Grandes empresários brasileiros passaram a manifestar, de forma pública e organizada, preocupação com a reputação e a credibilidade do Supremo Tribunal Federal após o escândalo envolvendo o Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro, e a prisão temporária de seu controlador, Daniel Vorcaro. O alerta ganhou intensidade depois da revelação de contratos milionários, contatos considerados inadequados entre autoridades e medidas judiciais vistas como atípicas, alimentando a percepção de insegurança jurídica e risco à atração de investimentos no país.
Revelações ampliam tensão entre Judiciário e setor privado
O grau de apreensão no meio empresarial aumentou após a divulgação de que o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, manteve um contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master. O valor elevado, aliado à ausência de esclarecimentos públicos detalhados sobre os serviços prestados, passou a ser visto por empresários como um fator de desgaste institucional, ainda que o ministro negue qualquer irregularidade.
Também repercutiu negativamente a informação de que Moraes teria conversado com o Banco Central sobre temas de interesse da instituição financeira durante o processo de liquidação. O ministro nega ter feito pressão e afirma que os contatos se deram em contexto institucional, versão igualmente divulgada pelo próprio BC. Ainda assim, o episódio contribuiu para um ambiente de desconfiança no mercado.
A crise se aprofundou com atitudes atribuídas ao ministro Dias Toffoli, que viajou em um jato particular ao Peru na companhia de advogado ligado ao caso e posteriormente determinou sigilo sobre partes do processo. Para empresários e juristas ouvidos por veículos de imprensa, tais gestos ampliaram a percepção de falta de prudência e de distanciamento entre magistrados e partes interessadas.
Manifesto pede código de conduta para ministros do STF
Em resposta ao cenário, foi lançado em 16 de dezembro um manifesto público defendendo a adoção de um código de conduta formal para ministros do STF. O documento recebeu apoio de nomes de peso do empresariado nacional, como Armínio Fraga, Eugênio e Salim Mattar, Guilherme Leal, Pedro Passos, Jayme Garfinkel, José Olympio Pereira, Marco Stefanini e Pedro Wongtschowski, entre outros.
Os signatários defendem que regras claras de comportamento, transparência e prevenção de conflitos de interesse são essenciais para preservar a autoridade moral da Corte. A iniciativa reflete um movimento incomum de pressão institucional do setor privado sobre o Judiciário, motivado pela avaliação de que a credibilidade do Supremo é um ativo estratégico para a estabilidade econômica do país.
Fabio Barbosa, ex-presidente do Santander Brasil e da Febraban, afirmou que a discussão vai além de normas formais. Segundo ele, é fundamental que haja transparência efetiva nas atitudes dos ministros, como forma de recuperar o respeito social que, na avaliação de empresários, vem sendo gradualmente corroído.
Banco Central no centro do embate institucional
Outro ponto sensível é a atuação do Banco Central, visto pelo mercado como um órgão técnico que historicamente resistiu a pressões políticas. Empresários reagiram com perplexidade à convocação, em pleno recesso do Judiciário, de uma acareação determinada por Toffoli envolvendo Daniel Vorcaro, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e o diretor de fiscalização do BC, Ailton de Aquino.
A medida foi interpretada como atípica e inoportuna, uma vez que não partiu de solicitação prévia dos investigadores. Para integrantes do setor financeiro, o gesto cria constrangimentos desnecessários a técnicos do BC e reforça a sensação de interferência judicial em processos administrativos sensíveis.
Ricardo Lacerda, fundador do BR Partners, destacou que o BC construiu sua credibilidade ao longo de décadas justamente pela observância estrita de limites institucionais. Na avaliação dele, qualquer sinal de pressão indevida compromete não apenas o caso específico, mas a confiança no arcabouço regulatório brasileiro.
Reações políticas e pressão por esclarecimentos
A crise extrapolou o mercado financeiro e passou a repercutir no meio político e dentro do próprio STF. Ministros e integrantes do governo federal demonstram preocupação com o impacto do episódio sobre a imagem da Corte, considerada central para a estabilidade democrática. Há o reconhecimento de que o desgaste do Supremo pode produzir efeitos colaterais sobre o Executivo e o Legislativo.
O ex-banqueiro e ex-presidenciável João Amoêdo defendeu publicamente que Alexandre de Moraes se afastasse temporariamente do cargo até que todas as dúvidas fossem esclarecidas. Para ele, o contrato milionário firmado pelo escritório da esposa do ministro inverte o ônus da prova e exige uma resposta institucional mais contundente.
Dentro do STF, as avaliações se dividem. Alguns magistrados veem o episódio como uma crise passageira, alimentada por narrativas sem provas conclusivas. Outros reconhecem que a ausência de explicações detalhadas contribui para o prolongamento da desconfiança e para a erosão da imagem do tribunal.
Ataques a jornalistas e defesa da liberdade de imprensa
O caso também reacendeu o debate sobre liberdade de imprensa. A Abraji divulgou nota repudiando ataques online contra a jornalista Malu Gaspar, autora de reportagens sobre o suposto contato de Moraes com o Banco Central. A entidade destacou que intimidações a profissionais que investigam figuras de poder representam prejuízo direto à sociedade.
A associação lembrou que ataques misóginos contra jornalistas mulheres se tornaram recorrentes e que a defesa do jornalismo investigativo é condição básica para a transparência institucional. O episódio reforçou a tensão entre setores do Judiciário, da mídia e do mercado financeiro.
STF, credibilidade e limites institucionais
O escândalo do Banco Master expôs, de forma rara, o Supremo Tribunal Federal ao escrutínio direto do setor privado, não por decisões judiciais, mas por condutas percebidas como inadequadas. A reação do empresariado indica que a confiança institucional não se sustenta apenas na legalidade formal, mas também na aparência de imparcialidade e na prudência dos agentes públicos.
Os desdobramentos revelam uma tensão estrutural entre Judiciário, mercado e imprensa, em um contexto de alta sensibilidade econômica e política. A ausência de respostas claras e tempestivas tende a ampliar a crise, alimentando narrativas de insegurança jurídica e fragilizando a autoridade da Corte.
Há, ainda, uma omissão relevante: a falta de mecanismos internos robustos de controle de conduta no STF. A resistência a um código formal contrasta com práticas consolidadas em outras instituições e democracias, reforçando a percepção de excepcionalidade e autossuficiência do tribunal.
*Com informações do jornal Folha de S.Paulo.
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