A Operação Transparência — ação da Polícia Federal deflagrada nesta sexta-feira (12/12/2025) e autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) — lançou luz sobre conflitos internos no bloco suprapartidário conhecido como Centrão, além de pressões políticas e tentativas de centralização opaca da destinação de emendas parlamentares. Em depoimento, o deputado José Rocha (União Brasil-BA) relatou ter retido o envio de R$ 320 milhões destinados a Alagoas após receber planilhas sem identificação de autores, objetos ou beneficiários, indicando fragilidades na governança do Congresso Nacional.
No depoimento à PF, o deputado José Rocha relatou que, ao assumir a presidência de uma comissão responsável por emendas do Ministério da Integração Nacional e do Desenvolvimento Regional, passou a receber minutas de ofícios e planilhas prontas para assinatura — sem qualquer detalhamento mínimo exigido pela administração pública, como autoria, finalidade ou identificação de beneficiários.
Segundo Rocha, entre as remessas estava uma lista com R$ 320 milhões destinados a Alagoas, cujo envio foi retido por falta de transparência e justificativa técnica. Ele afirmou que, ao buscar esclarecimentos, sofreu pressões diretas da presidência da Câmara. Embora Arthur Lira não seja alvo formal da investigação, relatos indicam tentativas de influência política sobre a alocação de recursos.
A investigação também sugere que parte da dinâmica de distribuição de emendas passou a reproduzir práticas associadas ao “orçamento secreto”, com decisões concentradas em instâncias superiores e ausência de discussão colegiada.
Depoimentos reforçam lógica do “orçamento secreto” e conflitos internos
Parlamentares ouvidos pela Polícia Federal confirmaram relatos de pressões e falta de transparência na destinação das emendas. O deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) afirmou que Rocha recebeu uma lista de emendas que favorecia interesses políticos específicos e teria sido ameaçado de sofrer voto de desconfiança caso não seguisse orientações.
Segundo Braga, tais decisões teriam priorizado recursos para o município de Rio Largo (AL) por meio de comissões sem deputados alagoanos entre seus integrantes, reforçando indícios de direcionamento político. A falta de debates formais sobre a destinação de recursos foi também confirmada por outros parlamentares e servidores ouvidos pela PF.
Irregularidades administrativas e retaliações internas
Testemunhas relataram tentativas de substituir a assinatura autorizada em ofícios relativos a emendas, enquanto o então presidente da comissão estava em viagem, o que foi considerado irregular e resultou em retaliações internas contra servidoras que questionaram o procedimento.
A deputada Adriana Ventura (Novo-SP) destacou que, na prática, a destinação das emendas não era discutida nas comissões, sendo imposta por decisões tomadas “de cima para baixo”. Parlamentares só tiveram conhecimento dos possíveis direcionamentos após reportagens na imprensa, evidenciando problemas de governança e transparência.
Intermediação suspeita e avanço da investigação
O senador Cleitinho (Republicanos-MG) relatou à Polícia Federal abordagens de intermediários oferecendo “parcerias” para emendas, mesmo sem qualquer vínculo com seu estado.
A Operação Transparência, autorizada pelo ministro Flávio Dino, do STF, apura suspeitas de desvios e irregularidades na execução de emendas parlamentares, com base em depoimentos, documentos e dados extraídos de aparelhos celulares. Nos autos, Mariângela Fialek é apontada como responsável pela operacionalização do esquema investigado.
O que é o Centrão — bloco suprapartidário no Congresso Nacional
O termo Centrão refere-se a um bloco suprapartidário informal no Congresso Nacional brasileiro, composto por parlamentares de diversas legendas que, historicamente, não possuem uma orientação ideológica consistente nem programa definido, mas atuam em conjunto para negociar apoio ao Poder Executivo em troca de vantagens políticas, recursos e cargos.
Esse grupo ganhou destaque político expressivo desde a redemocratização do Brasil, quando surgiu durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988 como um conjunto de parlamentares que se organizou para influenciar a definição da nova Constituição Federal.
No cenário contemporâneo, o Centrão não constitui um bloco formal registrado nas casas legislativas, o que significa que sua composição pode variar conforme interesses políticos momentâneos, mas sua influência sobre votações decisivas e sobre a formação de maiorias parlamentares é notória. Seu poder deriva, em grande medida, da lógica do presidencialismo de coalizão, no qual o presidente da República depende de ampla base no Congresso para governar.
Governabilidade, transparência e o papel do Centrão
A crise institucional desencadeada pela Operação Transparência revela fragilidades profundas no modelo de governança das emendas parlamentares e no sistema de coalizão política que marca o Congresso Nacional brasileiro. Mesmo após decisões do STF que visaram aumentar a transparência orçamentária, práticas opacas parecem persistir, agora sob a égide de uma lógica de controle político e negociações internas.
O Centrão, enquanto bloco suprapartidário com forte capacidade de negociação, emerge novamente como protagonista nas disputas sobre recursos públicos bilionários. Sua atuação, marcada pela ausência de programa ideológico claro e pela capacidade de transitar entre diferentes administrações, permanece central para compreender como se dá a construção de maiorias e a alocação de recursos no Brasil contemporâneo.
A incapacidade de estabelecer critérios transparentes de destinação de emendas e a recorrência de relatos de pressões políticas e retaliações internas indicam que a busca por accountability no uso de recursos públicos ainda enfrenta obstáculos institucionais significativos.
*Com informações do Jornal O Globo.











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