A liquidação do Banco Master e a rejeição da venda do banco ao BRB (Banco de Brasília) passaram a ser acompanhadas por uma ofensiva digital coordenada, com ataques simultâneos ao Banco Central (BC) e a investigadores ligados ao caso, segundo apuração publicada em 06/01/2026. O movimento ganhou força nos últimos dias, em paralelo a uma disputa jurídica no STF (Supremo Tribunal Federal) e no TCU (Tribunal de Contas da União) envolvendo advogados do Master e atores que defendem a revisão de atos do regulador. O episódio também expõe o uso crescente de campanhas massivas em redes sociais para pressionar autoridades técnicas e moldar a percepção pública sobre processos regulatórios.
Ofensiva nas redes e alvo em cadeia: dirigentes, familiares e área técnica do BC
A apuração identificou pelo menos 46 perfis de redes sociais publicando conteúdos com críticas à atuação do Banco Central e à condução do processo relacionado ao Master. O volume e a simultaneidade das postagens chamam atenção por ocorrerem em meio ao aumento de tensão institucional e à ampliação da visibilidade do caso, que envolve banco privado, banco público e discussão sobre os limites de atuação de órgãos de controle e do Judiciário.
Um aspecto destacado é o perfil dos influenciadores: parte relevante dos perfis teria origem em páginas de fofoca e entretenimento, sem histórico de cobertura econômica. Esse tipo de escolha costuma maximizar alcance e engajamento, mas também tende a reduzir precisão e contexto técnico, ampliando o risco de circulação de versões simplificadas ou informações enviesadas sobre decisões regulatórias complexas.
Entre os alvos citados estão o então diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC, Renato Gomes, além do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, familiares, e o diretor de Fiscalização, Aílton de Aquino Santos. As postagens também atingem banqueiros e associações que reagiram com notas públicas em defesa da decisão técnica de liquidar o Master.
Pressão prévia e escalada após o veto ao negócio com o BRB
A ofensiva digital não teria começado apenas após a liquidação. Segundo o relato, a prática já vinha sendo observada durante a análise, pelo Banco Central, da operação de venda envolvendo o Master e o BRB, com crescimento recente à medida que o caso avançou no STF e no TCU.
Um episódio descrito como símbolo da pressão foi a exposição de imagem de dirigente do BC em outdoors em Brasília antes do veto à compra. O resultado, segundo a apuração, foi o efeito inverso ao pretendido: a ação teria fortalecido o “espírito de corpo” no colegiado do Banco Central, que por unanimidade acatou o parecer técnico e vetou o negócio em setembro.
A mesma lógica de constrangimento público aparece em postagens que atribuem instabilidade ao mercado a decisões regulatórias, com críticas à suposta falta de previsibilidade. Dirigentes mencionados evitam comentar publicamente o conteúdo, enquanto interlocutores relatam avaliação de que os ataques não mereceriam validação institucional.
Agências de marketing, páginas milionárias e a disputa pela narrativa
Um ponto central do caso é a hipótese de postagens coordenadas por meio de estruturas de marketing digital que administram ou representam perfis de grande alcance. A apuração descreve empresas que operam redes de páginas e comercializam espaços para campanhas, viabilizando disseminação massiva de mensagens em curto período.
Entre exemplos citados aparece um perfil que publicou conteúdo sobre depoimentos prestados à Polícia Federal por Daniel Vorcaro (dono do Master) e pelo presidente do BRB. A agência associada ao perfil alegou que a postagem foi orgânica e sem remuneração, embora mantenha contrato de representação comercial com a página — modelo comum no mercado, que não elimina, por si só, a possibilidade de coordenação por terceiros.
Também foi mencionado o uso de textos oriundos de portais que mimetizam sites jornalísticos, com linguagem de manchete e aparência noticiosa, mas sem os mesmos padrões de transparência editorial, correção de erros e responsabilização pública. Parte do material teria explorado, por exemplo, uma acareação para sustentar que não haveria “fatos decisivos”, convertendo um recorte processual em argumento político contra o regulador.
Perfis gigantes e mensagens padronizadas
A apuração descreve postagens com trechos e estrutura semelhantes, sugerindo padronização textual. Um dos conteúdos destacados replicava a ideia de que “faltaram provas contundentes” em um confronto de cerca de 40 minutos, inferindo que, se existisse fraude relevante, ela teria necessariamente aparecido ali — raciocínio que, no campo investigativo e processual, não é regra e pode distorcer o entendimento do leitor sobre como evidências são produzidas e formalizadas.
Além disso, páginas com dezenas de milhões de seguidores e perfis “satélites” teriam operado em sincronia, ampliando o alcance e criando a sensação de consenso espontâneo. Em crises de reputação, esse efeito de “multidão” é parte do mecanismo de pressão: o objetivo prático não é provar, mas saturar.
Convites e “gerenciamento de crise”
Foi citado relato de abordagem a influenciadores para publicação de conteúdo favorável ao Master, com menção a um suposto projeto associado às iniciais do controlador do banco. Também aparece o testemunho de um vereador que diz ter recebido proposta para integrar campanha descrita como “gerenciamento de crise” para “um executivo grande”, com promessa de remuneração elevada e a indicação de uma “disputa política” contra “o sistema”.
Ainda que parte desses relatos dependa de apuração institucional para comprovação, o conjunto reforça o padrão: disputa não apenas jurídica, mas também informacional, com atores buscando alterar o ambiente de decisão por meio de pressão pública e erosão de confiança.
TCU, STF e limites institucionais: a controvérsia sobre revisar decisão técnica do regulador
Em paralelo à ofensiva digital, uma análise opinativa publicada no mesmo dia descreve a reação institucional ao caso como fora do padrão histórico desde o Plano Real, período em que o Banco Central teria conduzido liquidações para evitar contágio sistêmico. O ponto central é a defesa de que o TCU, por ser órgão auxiliar do Congresso voltado ao controle de legalidade de atos administrativos, não deveria revisar o mérito de decisões discricionárias técnicas de uma autoridade reguladora como o Banco Central.
A argumentação menciona precedentes do próprio TCU e do STF no sentido de deferência a decisões técnicas, com base na ideia de “capacidade institucional” e no risco de efeitos sistêmicos nocivos quando órgãos não especializados substituem o juízo técnico do regulador. Nesse enquadramento, a ruptura teria provocado estranhamento e levantado dúvidas sobre motivação e coerência institucional.
A mesma análise indica preocupação com decisões no STF — incluindo decretos de sigilo e medidas descritas como surpreendentes — e registra divergências com posicionamentos atribuídos à PGR (Procuradoria-Geral da República). O pano de fundo é a tensão clássica entre transparência, devido processo e estabilidade regulatória em crises financeiras.
Quando o “tribunal das redes” tenta substituir o processo regulatório
A escalada de ataques simultâneos ao Banco Central e a investigadores no caso Master é um sinal de alerta para o sistema institucional. O debate público é legítimo, mas o que se descreve aqui não é discussão aberta e plural: é campanha de pressão com aparência de espontaneidade, potencializada por perfis de entretenimento e por páginas de grande alcance. Em temas técnicos — liquidação bancária, fiscalização, risco sistêmico — esse método costuma produzir ruído, não esclarecimento.
O aspecto mais sensível é a convergência entre guerra jurídica e guerra informacional. Quando decisões técnicas passam a ser contestadas por meio de saturação digital, o risco não é apenas reputacional: é operacional. Autoridades reguladoras dependem de credibilidade para agir rapidamente em crises. Se a credibilidade vira refém de campanhas coordenadas, a conta tende a cair no colo do mercado, do crédito e, por fim, do contribuinte.
Também chama atenção a fricção entre instâncias: TCU, STF, BC e PGR aparecem no mesmo tabuleiro, com discursos e medidas que, segundo os relatos, nem sempre convergem com a jurisprudência e com práticas consolidadas. Em democracias maduras, a regra não é blindar autoridades, mas preservar procedimentos: investigação com evidências, responsabilização com rito, e transparência compatível com o interesse público. A alternativa — “punição” por trending topics e revisão técnica por pressão — é a estrada curta para a desordem institucional.
*Com informações do jornal Folha de S.Paulo.








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