Ameaças tarifárias do presidente Donald Trump ligadas à Groenlândia reacendem temor de nova guerra comercial e tensionam alianças ocidentais

As ameaças de tarifas comerciais anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra países europeus — condicionadas à aceitação de um acordo para que Washington adquira a Groenlândia — provocaram queda nas bolsas, pressão sobre o dólar e reacenderam temores de uma nova escalada de guerra comercial em 2026. A iniciativa também ampliou tensões diplomáticas dentro da OTAN e levou a União Europeia a avaliar medidas de retaliação inéditas.

As declarações de Trump, feitas no fim de semana, tiveram impacto imediato nos mercados globais. Ações europeias recuaram mais de 1%, enquanto futuros de Wall Street indicaram abertura em baixa após o feriado nos Estados Unidos. O movimento refletiu receios de que o ciclo de tensões comerciais de 2025 possa se repetir.

No mercado cambial, o dólar perdeu força, comportamento incomum em momentos de incerteza, sinalizando que a moeda norte-americana também entrou no radar das ameaças políticas. Em contrapartida, euro, libra esterlina e moedas escandinavas se valorizaram, enquanto o franco suíço, tradicional ativo de proteção, registrou a maior alta diária em um mês frente ao dólar.

Apesar da reação, analistas observam que os movimentos permanecem moderados quando comparados à forte desvalorização do dólar após o chamado “Dia da Libertação”, em abril de 2025. A leitura predominante é de que investidores ainda apostam em desescalada, padrão já observado em episódios anteriores envolvendo Trump.

Tarifas progressivas e incerteza jurídica nos EUA

Trump afirmou que pretende iniciar tarifas de 10% a partir de 1º de fevereiro, elevando-as para 25% em 1º de junho, caso não haja acordo sobre a Groenlândia. A medida alcançaria Dinamarca, Suécia, França, Alemanha, Holanda, Finlândia, além de Reino Unido e Noruega.

O cenário é agravado por uma decisão pendente da Suprema Corte dos EUA sobre a legalidade das tarifas impostas unilateralmente pelo governo, o que adiciona incerteza jurídica ao ambiente econômico. Ao mesmo tempo, permanece indefinida a resposta coordenada das capitais europeias.

Europa avalia retaliação e instrumento anti-coerção

A União Europeia estuda duas frentes de reação. A primeira envolve tarifas sobre até US$ 108 bilhões em importações norte-americanas, que poderiam entrar em vigor automaticamente em fevereiro, após o término de um período de suspensão.

A segunda opção é o Instrumento Anti-Coerção (ACI), mecanismo ainda não utilizado, que permitiria restringir acesso de empresas dos EUA a licitações públicas, investimentos, serviços financeiros e comércio de serviços, área em que Washington mantém superávit com o bloco, incluindo serviços digitais.

Autoridades europeias afirmam manter diálogo “em todos os níveis”, mas admitem que o uso do ACI não está descartado, o que elevaria significativamente o grau de confronto institucional entre os aliados históricos.

Pressão sobre investidores e o debate do “Vender a América”

As ameaças também reabriram discussões sobre a estratégia conhecida como “Sell America”, adotada por alguns investidores após as tarifas de 2025. Embora o mercado financeiro dos EUA — com destaque para os US$ 30 trilhões em títulos do Tesouro — dificulte uma retirada abrupta de capital, analistas lembram que os países europeus detêm cerca de US$ 8 trilhões em ações e títulos americanos, quase o dobro do restante do mundo combinado.

Bancos apontam que a diversificação gradual de portfólios voltou a ganhar força em 2026, especialmente diante do fato de que 93% dos mercados globais superaram o desempenho das bolsas dos EUA no início do ano. Ainda assim, não há sinais de uma saída desordenada de capitais.

Groenlândia no centro da crise geopolítica

No plano político, Trump elevou o tom ao associar sua iniciativa sobre a Groenlândia ao não recebimento do Prêmio Nobel da Paz, concedido em 2025 à líder venezuelana Maria Corina Machado. Em mensagens divulgadas pelo governo norueguês, o presidente afirmou que não se sentiria mais obrigado a “pensar puramente na paz”.

O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, reagiu afirmando que o território deve decidir seu próprio destino, enquanto o chanceler dinamarquês Lars Lokke Rasmussen rejeitou qualquer negociação envolvendo população e soberania.

A presença de tropas dinamarquesas na ilha, como parte de exercícios militares da OTAN, foi minimizada por Trump, mas reforçou o simbolismo da disputa em uma região estratégica do Ártico.

Rússia observa fissuras no Ocidente

A crise também foi acompanhada de perto por Rússia, cujos dirigentes reagiram com ironia à divisão entre Estados Unidos e Europa. O Kremlin avaliou que Trump “entraria para a história” caso assumisse o controle da Groenlândia, enquanto comentaristas russos destacaram o enfraquecimento da coesão transatlântica.

Apesar do tom jocoso, analistas em Moscou admitem preocupação com os impactos estratégicos no Ártico, região de interesse direto da Rússia, e com a imprevisibilidade da política externa norte-americana.

Davos como palco de tentativa de contenção

A escalada ocorre às vésperas do Fórum Econômico Mundial, em Davos, onde Trump deve se encontrar com líderes europeus, incluindo o primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Stoere, e o chanceler alemão Friedrich Merz. Ambos defendem diálogo, mas admitem responder caso tarifas consideradas “irracionais” sejam impostas.

*Com informações da Agência Reuters.


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