Inadimplência no agronegócio do Brasil sobe, bancos endurecem garantias e crédito rural tende a ficar mais restrito em 2026

A inadimplência no agronegócio cresceu em 2025, superou 3% do crédito rural ativo em novembro e, somada a atrasos, prorrogações e renegociações, ultrapassou 15,2%, com R$ 123,5 bilhões em estresse. Bancos endureceram garantias e o crédito caiu 15% no início do Plano Safra 2025/26. Em 2026, a desalavancagem, o clima e a alta de recuperações judiciais devem manter o crédito mais restrito.
Inadimplência no agro sobe, bancos exigem mais garantias, crédito recua e recuperações judiciais disparam; 2026 deve seguir com financiamento mais restrito.

A inadimplência no agronegócio avançou ao longo de 2025, superou 3% do crédito rural ativo em novembro e deteriorou carteiras de grandes bancos, levando instituições a elevar exigências de garantias e a reduzir o ritmo de concessões. O movimento ocorre em paralelo ao encarecimento do dinheiro e à aceleração de recuperações judiciais (RJs) no setor, fatores que, juntos, pressionam o mercado e tornam 2026 um ano de transição, com maior seletividade e foco em desalavancagem.

A escalada do atraso nos pagamentos, somada a volumes crescentes de prorrogações e renegociações, fez o crédito rural entrar em fase de reprecificação de risco. No primeiro semestre do Plano Safra 2025/26, a concessão de financiamentos recuou 15%, em ambiente marcado por juros elevados e maior cautela na originação. Representantes do setor produtivo, agentes financeiros e analistas convergem na leitura de que o ajuste será gradual, com o clima exercendo papel ainda mais decisivo sobre a renda do campo.

Alta da inadimplência e impacto nas carteiras bancárias

Dados do Banco Central indicam que a inadimplência no crédito rural — para pessoas físicas e empresas — subiu de 1,2% no início da safra passada, em julho de 2024, para 3,3% em novembro de 2025. Ao incluir operações em atraso, prorrogadas e renegociadas, o índice supera 15,2%, equivalente a R$ 123,5 bilhões em situação de estresse.

O avanço foi mais agudo entre produtores pessoas físicas que tomam crédito a juros de mercado: a inadimplência atingiu 11,4% em outubro de 2025, ante 2,54% em julho de 2024. No indicador geral, que também considera operações com recursos controlados, o índice estava em 6,15% (referência de dois meses antes no material analisado).

No Banco do Brasil, principal financiador do agro, a inadimplência do setor ultrapassou 5,3% em setembro, reforçando a percepção de que o problema não está restrito a nichos específicos. A leitura predominante no mercado é que o aumento dos custos financeiros reduziu a folga de caixa para amortizações, elevando a necessidade de reestruturações e renegociações.

Bancos endurecem garantias e priorizam clientes menos alavancados

A deterioração de indicadores tem levado bancos a segmentar com mais rigor seus públicos, concentrando crédito em produtores considerados menos alavancados e com melhor capacidade de oferecer garantias. No Bradesco, a estratégia descrita no conteúdo envolve manter crescimento junto aos clientes com operação “normal”, enquanto direciona esforços de reestruturação a grupos mais endividados — com destaque para produtores expostos a arrendamentos caros.

Executivos de mercado apontam que parte relevante da alavancagem foi construída no período pós-pandemia, quando juros estavam mais baixos, commodities sustentadas e crédito mais abundante, gerando investimentos de longo prazo que, em alguns casos, ficaram “descalibrados” quando o custo do capital subiu. Nesse contexto, a tendência é de maior seletividade e de exigência de garantias adicionais como condição para novas operações.

A expectativa de queda da Selic em 2026, por si só, não aparece como alívio imediato para quem já está endividado. A avaliação registrada no material é que reduções marginais de juros preservariam, no curto prazo, o peso do serviço da dívida na margem, mantendo o campo em regime de ajuste por mais de um ciclo.

O elo frágil: arrendamentos, margens comprimidas e garantias insuficientes

Com commodities “de lado” e custos ainda elevados, o conteúdo aponta pressão sobre arrendatários, que podem devolver áreas ou renegociar contratos. A consequência provável é dupla: revisão de preços de arrendamento e mudanças nos preços de terras, em movimento que pode acelerar concentração — saída de produtores mais endividados e expansão de grupos com estrutura de capital mais robusta.

Consultores citados descrevem uma “peneirada” no setor: produtores fora de cadeias estruturadas — como cooperativas e sistemas integrados — tenderiam a reduzir escala, vender ativos ou deixar a atividade. O ponto central é que, num mercado mais exigente, a ausência de garantias “tradicionais” e de formalização suficiente pode limitar o acesso a crédito e acelerar reestruturações.

Indicadores da Serasa e desigualdade regional do endividamento rural

Levantamento da Serasa Experian citado no conteúdo aponta inadimplência de 8,1% no 2º trimestre de 2025, calculada sobre um universo de 10,5 milhões de produtores rurais. Na comparação trimestral, a variação foi de 0,3 ponto percentual, caracterizada como estabilidade, mas a série indica crescimento gradual ao longo de três anos.

O recorte regional mostra assimetrias relevantes: Amapá (19,5%) e Amazonas (13,9%) aparecem com as maiores taxas, enquanto os Estados do Sul concentram os menores índices — com Rio Grande do Sul (4,9%) como o menor no material. O levantamento também destaca maior inadimplência entre produtores sem CAR, como arrendatários ou grupos familiares, com índice de 10,5%.

Por porte, os percentuais indicados são: grandes produtores (9,2%), médios (7,8%) e pequenos (7,6%). A metodologia mencionada considera dívidas acima de R$ 1.000, com mais de 180 dias de atraso e até cinco anos, associadas a atividades do agronegócio e sua cadeia (agroindústrias, revendas, serviços e comércio ligado ao campo).

Recuperações judiciais disparam e pioram o “humor” do crédito privado

No mesmo movimento da inadimplência, o conteúdo registra aceleração de pedidos de recuperação judicial no agro em 2025, com efeito direto sobre o apetite do mercado privado por risco no setor. No 3º trimestre de 2025, os pedidos de RJ de produtores rurais subiram 147% ante o mesmo período de 2024, totalizando 628 novas solicitações; no acumulado até setembro, foram 1.582 processos.

O avanço alimenta debate sobre o uso do instituto e eleva incertezas para credores, principalmente por impactar provisões contábeis e por reduzir previsibilidade sobre a recuperação de crédito. O material relata que, para casos de menor porte, negociações bilaterais ainda são vistas como caminho preferencial, mas a escolha pela RJ tende a deslocar a resolução para um ambiente mais lento e litigioso.

O problema é agravado pela lentidão na execução de garantias. Conforme o conteúdo, a execução de hipoteca pode levar até cinco anos; já a alienação fiduciária, instrumento mais rápido e adotado como alternativa, teria passado de cerca de 60 dias para aproximadamente um ano. Essa perda de velocidade reduz o valor econômico das garantias e, na prática, incentiva bancos a elevarem o grau de exigência na originação.

Safra recorde não elimina o aperto: clima e caixa seguem no centro do risco

Apesar do estresse financeiro, os agricultores ampliaram a área plantada em 2025 para cerca de 84,2 milhões de hectares, e o conteúdo projeta nova safra recorde em 2026, acima de 350 milhões de toneladas de grãos. O mercado, porém, mantém atenção redobrada ao clima, especialmente sobre a safrinha de milho, dada a sensibilidade do caixa em um ano no qual parte relevante da receita tende a ser direcionada a abatimento de dívidas.

A mensagem predominante no material analisado é que 2026 deve ser marcado menos por expansão e mais por reorganização financeira: renegociação, reestruturação, alongamento e ajuste de escala. Mesmo com produção elevada, o risco reside no descasamento entre margem operacional e custo da dívida — e esse descasamento se torna crítico quando eventos climáticos afetam produtividade ou calendário de colheita.

Crédito mais seletivo e efeitos estruturais sobre o campo

A combinação de inadimplência crescente, renegociações volumosas e explosão de recuperações judiciais reintroduz um elemento clássico do mercado de crédito: quando a previsibilidade de recebimento cai, o dinheiro não “some”, mas fica mais caro, mais exigente e mais concentrado. O efeito tende a ser uma migração para perfis com melhor governança, garantias claras e capacidade comprovada de geração de caixa.

Há também uma tensão institucional implícita: o aumento de RJs e a percepção de decisões judiciais que ampliem proteções ao devedor (conforme avaliação citada no conteúdo) pode elevar a aversão ao risco dos credores e acelerar o endurecimento das condições de financiamento. Em termos práticos, isso desloca o sistema para um modelo mais conservador: garantias mais robustas, covenants mais duros, menor tolerância a atrasos e maior triagem de tomadores.

Por fim, o ajuste tende a ter custo social e produtivo: produtores com operação baseada em arrendamento caro e com menor capacidade de oferecer garantias podem ser empurrados para fora, incentivando concentração fundiária e produtiva. Se o reequilíbrio vier sem instrumentos eficazes de reorganização financeira e de mitigação de risco climático, o setor pode produzir recordes e, ao mesmo tempo, conviver com um número crescente de saídas e reestruturações forçadas.

*Com informações do Globo Rural e Valor.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Facebook
Threads
WhatsApp
Twitter
LinkedIn

Deixe um comentário

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading

Privacidade e Cookies: O Jornal Grande Bahia usa cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com o uso deles. Para saber mais, inclusive sobre como controlar os cookies, consulte: Política de Cookies.