O Banco Central do Brasil instaurou uma investigação interna sigilosa para apurar eventuais falhas nos processos de fiscalização e de liquidação do Banco Master, instituição controlada pelo empresário Daniel Vorcaro. A sindicância foi determinada pelo presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo, no fim de 2025, e ocorre em paralelo a investigações da Polícia Federal e a apurações em curso no Supremo Tribunal Federal sobre um conjunto de operações financeiras consideradas suspeitas.
A iniciativa do Banco Central busca reconstruir, de forma técnica e institucional, a sequência de decisões que antecederam a liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada em 18 de novembro de 2025. Na ocasião, a autoridade monetária encerrou as atividades da instituição, afastou seus administradores e determinou o bloqueio de bens para pagamento de credores, no mesmo dia em que a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero, destinada a apurar indícios de fraudes estimadas em R$ 12,2 bilhões.
Investigação interna e mudanças no comando da supervisão
No contexto da sindicância, dois nomes centrais da estrutura de fiscalização do Banco Central deixaram seus cargos. Paulo Sérgio Neves de Souza, servidor de carreira e ex-diretor de Fiscalização, e Belline Santana, então chefe do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), entregaram suas funções. Segundo o BC, não há acusações formais contra os dois, e a autarquia sustenta que a alternância em cargos comissionados é prática recorrente na administração pública.
Souza foi o primeiro a se desligar. Ele havia autorizado, anos antes, a aquisição do Banco Máxima por Daniel Vorcaro, operação que deu origem ao Banco Master. À época da crise, atuava como chefe-adjunto do Desup e acompanhava indicadores de solidez e estabilidade do sistema financeiro. Belline Santana, por sua vez, era o responsável direto pela supervisão bancária e chegou a ser cogitado para assumir a diretoria de Fiscalização antes da nomeação de Ailton de Aquino Santos.
Belline assinou diversos ofícios encaminhados ao Ministério Público Federal relacionados ao Banco Master. Em um desses documentos, posteriormente citado pela defesa de Vorcaro, o BC informou que uma operação suspeita de compra de carteiras fictícias de crédito, realizada no fim de 2024, havia sido desfeita no início de 2025. Em outro trecho, a autoridade monetária declarou não ter identificado irregularidades em determinadas operações de crédito consignado originadas pelo próprio banco.
Modelo de negócios agressivo e alerta tardio
O Banco Master experimentou um crescimento acelerado ao captar recursos por meio de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com remuneração muito superior à média do mercado. Enquanto instituições tradicionais ofereciam rendimentos próximos a 98% do CDI, o Master passou a prometer retornos de até 140% do CDI, estratégia que atraiu investidores, mas elevou significativamente os riscos da operação.
Com o esgotamento desse modelo e a dificuldade crescente para honrar compromissos, o banco passou a ser monitorado mais de perto pelo Banco Central a partir de 2024. Nesse período, Vorcaro negociou a venda da instituição ao Banco de Brasília (BRB), que já vinha prestando socorro financeiro ao Master por meio da compra de carteiras de crédito.
A crise ganhou dimensão pública quando o Banco Central decidiu pela liquidação do banco e a Polícia Federal revelou indícios de que parte das carteiras de crédito vendidas ao BRB não possuía lastro real. Tanto o Banco Master quanto o BRB negam irregularidades e afirmam que ativos questionados foram posteriormente substituídos.
Créditos inexistentes e depoimentos à Polícia Federal
Em depoimento prestado à Polícia Federal em 30 de dezembro de 2025, no âmbito de audiência realizada no STF, Ailton de Aquino Santos afirmou que o Banco Central chegou à “certeza” de que créditos vendidos pelo Banco Master ao BRB eram inexistentes. Segundo ele, duas empresas — Tirreno e Cartos — não conseguiram comprovar a origem dos créditos negociados.
Aquino relatou que, após uma reunião com representante das empresas, os valores apresentados variavam de forma inconsistente, culminando na alegação de geração de R$ 6,2 bilhões em créditos, o que, segundo o diretor, seria tecnicamente impossível. O Banco Central também não identificou fluxos financeiros relevantes da Tirreno em seus sistemas, como transferências via TED, Pix ou operações de câmbio.
O diretor destacou ainda que recomendou o voto pela liquidação do Banco Master à diretoria colegiada do BC e negou ter sofrido qualquer tipo de pressão externa durante o processo decisório. “Não recebi nenhuma pressão, de autoridades da República, para liquidar ou não liquidar o banco”, afirmou em depoimento.
Relação com a Reag DTVM e operações em cadeia
Outra frente de investigação envolve a relação entre o Banco Master e a Reag DTVM, gestora de recursos liquidada em janeiro de 2026. Apurações conjuntas da Polícia Federal e do Banco Central apontaram indícios de um esquema no qual empréstimos concedidos pelo Master a empresas eram utilizados para inflar artificialmente o desempenho de fundos administrados pela Reag.
O caso mais emblemático envolve um empréstimo de R$ 459 milhões à Brain Realty Consultoria e Participações Imobiliárias. Os recursos foram rapidamente direcionados a fundos ligados à Reag e, em poucas horas, circularam por diferentes veículos de investimento até retornarem ao sistema financeiro em aplicações vinculadas ao próprio Banco Master. Um desses fundos chegou a reavaliar ativos de baixa liquidez em R$ 10,8 bilhões, registrando uma rentabilidade de mais de 10 milhões por cento em 2024, número considerado incompatível com padrões de mercado.
Master e Reag negam qualquer irregularidade e afirmam que todas as operações seguiram normas vigentes.
*Com informações dos jornais O Globo, Folha de S.Paulo e Estadão, Revista Veja, site Metrópoles e Agência Brasil.











Deixe um comentário