A operação militar dos Estados Unidos que resultou na prisão de Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, inaugura uma fase de maior ingerência de Washington na América Latina e pode se estender às eleições de 2026 em países estratégicos, como o Brasil. A avaliação é do historiador Erick Langer, professor da Universidade de Georgetown, que, em entrevista à BBC Brasil, vê na Venezuela o teste inicial de uma estratégia voltada à exploração do petróleo e ao redesenho de esferas de influência no hemisfério. Para o especialista, eventual interferência no pleito brasileiro tende a fortalecer o nacionalismo e prejudicar a direita, ao invés de favorecê-la.
Venezuela como laboratório geopolítico
Segundo Langer, a retirada de Maduro não foi acompanhada de um plano consistente de restauração democrática. O chavismo permanece no poder, agora sob liderança interina de Delcy Rodríguez, com respaldo tácito de Washington. Para o historiador, a prioridade norte-americana não é a transição política, mas a transformação da Venezuela em uma colônia econômica, centrada no fornecimento de petróleo a empresas dos EUA.
O especialista sustenta que acordos com a cúpula chavista — incluindo figuras como Diosdado Cabello — teriam viabilizado a captura de Maduro, em detrimento de uma alternativa com maior legitimidade popular, como María Corina Machado. Essa escolha, avalia, decorre da maior capacidade de barganha de líderes dependentes do apoio externo.
Langer afirma que o discurso de Trump sobre “direitos” ao petróleo venezuelano carece de base histórica, lembrando que a nacionalização do setor ocorreu em 1976 e foi aprofundada nos anos 2000, com contratos posteriormente contestados por empresas estrangeiras. “O petróleo continua sendo da Venezuela; o que existe são disputas contratuais”, observa.
Colônia econômica e continuidade do chavismo
Na leitura do professor, não importa a Washington o regime vigente, desde que o fluxo de petróleo seja assegurado. A ausência de presença militar direta, prometida por Trump, indicaria a intenção de governar indiretamente, utilizando estruturas chavistas já existentes.
Esse arranjo, contudo, seria insustentável no médio prazo, diante do desgaste social e da urbanização venezuelana. Langer avalia que a confusão interna persiste e que apenas mudanças cosméticas ocorreram até agora, com a saída de Maduro do território e sua condução aos Estados Unidos.
Pressões regionais: Cuba, México e Colômbia
O movimento na Venezuela, prossegue o historiador, reverbera em toda a região. Cuba tende a sofrer maior estrangulamento econômico, com pressão sobre o México para interromper o envio de petróleo. A Colômbia, por sua vez, representaria um cenário de alto risco para qualquer tentativa de desestabilização, dada sua história de conflito interno e a legitimidade eleitoral do governo.
Para Langer, a diferença central está no respaldo popular: fora Nicarágua e Cuba, os governos latino-americanos foram eleitos democraticamente, o que eleva o custo político e social de intervenções.
Brasil como contrapeso estratégico
O Brasil aparece como ator-chave. Langer afirma que, desde os governos Lula e Obama, Brasília assumiu protagonismo regional, papel hoje contestado por Washington. Ainda assim, o peso econômico, territorial e diplomático brasileiro o torna o único país capaz de impor limites à agenda de Trump no hemisfério.
A postura cautelosa de Lula diante da crise venezuelana é vista como ativo político, capaz de conter radicalizações e preservar canais diplomáticos mesmo após tensões comerciais recentes.
Eleições de 2026 e o efeito bumerangue
Questionado sobre o pleito brasileiro, Langer é categórico: Trump tentará influenciar. O efeito, porém, tende a ser inverso ao desejado. “A interferência externa alimenta o nacionalismo e se transforma em arma política contra a direita”, avalia.
O historiador aponta que, em contextos como o brasileiro, a percepção de ingerência estrangeira costuma fortalecer forças políticas que se apresentam como defensoras da soberania, especialmente quando o governo adota postura moderada e institucional.
China e o novo desenho global
Por fim, Langer insere a crise venezuelana em um redesenho geopolítico mais amplo, envolvendo China e Rússia. A China, principal parceira comercial de vários países latino-americanos, tem investimentos relevantes na Venezuela. A disputa pelo petróleo coloca em teste a relação sino-americana e pode abrir espaço para barganhas estratégicas em outras regiões sensíveis.
Intervenção, soberania e o risco de retrocesso regional
A avaliação de Erick Langer aponta para um retorno a práticas intervencionistas que marcaram a política externa dos EUA no século XX, agora adaptadas a um cenário multipolar. A Venezuela surge como experimento inicial de uma estratégia que privilegia recursos naturais e alianças pragmáticas, em detrimento de processos democráticos.
No Brasil, a leitura é particularmente relevante. A história política nacional demonstra que ingerências externas tendem a produzir efeitos contraproducentes, reforçando discursos soberanistas e ampliando resistências internas. Caso se confirme, a tentativa de influência de Trump pode reorganizar o tabuleiro eleitoral e redefinir alianças.
Persistem, contudo, incertezas estruturais: a reação chinesa, a estabilidade dos acordos na Venezuela e a capacidade dos países latino-americanos de coordenar respostas diplomáticas. O desfecho indicará se o continente assistirá a um ciclo de maior autonomia — ou a um novo período de tutelas disfarçadas.
Principais declarações de Erick Langer
1) Estratégia dos Estados Unidos na Venezuela
- A retirada de Nicolás Maduro não teve como objetivo central a restauração da democracia.
- Donald Trump busca transformar a Venezuela em uma colônia econômica, com foco na exploração do petróleo por empresas norte-americanas.
- Para Washington, o regime político é secundário, desde que haja obediência e fornecimento de petróleo.
- O chavismo pode continuar no poder sob outra forma, mantendo estruturas autoritárias e redes de corrupção.
2) Papel do petróleo e da dependência econômica
- O petróleo continua sendo propriedade do povo venezuelano, não dos Estados Unidos.
- As disputas envolvem contratos e compensações, não “roubo” de petróleo, como alegado por Trump.
- A estratégia americana é tornar a Venezuela economicamente dependente dos EUA por meio do setor energético.
- Uma democracia plena não interessa a Washington porque implicaria votação popular sobre o destino do petróleo.
3) Acordos internos no chavismo e queda de Maduro
- A captura de Maduro só foi possível com apoio de setores da cúpula chavista.
- Delcy Rodríguez e Diosdado Cabello teriam traído Maduro para preservar o poder.
- A recompensa financeira oferecida pelos EUA não foi o fator decisivo; o objetivo foi manter controle político.
- O acordo implícito excluiu deliberadamente a ascensão da oposição ao poder.
4) Exclusão de María Corina Machado
- María Corina Machado não foi apoiada pelos EUA por ser menos manipulável.
- O apoio popular torna sua liderança mais autônoma e menos submissa a interesses externos.
- Washington prefere líderes dependentes política e economicamente, mesmo sem legitimidade eleitoral.
5) Continuidade da instabilidade venezuelana
- A saída de Maduro não alterou substancialmente o poder interno.
- As Forças Armadas seguem operando com arranjos históricos de corrupção.
- A população venezuelana permanece confusa, insegura e sem direção política clara.
- Um acordo entre EUA e chavistas não é sustentável no longo prazo.
6) América Latina sob maior ingerência
- Os Estados Unidos passam a ser vistos como inimigo regional, o que altera o equilíbrio político.
- Intervenções diretas são mais difíceis em países com governos eleitos e respaldo popular.
- A Colômbia seria um caso de alto risco, com potencial de caos e conflito armado.
- Cuba deve enfrentar estrangulamento econômico ainda maior, sem intervenção militar direta.
7) Pressão sobre o México e Cuba
- Washington deve pressionar o México para interromper o envio de petróleo a Cuba.
- O objetivo é agravar a crise econômica cubana e enfraquecer o regime comunista.
- A resistência cubana seria muito superior à venezuelana em caso de confronto direto.
8) Visão geopolítica de Trump
- Trump opera com lógica de esferas de influência, semelhante à doutrina Monroe.
- A ideia central é: EUA dominam o hemisfério americano, enquanto outras potências ficam com suas regiões.
- Trata-se de um rompimento com o equilíbrio pós-Guerra Fria.
9) Papel do Brasil no cenário regional
- O Brasil é o único país grande o suficiente para impor limites a Trump na América Latina.
- Desde os governos Lula e Obama, o Brasil assumiu papel de liderança regional, hoje contestado.
- Mesmo com tensões recentes, o Brasil segue como contrapeso estratégico às investidas dos EUA.
10) Eleições de 2026 e interferência externa
- Trump tentará interferir em eleições na América Latina, inclusive no Brasil.
- No caso brasileiro, essa interferência não favorecerá a direita.
- A ingerência externa tende a fortalecer o nacionalismo e beneficiar forças políticas que defendem soberania.
- A postura moderada de Luiz Inácio Lula da Silva é vista como vantagem política nesse contexto.
11) China e o novo tabuleiro global
- A China é hoje o principal parceiro econômico de muitos países latino-americanos.
- Pequim atua de forma econômica e comercial, não militar.
- A Venezuela é um teste crítico, devido aos investimentos chineses no país.
- O conflito pode redefinir relações entre EUA e China em escala global.
12) Perspectiva histórica e limites da “colônia”
- Comparações com o século XIX são limitadas: a Venezuela atual é urbana, complexa e politizada.
- A imposição de uma colônia econômica é muito mais difícil hoje.
- A tendência, no médio prazo, é a pressão por novas eleições e rearranjos institucionais.
*Com informações da BBC Brasil.











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