Brasil intensifica cerco ao crime organizado com foco na descapitalização de facções e repressão em fronteiras

Em 2025, o Brasil intensificou o combate ao crime organizado com foco na descapitalização financeira, repressão em fronteiras e operações integradas. A PF e a PRF apreenderam bilhões em bens, drogas e ativos, enquanto o governo ampliou investimentos em segurança pública e sistema penitenciário. Operações nacionais e programas estruturantes reforçam a estratégia de enfraquecer economicamente facções e ampliar a presença do Estado em áreas vulneráveis.

O Governo do Brasil intensificou, ao longo de 2025, a estratégia de combate ao crime organizado com ênfase na descapitalização financeira de facções criminosas, na repressão qualificada em fronteiras e rodovias e na ampliação de investimentos em segurança pública. Somente no último ano, a Polícia Federal (PF) apreendeu mais de R$ 9,6 bilhões em dinheiro, bens e ativos vinculados a organizações criminosas, enquanto ações integradas da Polícia Rodoviária Federal (PRF) resultaram em milhares de prisões, apreensões recordes de drogas, armas e mercadorias ilícitas e prejuízos bilionários às estruturas econômicas do crime. Desde 2023, o montante retirado das facções supera R$ 20 bilhões, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).

Estratégia nacional e discurso presidencial

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o combate ao crime organizado alcançou “o andar de cima” das estruturas criminosas, ao atingir diretamente seus fluxos financeiros. A declaração foi feita durante o pronunciamento de Natal, no qual ressaltou que dinheiro e influência não impedirão o avanço das investigações.

Segundo o governo, o perfil do crime organizado passou por mudanças estruturais nos últimos anos, tornando-se transnacional, financeirizado e integrado a atividades econômicas formais, como bancos, fintechs, setor de combustíveis, saúde e política. Diante desse cenário, o MJSP adotou uma estratégia combinada, com ações locais, nacionais e cooperação internacional.

Durante a 67ª Cúpula do Mercosul, em dezembro, Lula destacou a criação de uma comissão regional contra o crime organizado transnacional e de um grupo de trabalho especializado em recuperação de ativos, com o objetivo de asfixiar financeiramente organizações ilícitas e preservar a soberania institucional dos países.

PF e PRF como pilares operacionais

A Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal foram apontadas como eixos centrais da política de segurança. Em 2025, a PF apreendeu valores e bens que incluem dinheiro em espécie, imóveis, aeronaves, embarcações, criptoativos, ouro e bloqueios bancários, refletindo o foco na descapitalização patrimonial.

No campo das drogas, os dados indicam mudança no padrão de apreensões. Houve redução na cocaína em relação a 2024, mas crescimento expressivo na maconha, com 677 mil quilos apreendidos, aumento de cerca de 40%. O número de prisões também apresentou elevação em comparação com 2022, mantendo tendência de crescimento nos últimos anos.

A PRF, por sua vez, intensificou a repressão em rodovias federais e regiões de fronteira. Em 2025, a corporação deteve mais de 38 mil pessoas, recuperou 7.394 veículos, apreendeu 1.057 armas de fogo, mais de 54 mil munições, além de volumes expressivos de drogas, cigarros, madeira ilegal e ouro extraído de forma ilícita.

Apreensões recordes e impacto econômico

As ações da PRF resultaram na apreensão de 717 toneladas de maconha, 42 toneladas de cocaína, milhões de maços de cigarro contrabandeados e mais de 213 quilos de ouro ilegal, gerando prejuízo estimado de R$ 152 milhões ao crime organizado apenas nesse segmento.

Outros dados consolidados incluem apreensões de agrotóxicos ilegais, resgate de animais silvestres, fuzis de uso restrito e milhares de detenções por crimes diversos. O conjunto das operações reforça a estratégia de atingir a base econômica das facções, reduzindo sua capacidade logística e operacional.

Ampliação de investimentos federais

Para sustentar a ofensiva, o governo ampliou os recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP) e do Fundo Penitenciário Nacional (Funpen). Entre 2022 e 2025, os repasses cresceram 39% em termos reais, alcançando R$ 3,33 bilhões no último ano.

O FNSP recebeu R$ 2,439 bilhões em 2025, enquanto o Funpen alcançou R$ 897,2 milhões, mais que dobrando em relação a 2022. Os recursos destinam-se à modernização tecnológica, aquisição de equipamentos, capacitação, logística, ampliação de vagas prisionais e melhoria da infraestrutura do sistema penitenciário.

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, afirmou que o crime organizado opera hoje no centro do poder econômico, com esquemas sofisticados de lavagem de dinheiro. Para ele, o enfrentamento exige planejamento, inteligência e cooperação internacional, além de ações multidisciplinares.

Operações integradas e gestão de ativos

Em 2025, a Diretoria de Gestão de Ativos e Justiça do MJSP realizou 502 leilões de bens apreendidos, alienando quase 11 mil ativos e arrecadando mais de R$ 104 milhões, recorde histórico. Imóveis ligados ao tráfico de drogas e outros crimes foram vendidos, revertendo recursos para políticas de segurança.

Entre as operações de destaque estão a Renorcrim, que mobilizou forças policiais em todo o país e causou prejuízo estimado de R$ 355 milhões ao crime organizado, e a FARO – Fronteiras e Divisas Alertas com Rastreio Olfativo, que atuou em 13 estados e gerou impacto financeiro superior a R$ 78 milhões.

Outras ofensivas, como Quasar, Tank e Carbono Oculto, focaram esquemas bilionários de lavagem de dinheiro e fraudes no setor de combustíveis, resultando no bloqueio de mais de R$ 3,2 bilhões e na identificação de movimentações ilícitas estimadas em R$ 140 bilhões.

Atuação legislativa e novas iniciativas

No Congresso Nacional, duas propostas consideradas estratégicas tiveram votação adiada para 2026: a PEC da Segurança Pública (PEC 18/2025), que busca reforçar a integração federativa e o papel da União, e o PL Antifacção (PL 5582/2025), voltado ao combate ao crime organizado e à lavagem de dinheiro.

Paralelamente, o MJSP lançou programas como o Projeto Captura, destinado à localização de criminosos de alta periculosidade, o Sistema Nacional de Inteligência para Enfrentamento ao Crime Organizado, e o Território Seguro, que combina ação policial e presença de serviços públicos em áreas dominadas por facções.

Participação social e qualificação do uso da força

Lewandowski ressaltou que a Constituição define a segurança pública como dever do Estado e responsabilidade de todos, defendendo maior participação social. Iniciativas como polícia comunitária, câmeras corporais, uso qualificado da força e integração de dados periciais buscam reduzir a letalidade policial, ampliar a transparência e fortalecer a produção de provas técnicas.

Programas específicos também foram direcionados à Amazônia Legal, com investimentos bilionários em tecnologia, logística e presença estatal, além de políticas voltadas à proteção de migrantes, refugiados e apátridas, integrando segurança e direitos humanos.

Segurança, finanças e Estado

A estratégia adotada pelo governo em 2025 sinaliza uma mudança de foco relevante no enfrentamento ao crime organizado, ao priorizar a descapitalização financeira e a cooperação interinstitucional. Ao atingir fluxos de recursos, bens e ativos, o Estado busca enfraquecer estruturas que historicamente se sustentaram mais pelo poder econômico do que pelo confronto armado direto.

Os dados indicam resultados expressivos, mas também expõem desafios estruturais. A sofisticação dos esquemas de lavagem de dinheiro, a internacionalização das facções e a dependência de aprovação legislativa para reformas mais profundas revelam tensões institucionais que podem limitar a eficácia de longo prazo.

Além disso, a ampliação do papel da União no combate à criminalidade, defendida pelo Executivo, reabre o debate federativo sobre competências, coordenação e responsabilidades. O sucesso da estratégia dependerá da continuidade dos investimentos, da integração entre os entes federados e da capacidade de transformar apreensões pontuais em redução sustentável da violência e do poder das facções.


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