União entre os presidentes Lula e Donald Trump contra o narcotráfico gera avanços diplomáticos e riscos estratégicos para o Brasil, analisam especialistas

O debate sobre a cooperação entre Brasil e Estados Unidos no enfrentamento ao narcotráfico ganhou centralidade nesta segunda-feira (08/12/2025) após análise de especialistas consultados sobre os efeitos da iniciativa apresentada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao presidente Donald Trump. A proposta ocorre em meio a alertas da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre pressões externas na América Latina e riscos de interferência estrangeira em nome da segurança regional.

Um relatório da Abin apontou que potências buscam explorar vulnerabilidades políticas e o avanço do crime organizado na região, criando pretextos para ações que possam impactar a soberania e a autodeterminação dos países latino-americanos. O documento, embora não mencione diretamente os EUA, sinaliza disputas estratégicas em um cenário de reorganização internacional.

O contexto ganha relevância após a conversa telefônica entre Lula e Trump, em (02/12/2025), quando ambos discutiram uma agenda conjunta para combater o crime transnacional. O movimento partiu do governo brasileiro.

Estratégia diplomática e controle da pauta

Para analistas ouvidos pela reportagem, Lula busca assumir protagonismo na definição dos limites da cooperação, evitando a interpretação de que o governo federal é tolerante com o crime organizado. A iniciativa também cria margem para que o Brasil estabeleça parâmetros próprios no diálogo com Washington.

Segundo Priscila Villela, professora de relações internacionais da PUC-SP e integrante do NETS, ao antecipar a discussão, Lula tenta impedir que os Estados Unidos definam unilateralmente os rumos da agenda de segurança. Villela afirma que a estratégia funciona como um freio a possíveis ações norte-americanas que ultrapassem limites considerados essenciais para a proteção da soberania nacional.

A especialista também destacou que Lula citou a presença de um operador financeiro do crime organizado em Miami, referência direcionada às denúncias envolvendo a empresa Refit, acusada de sonegação fiscal. A menção evidencia, segundo Villela, a necessidade de o combate ao narcotráfico incluir mecanismos de rastreamento de fluxos financeiros.

Estruturas financeiras do crime e impacto internacional

Para Villela, iniciativas focadas apenas em incursões policiais não atingem o núcleo das organizações transnacionais. O enfrentamento exige atenção às engrenagens econômicas que sustentam atividades ilícitas, incluindo lavagem de dinheiro, evasão de divisas e tráfego de recursos por paraísos fiscais, como o estado de Delaware, citado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

Haddad relatou a autoridades norte-americanas detalhes da operação Poço do Lobato, que apura crimes financeiros relacionados à Refit, e ressaltou a necessidade de atuação conjunta entre países para conter movimentações ilícitas. O envio do encarregado de negócios dos EUA, Gabriel Escobar, ao Brasil demonstra sinal de interesse imediato de Washington na cooperação.

Cooperação histórica e desafios geopolíticos

Especialistas lembram que a relação entre Brasil e EUA no combate ao narcotráfico é antiga. A DEA mantém atividades no país desde 1973, oferecendo suporte em inteligência, treinamento e operações conjuntas com a Polícia Federal. No entanto, segundo Marcos Vinicius Figueiredo, professor do Ibmec Rio de Janeiro, a atual aproximação tem também componente econômico, servindo como ajuste diplomático às tensões comerciais impostas pelo governo Trump.

Figueiredo aponta ainda fatores considerados ambíguos na política norte-americana para o continente. Enquanto a Casa Branca acusa governos como os da Venezuela e Colômbia de supostas ligações com o narcotráfico, mantém posições mais brandas em relação a aliados envolvidos em escândalos semelhantes, como o ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado por tráfico nos EUA.

Essa postura, segundo o professor, cria incertezas para países parceiros, que enfrentam dificuldade em prever ações e critérios adotados por Washington na discussão sobre crime organizado.

*Com informações da Sputnik News.


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