O empresário Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, foi preso temporariamente na manhã desta quarta-feira (14/01/2026) ao tentar embarcar em um jatinho particular com destino a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A detenção ocorreu no contexto da segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal, que investiga um esquema de fraude bilionária envolvendo o Banco Master. Zettel foi liberado poucas horas depois. No mesmo dia, a PF cumpriu 42 mandados de busca e apreensão e determinou bloqueios e sequestros de bens que somam R$ 5,7 bilhões, aprofundando a apuração sobre a criação de carteiras falsas de crédito, manipulação de mercado e lavagem de capitais.
Prisão temporária e tentativa de embarque
A prisão temporária de Fabiano Zettel teve como objetivo preservar o sigilo da nova etapa da investigação. Segundo a PF, a tentativa de embarque para Dubai em aeronave privada levantou suspeitas semelhantes às que levaram, em novembro de 2025, à prisão de Daniel Vorcaro quando também se preparava para viajar ao mesmo destino.
Na ocasião anterior, investigadores apontaram risco de evasão do país. A defesa de Vorcaro sustentou que a viagem teria como finalidade negociações com investidores árabes para a venda do banco. Agora, a repetição do roteiro por um parente próximo reacendeu a atenção dos investigadores para movimentações internacionais associadas aos investigados.
Zettel foi liberado ainda pela manhã. Sua assessoria não se manifestou até a publicação desta reportagem.
Alcance nacional da nova fase
A segunda fase da Operação Compliance Zero mobilizou agentes em São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, com foco em endereços ligados a Vorcaro, familiares e empresários. Além das buscas, houve apreensões de dinheiro em espécie, veículos de luxo, relógios e uma arma de fogo.
As medidas foram autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal, com o inquérito sob relatoria do ministro Dias Toffoli, após deslocamento do caso da primeira instância. A PF afirma que o objetivo central é interromper a atuação da organização criminosa, assegurar a recuperação de ativos e consolidar provas sobre os mecanismos utilizados para inflar artificialmente o patrimônio do banco.
O núcleo da investigação: carteiras falsas e fundos suspeitos
No centro da apuração está a suspeita de que o Banco Master criou carteiras falsas de crédito, especialmente consignado, para inflar balanços e viabilizar a venda da instituição ao BRB (Banco de Brasília). O Banco Central identificou seis fundos de investimento considerados suspeitos de participação no esquema.
Investigadores apontam que ativos de baixo valor — incluindo certificados de ações do extinto Besc (Banco do Estado de Santa Catarina) — teriam sido superavaliados por fundos ligados à gestora Reag, permitindo transferências internas e desvios para pessoas interpostas. A PF também apura se houve pressão política para destravar a negociação com o BRB.
Perfil e vínculos de Fabiano Zettel
Casado com Natália Vorcaro, irmã do banqueiro, Zettel é pastor da Igreja Lagoinha e empresário com atuação no setor de bem-estar e consumo. É fundador e CEO da Moriah Asset, fundo de private equity com participações em marcas como Oakberry, Les Cinq, Desinchá e Super Nutrition, além de negócios do Grupo Frutaria.
Embora não figure como gestor do Banco Master, Zettel atuou em empreendimentos relacionados a Vorcaro. Ele foi diretor da Super Empreendimentos, empresa que adquiriu, em 2024, uma residência de R$ 36 milhões em Brasília, usada como hub de encontros políticos do banqueiro. A Super também entrou no noticiário por transações imobiliárias que passaram a ser analisadas no contexto da investigação.
Levantamento com dados da Receita Federal indica compartilhamento de endereços comerciais entre empresas de Zettel e sociedades das quais Vorcaro é sócio, em Belo Horizonte, o que reforça o interesse dos investigadores em mapear interconexões societárias.
Doações eleitorais e exposição pública
Em 2022, Zettel foi um dos maiores doadores individuais das eleições, com R$ 5 milhões destinados principalmente às campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, dentro dos limites legais. O volume e a centralidade dessas doações ampliaram sua exposição pública, agora reavaliada à luz das investigações.
Liquidação do Banco Master e impacto sistêmico
Horas após a prisão de Vorcaro, o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master, alegando grave crise de liquidez e violações às normas do Sistema Financeiro Nacional. A medida resultará no maior resgate da história do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), estimado em R$ 41 bilhões para cerca de 1,6 milhão de credores, sem risco sistêmico, segundo o BC.
A tentativa de venda do banco a um consórcio liderado pela Fictor Holding Financeira, com aporte prometido de R$ 3 bilhões, passou a ser vista pelos investigadores como estratégia para evitar a liquidação e possivelmente facilitar a fuga do controlador.
Desdobramentos institucionais e frentes paralelas
O caso também alcançou o Tribunal de Contas da União, que abriu apuração sobre a conduta do Banco Central na liquidação, e gerou ataques coordenados nas redes sociais contra reguladores e investigadores. Ao menos 46 perfis foram identificados difundindo conteúdos enviesados, segundo apuração jornalística.
A PF indica que o inquérito principal — focado na compra e revenda de carteiras atribuídas à empresa Tirreno e na negociação com o BRB — pode ser concluído rapidamente, após depoimentos previstos para o fim de janeiro e início de fevereiro. Outras linhas, como conexões políticas e crédito consignado, podem avançar em etapas posteriores.
Alcance, riscos e tensões
A prisão temporária de Fabiano Zettel, ainda que breve, amplia o perímetro da investigação ao redor do Banco Master e reforça a hipótese de movimentações internacionais associadas aos investigados. A repetição do destino — Dubai — em tentativas de viagem de personagens centrais do caso tende a endurecer a leitura das autoridades sobre risco de evasão e ocultação de ativos.
Ao mesmo tempo, o caso expõe tensões institucionais: a liquidação do banco, o papel do regulador, a judicialização no STF e a pressão política em torno do BRB. A robustez das provas mencionadas pela PF contrasta com lacunas públicas sobre a extensão das responsabilidades individuais fora do núcleo do banco, o que mantém o debate aberto.
Por fim, o impacto sobre o FGC e a confiança no mercado reforça a necessidade de respostas céleres e transparentes, tanto para responsabilização penal quanto para a recomposição da credibilidade regulatória.
*Com informações da Agência Brasil, O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Veja e Metrópoles.











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