Em uma escalada retórica e diplomática sem precedentes desde o fim da Guerra Fria, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou a ameaçar Colômbia, México, Cuba, Irã e a Groenlândia nos dias seguintes à operação militar que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro. As declarações, feitas em entrevistas e pronunciamentos oficiais, ampliaram o temor de novas intervenções militares, suscitaram reações duras de governos aliados e reacenderam o debate sobre os limites do uso da força, a soberania nacional e o direito internacional.
A Venezuela como ponto de inflexão
A ofensiva contra a Venezuela marcou um divisor de águas na política externa norte-americana. Após a captura de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, Trump afirmou que não haverá novas eleições no país no curto prazo, sustentando que o ambiente político e institucional venezuelano não permitiria um pleito minimamente funcional. Segundo o presidente, a prioridade seria a reconstrução da infraestrutura, sobretudo no setor energético, com eventual participação de empresas petrolíferas norte-americanas, cujos investimentos poderiam ser reembolsados posteriormente.
Trump insistiu que os Estados Unidos “não estão em guerra com a Venezuela”, mas contra o narcotráfico e governos que, segundo ele, exportariam criminalidade para o território norte-americano — alegações recorrentes em seu discurso, reiteradas sem apresentação de provas públicas. Ao mesmo tempo, deixou claro que o comando final da operação e da estratégia política é exercido diretamente por ele, indicando um núcleo restrito de autoridades para supervisionar a transição no país.
A Colômbia no centro da nova tensão regional
A reação mais contundente ocorreu em relação à Colômbia. Trump dirigiu ataques pessoais ao presidente colombiano Gustavo Petro, qualificando-o como “doente” e associando seu governo à produção e ao tráfico de cocaína. Questionado sobre a possibilidade de uma ação militar contra Bogotá, afirmou que a ideia “parecia boa”.
Petro respondeu publicamente, rejeitando as acusações e afirmando que defenderá a soberania colombiana, inclusive com o uso da força, caso as ameaças se concretizem. O episódio elevou o nível de tensão entre dois países historicamente aliados e desestabilizou o equilíbrio político da região andina, já pressionada por fluxos migratórios, narcotráfico e disputas ideológicas.
México e Cuba: acusações e advertências
O México também foi alvo direto. Trump declarou que o país não estaria fazendo o suficiente para conter os cartéis de drogas, afirmando que Washington teria de “fazer alguma coisa” diante da entrada de substâncias ilícitas nos Estados Unidos. Ao comentar a atuação da presidente mexicana, disse tratar-se de “uma boa mulher”, mas alegou, sem provas, que os cartéis estariam administrando o país.
Cuba, aliada histórica da Venezuela, foi citada como um caso distinto. Trump afirmou que uma intervenção militar na ilha provavelmente não seria necessária, por considerar que o regime estaria “à beira do colapso”. Ainda assim, autoridades norte-americanas indicaram que Havana deve ser levada a sério como foco de preocupação estratégica, sobretudo diante de seu suposto envolvimento na proteção a Maduro.
Groenlândia e o desafio ao direito internacional
A retórica expansionista alcançou também o Ártico. Trump voltou a defender a anexação da Groenlândia, território semiautônomo da Dinamarca, alegando que a região é essencial para a segurança nacional dos Estados Unidos e estratégica pela abundância de minerais críticos.
A reação foi imediata. A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, rejeitou categoricamente a proposta, afirmando que não há base legal para qualquer anexação e que a Groenlândia está protegida pela Otan. Autoridades groenlandesas classificaram a ideia como “fantasia”, reiterando a disposição ao diálogo apenas pelos canais diplomáticos e dentro do direito internacional.
Irã e o pano de fundo geopolítico
Embora menos detalhadas, as menções ao Irã reforçaram a percepção de que Washington reorganiza suas prioridades estratégicas após a ação na Venezuela. A inclusão de Teerã no rol de países sob advertência sugere uma ampliação do escopo de confrontação, conectando América Latina, Oriente Médio e Ártico em uma mesma lógica de pressão política e militar.
Escalada retórica e riscos sistêmicos
A sequência de declarações de Trump indica uma mudança deliberada de patamar na política externa dos Estados Unidos, com a Venezuela funcionando como precedente operacional e simbólico. Ao combinar ação militar direta, retórica agressiva e questionamentos abertos à soberania de outros países, Washington assume riscos elevados de isolamento diplomático e de instabilidade regional prolongada.
Há, ainda, contradições evidentes entre o discurso de que os EUA não estariam “em guerra” e a disposição explícita de considerar novas operações militares. A ausência de provas públicas para acusações graves — como o envolvimento direto de governos com o narcotráfico — fragiliza a narrativa oficial e amplia o espaço para contestação internacional.
Do ponto de vista institucional, a concentração decisória declarada pelo próprio presidente e a relativização de normas multilaterais pressionam o sistema internacional baseado em regras, abrindo margem para respostas assimétricas, reações em cadeia e disputas que extrapolam os países diretamente citados.




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