurantes populares e cozinhas comunitárias, o governador destaca o papel das escolas públicas, que oferecem até quatro refeições diárias, como eixo estruturante da política de inclusão social.
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