Este artigo propõe uma distinção conceitual rigorosa entre carlismo e magalhismo como categorias analíticas autônomas para a compreensão da dinâmica do poder político na Bahia contemporânea. Sustenta-se que o carlismo corresponde a um fenômeno político de natureza personalista, estruturado em torno da liderança direta de Antônio Carlos Magalhães e encerrado como ciclo histórico com sua morte. O magalhismo, por sua vez, deve ser compreendido como a reconfiguração estrutural, familiar e institucional desse mesmo projeto de poder, ajustada às exigências formais da democracia representativa.
A análise dialoga com a tradição marxista, especialmente com as formulações de Karl Marx sobre a reprodução das relações de poder, bem como com o conceito gramsciano de hegemonia. Nessa chave interpretativa, o magalhismo é entendido como uma forma de continuidade histórica, mediada por novos dispositivos simbólicos, eleitorais e institucionais, por meio dos quais um núcleo dirigente busca preservar influência política em um ambiente estruturalmente alterado.
1. Introdução
Na literatura política brasileira, o termo carlismo é frequentemente empregado de maneira indistinta para designar tanto o período de liderança direta de Antônio Carlos Magalhães quanto as expressões posteriores do poder exercido por seu grupo político. Essa generalização, recorrente no jornalismo e em parte da produção acadêmica, compromete a precisão analítica ao obscurecer transformações históricas relevantes nas formas de organização, exercício e legitimação do poder.
Este artigo sustenta que carlismo e magalhismo devem ser tratados como categorias analíticas distintas, historicamente situadas e dotadas de racionalidades próprias. A distinção proposta não é meramente terminológica, mas de natureza teórica, histórica e estrutural. Trata-se de romper com leituras personalistas, memorialistas ou anacrônicas, ao interpretar o deslocamento de um modelo de dominação centrado no carisma pessoal, no mando direto e na hegemonia construída a partir do controle do aparelho estatal, para uma forma de poder familiar-institucional, mediada por partidos, eleições e regras formais da democracia representativa.
Essa inflexão torna-se ainda mais relevante porque o magalhismo passa a operar, já no século XXI, sob condições de oposição política permanente, em um ambiente institucional mais competitivo e menos permissivo ao mando personalista. A distinção analítica proposta permite compreender não apenas a persistência histórica de um projeto de poder, mas sobretudo suas metamorfoses estratégicas diante de mudanças estruturais no campo político baiano.
Nesse contexto, a ascensão de um novo polo dirigente a partir de 2006, associado ao lulismo e ao trabalhismo de base socialista, redefine profundamente as condições de reprodução das elites tradicionais na Bahia. O magalhismo emerge como resposta adaptativa a esse novo cenário, buscando preservar relevância política por meio de estratégias de institucionalização, reconfiguração discursiva e rearranjos eleitorais, já sem a centralidade carismática que caracterizou o carlismo em sua forma clássica.
2. O Carlismo como sistema político: a leitura teórica de Paulo Fábio Dantas Neto
A categoria teórica do Carlismo, desenvolvida por Paulo Fábio Dantas Neto, constitui uma das interpretações mais consistentes sobre a política baiana contemporânea. Longe de tratar o carlismo apenas como liderança pessoal ou domínio eleitoral circunstancial, o autor o define como um sistema político durável, dotado de racionalidade própria, mecanismos de reprodução e forte capacidade de adaptação histórica.
Segundo essa formulação, o carlismo articula poder político, controle institucional e mediação econômica, estruturando-se a partir da centralidade do Estado como distribuidor de recursos, cargos e favores. Trata-se de um modelo que combina práticas tradicionais do mando oligárquico com instrumentos modernos de administração pública, comunicação política e engenharia institucional, o que explica sua longevidade e resiliência.
Paulo Fábio Dantas Neto destaca que o carlismo não se sustenta apenas no carisma de suas lideranças, mas em uma rede organizada de alianças, no domínio estratégico da burocracia estatal e na capacidade de neutralizar adversários por meio de mecanismos legais, administrativos e políticos. O sistema opera pela construção de consensos seletivos e pela marginalização controlada da oposição, mantendo aparência de normalidade democrática.
Outro ponto central da categoria teórica é a distinção entre liderança individual e estrutura de poder. Ainda que associado historicamente a Antônio Carlos Magalhães, o carlismo, na leitura do autor, sobrevive à figura do líder, pois se ancora em práticas, valores e arranjos institucionais que se reproduzem no tempo, mesmo sob novas roupagens discursivas.
Em síntese, a contribuição teórica de Paulo Fábio Dantas Neto permite compreender o carlismo como um modelo sistêmico de dominação política regional, marcado pela fusão entre tradição e modernização conservadora, pela centralidade do Estado e pela capacidade de adaptação às mudanças do ambiente democrático, sem ruptura efetiva com suas bases históricas de poder.
A literatura política brasileira, tanto no jornalismo quanto em parcela relevante da produção acadêmica, tem recorrido de forma reiterada e indistinta ao termo carlismo para designar realidades políticas profundamente distintas no tempo. O conceito passou a ser utilizado como rótulo genérico para abarcar desde o período de liderança direta de Antônio Carlos Magalhães até as formas posteriores de atuação política de seu grupo familiar e de seus herdeiros eleitorais. Essa generalização, embora funcional no plano retórico e comunicacional, compromete gravemente a precisão analítica ao desconsiderar transformações estruturais decisivas na forma de organização, exercício, legitimação e reprodução do poder político na Bahia.
Este artigo sustenta que carlismo e magalhismo devem ser tratados como categorias analíticas distintas, historicamente situadas e dotadas de racionalidades próprias. A proposta não é meramente terminológica, mas teórica, histórica e estrutural. Trata-se de um marco de ruptura analítica com leituras personalistas, memorialistas ou anacrônicas, ao interpretar o deslocamento do poder da dominação carismática personalista e hegemonizante para uma forma familiar-institucional adaptada à democracia representativa, operando, já no século XXI, sob condições de oposição política permanente.
Essa distinção permite compreender não apenas a continuidade histórica de um projeto de poder, mas, sobretudo, suas metamorfoses estratégicas, especialmente diante da ascensão de um novo polo dirigente na Bahia: o lulismo e o trabalhismo de base socialista, que passam a estruturar o campo político estadual a partir de 2006, alterando de maneira profunda as condições de reprodução das elites tradicionais.
3. Carlismo, dominação carismática e hegemonia política
Do ponto de vista sociológico, o carlismo pode ser compreendido, à luz de Max Weber, como uma forma de dominação carismática, ainda que acoplada a extensões burocráticas. A legitimidade do poder derivava fundamentalmente da autoridade pessoal de Antônio Carlos Magalhães: sua capacidade de arbitrar conflitos, impor disciplina ao campo político, distribuir recompensas, aplicar sanções e ordenar o sistema de alianças regionais.
As instituições, nesse arranjo, não funcionavam como instâncias autônomas de deliberação, mas como prolongamentos operacionais do comando pessoal. A burocracia estatal, o sistema partidário, os meios de comunicação e as relações federativas eram instrumentalizados para reforçar a centralidade do líder e ampliar sua capacidade de intervenção direta.
Essa dominação carismática, ao se articular com o controle do aparelho estatal, produziu hegemonia política regional, no sentido formulado por Antonio Gramsci. O carlismo não apenas governava: ele dirigia o campo político baiano, delimitando agendas, definindo o horizonte do possível, moldando expectativas sociais e condicionando o comportamento de aliados e adversários. O controle do Executivo estadual, a influência sobre a representação federal, a capacidade de mediação junto ao governo central e o uso estratégico da mídia conferiam ao carlismo um poder estruturalmente verticalizado e disciplinador.
4. A construção simbólica da “eficiência” e o controle midiático
Um elemento decisivo para a longevidade simbólica do carlismo — e para sua posterior reciclagem no magalhismo — foi a construção deliberada da imagem de Antônio Carlos Magalhães como “gestor eficiente”, sustentada por um sistema midiático altamente concentrado e opressivo, direta ou indiretamente controlado por ele próprio. A literatura sobre comunicação política no Brasil descreve esse arranjo como uma forma de coronelismo eletrônico, no qual o poder político se retroalimenta do controle de concessões públicas, afiliadas regionais e linhas editoriais alinhadas.
Nesse ambiente, a propaganda permanente substituiu a auditoria pública. A narrativa de eficiência administrativa raramente foi confrontada com uma análise crítica e sistemática dos indicadores objetivos de desempenho governamental, que se mostraram historicamente negativos nas áreas de saúde, educação, segurança pública, habitação, saneamento básico e geração de emprego e renda. O consenso produzido era menos empírico do que afetivo, fundado na repetição, na supressão do contraditório e na naturalização da autoridade pessoal como sinônimo de competência administrativa.
O contraste entre propaganda e realidade é particularmente evidente em Salvador. A capital baiana apresenta, ainda hoje, uma estrutura urbana profundamente marcada pela precariedade: uma parcela expressiva de sua população vive em favelas e assentamentos informais, um processo de favelização que se consolidou precisamente ao longo das quatro décadas de predominância política carlista. Ainda que nenhuma dessas áreas carregue o sobrenome Magalhães, todas elas se expandiram sob a vigência de um modelo de poder que privilegiou controle político, visibilidade simbólica e grandes obras pontuais em detrimento de políticas públicas estruturantes e universais.
Essa miragem gerencial, produzida por controle narrativo e pela supressão sistemática da crítica, segue sendo mobilizada por sucessores e apoiadores no campo da memória política. Apoia-se em afetos artificialmente construídos e recordações seletivas, forjadas em um ambiente histórico marcado pela baixa criticidade da opinião pública brasileira, pela fragilidade da formação cívica e pela elevada concentração dos meios de comunicação — precisamente no mesmo período em que ACM exerceu seu comando hegemônico.
5. Carlismo como fenômeno personalista e ciclo histórico encerrado
O carlismo pode ser definido como um modelo de dominação política fortemente centrado na figura de Antônio Carlos Magalhães, caracterizado pela liderança carismática, pela centralização decisória e pelo controle vertical das alianças políticas. Trata-se de um poder dependente da presença direta do líder, de sua capacidade de mediação junto ao governo federal, do domínio sobe o Estado da Bahia, através do controle do governo estadual, e de sua autoridade pessoal com base da coerção e apelo midiático para organizar o campo político regional.
Do ponto de vista sociológico, o carlismo aproxima-se de formas clássicas de dominação pessoal, nas quais a legitimidade do poder está diretamente associada à figura do líder e à sua capacidade de distribuir recursos, impor disciplina e arbitrar conflitos. A estrutura política, nesse modelo, é secundária em relação à liderança individual.
A morte de Antônio Carlos Magalhães, em 2007, encerra esse ciclo histórico. Não apenas pela ausência física do líder, mas porque o tipo de poder exercido por ele era pouco transferível. O carlismo, enquanto fenômeno político, não possuía plena autonomia estrutural em relação à sua liderança fundadora.
6. Magalhismo como reconfiguração estrutural do poder
O conceito de magalhismo emerge da necessidade analítica de interpretar a continuidade do projeto político da família Magalhães para além do carisma pessoal e da liderança direta exercida por Antônio Carlos Magalhães. Diferentemente do carlismo, fenômeno fortemente associado à autoridade pessoal, ao mando verticalizado e ao controle direto do aparelho estatal, o magalhismo configura-se como uma forma institucionalizada de reprodução do capital político, adaptada às condições formais, eleitorais e simbólicas da democracia representativa contemporânea.
Essa transição não ocorreu de maneira abrupta, tampouco pode ser compreendida como um rearranjo automático posterior à morte de ACM. Ao contrário, foi conscientemente construída ainda em vida, quando o líder carlista buscou estruturar sua sucessão política por meio do filho Luís Eduardo Magalhães, então deputado federal em ascensão e virtual candidato ao governo da Bahia. A morte precoce de Luís Eduardo, em 1998, interrompeu esse projeto sucessório direto e impôs à família a necessidade de reorganizar os mecanismos de transmissão do capital político acumulado ao longo de décadas, deslocando o eixo da sucessão do carisma pessoal para a gestão do legado.
Nesse novo contexto, o protagonismo político foi transferido ao primogênito Antônio Carlos Peixoto de Magalhães Júnior, que assumiu o mandato de senador após a renúncia de ACM, em 2001, decorrente do escândalo da violação do painel eletrônico do Senado. ACM Júnior exerceu o mandato de forma interina até 2003 e retornou ao Senado em 2007, já após a morte do pai, permanecendo no cargo até 2015. Diferentemente de ACM, cuja trajetória foi marcada por ambição hegemônica, centralidade decisória e vocação para o confronto político direto, ACM Júnior jamais demonstrou inclinação para a construção de um projeto próprio de poder. Sua atuação caracterizou-se por um perfil discreto, institucionalmente contido e politicamente conservador, voltado essencialmente à preservação do patrimônio político familiar e à preparação de uma nova geração.
Essa função estratégica materializou-se na projeção de Antônio Carlos Peixoto de Magalhães Neto, o ACM Neto, como herdeiro político efetivo. Eleito deputado federal em 2002, pelo então Partido da Frente Liberal — posteriormente Democratas e, hoje, União Brasil —, ACM Neto iniciou sua trajetória nacional em um momento simbólico de inflexão histórica do sistema político brasileiro: a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República e a ascensão do Partido dos Trabalhadores ao centro do poder federal.
A chegada de Lula ao Planalto, acompanhada da nomeação de Jaques Wagner como ministro no primeiro governo petista, marcou o colapso do carlismo enquanto hegemonia estadual. Wagner, principal antagonista histórico do grupo Magalhães, consolidou-se como líder do novo ciclo político baiano, governando o Estado e tornando-se articulador central dos governos Lula e Dilma Rousseff. Sob sua influência direta, o PT conseguiu eleger dois sucessores no governo da Bahia: Rui Costa, em 2014, e Jerônimo Rodrigues, em 2022, encerrando definitivamente o ciclo do domínio direto da família Magalhães sobre o Executivo estadual.
É precisamente nesse cenário adverso que o magalhismo se afirma como estratégia de sobrevivência e adaptação. Impedido de exercer controle hegemônico sobre o Estado, o grupo reorganiza sua atuação a partir de mandatos eletivos, gestão municipal estratégica e controle de redes partidárias. A eleição de ACM Neto como prefeito de Salvador, em 2012, e sua reeleição em 2016, representaram o ponto de inflexão dessa reconfiguração. A capital baiana converteu-se no principal bastião institucional do magalhismo, funcionando simultaneamente como vitrine administrativa, plataforma eleitoral e centro de irradiação simbólica.
Mesmo após deixar o cargo, ACM Neto manteve influência decisiva sobre as duas gestões do atual prefeito Bruno Reis, consolidando um modelo de liderança indireta, compatível com as exigências formais da democracia representativa, mas ainda fortemente ancorado em relações pessoais, lealdades políticas e controle partidário.
Do ponto de vista analítico, o magalhismo caracteriza-se pela preservação de redes de poder, pela mobilização da memória política associada a ACM, pela manutenção de alianças regionais e pela capacidade de converter esse legado em capital eleitoral competitivo. Trata-se de um poder menos ostensivo e menos coercitivo, porém altamente adaptativo, que opera por meio de partidos, eleições, mandatos parlamentares, gestão municipal eficiente e estratégias discursivas ajustadas ao léxico democrático.
Essa transformação não representa uma ruptura com o passado, mas uma reorganização estrutural do poder. O conteúdo essencial — controle de redes, capital simbólico, herança política e capacidade de articulação — permanece intacto. O que se altera são as formas de exercício, agora ajustadas a um ambiente institucional mais plural, competitivo e regulado, no qual o mando direto cede lugar à influência estruturada e à mediação política permanente.
7. Lulismo, trabalhismo e oposição estrutural
A ascensão de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, e a consolidação do Partido dos Trabalhadores na Bahia, a partir de 2006, inauguram um novo ciclo hegemônico, ancorado no trabalhismo de base popular e socialista. A eleição de Jaques Wagner, seguida pelos governos de Rui Costa e Jerônimo Rodrigues, retira do grupo Magalhães o controle do Executivo estadual por sucessivos mandatos, rompendo a hegemonia histórica do carlismo.
É nesse contexto que o magalhismo se afirma como forma moderna de oposição, reorganizando sua atuação por meio de mandatos parlamentares, controle partidário, redes regionais e gestão municipal estratégica. A prefeitura de Salvador converte-se em vitrine administrativa e eixo central dessa reorganização, funcionando como plataforma eleitoral, centro de irradiação simbólica e instrumento de disputa política.
8. Fundamentos marxistas da distinção conceitual
A distinção entre carlismo e magalhismo dialoga diretamente com a tradição marxista. Em Karl Marx, especialmente na análise desenvolvida em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, encontra-se a noção de que as classes e frações dominantes são capazes de preservar relações de poder mesmo quando as formas políticas aparentes se transformam.
Marx demonstra que mudanças institucionais, discursivas ou pessoais não implicam, necessariamente, alteração das estruturas materiais de dominação. Aplicada ao caso baiano, essa formulação permite compreender o magalhismo como a continuidade estrutural de um projeto de poder sob nova aparência histórica.
9. Hegemonia e adaptação histórica em Antonio Gramsci
A contribuição de Antonio Gramsci é central para aprofundar essa interpretação. Para Gramsci, a hegemonia consiste na capacidade de um grupo dirigente manter sua posição não apenas pela coerção, mas pela direção moral e intelectual da sociedade, produzindo consensos e naturalizando hierarquias.
O magalhismo pode ser compreendido como uma forma de hegemonia regional. Ao abandonar a centralização autoritária explícita típica do carlismo, passa a operar por meio de mecanismos simbólicos, eleitorais e institucionais que garantem a reprodução do poder sob formas socialmente aceitáveis no regime democrático.
10. Patrimonialismo, coronelismo e adaptação institucional
À luz de Raymundo Faoro, o magalhismo pode ser compreendido como uma forma adaptativa do patrimonialismo brasileiro, agora operando em ambiente democrático e regulado. As instituições mudam, mas as elites buscam preservar posições por meio da ocupação estratégica do aparelho político e partidário, convertendo capital simbólico e redes históricas em competitividade eleitoral.
Já Victor Nunes Leal, ao analisar o coronelismo como sistema de reciprocidade entre chefias locais e poder central, oferece a chave para compreender a atualização desse mando. No magalhismo, a lógica da influência territorial não desaparece; ela se desloca da coerção direta para a gestão urbana, o controle partidário e a mediação institucional, sobretudo em grandes centros urbanos.
11. Considerações finais
A distinção conceitual entre carlismo e magalhismo não é meramente terminológica, mas analítica, histórica e estrutural. Ela permite compreender um fenômeno recorrente na política brasileira: o fato de que o desaparecimento de uma liderança personalista não implica, automaticamente, o colapso do projeto de poder que essa liderança encarnava.
O carlismo configura-se como um ciclo histórico específico, fortemente ancorado na figura de Antônio Carlos Magalhães, marcado pelo mando pessoal, pela centralização extrema das decisões, pela capacidade de coerção direta sobre instituições e pela articulação de redes clientelísticas sob comando unificado. Nesse sentido, seu encerramento ocorre com a morte de ACM, quando se esgota a possibilidade de reprodução daquele tipo particular de dominação política, fundada no carisma autoritário e no controle direto do aparelho estatal.
O magalhismo, por sua vez, não representa uma ruptura com esse legado, mas a sua reorganização estrutural em novas bases. Trata-se de uma adaptação estratégica às condições impostas pela democracia representativa, pelo pluralismo partidário e pela judicialização da política. O que antes se expressava como mando pessoal direto passa a operar como hegemonia mediada, sustentada por partidos, alianças eleitorais, capital simbólico acumulado e controle territorial indireto.
Persistem, nesse novo arranjo, elementos centrais do antigo carlismo: a centralidade familiar como eixo de organização do poder, a hierarquização rígida das relações políticas, a ocupação estratégica de espaços institucionais e o controle regional da representação política, sobretudo no interior do estado. A diferença fundamental está na forma, não no conteúdo. A coerção explícita cede lugar à influência organizada; o autoritarismo aberto é substituído por mecanismos de coordenação política compatíveis com o regime democrático.
Em termos analíticos, o magalhismo pode ser compreendido como a sobrevivência racionalizada do carlismo, isto é, sua tradução para um contexto no qual o poder já não se exerce de maneira despótica, mas por meio de mediações institucionais, eleições competitivas e pactos partidários. Não se trata, portanto, de um declínio linear, mas de uma metamorfose estratégica, típica de elites políticas capazes de se adaptar às transformações do sistema sem abdicar de seu núcleo material e simbólico de poder.
Essa interpretação dialoga diretamente com a tradição marxista clássica, especialmente com a noção de que as classes dominantes tendem a preservar sua posição histórica por meio da adaptação das formas de dominação às mudanças do modo de produção e do regime político. A aparência de renovação, nesse caso, não elimina a continuidade estrutural; apenas a recobre com novas linguagens e dispositivos institucionais.
Sob essa chave de leitura, a política baiana contemporânea pode ser analisada com maior rigor, evitando dois erros recorrentes: o anacronismo conceitual, que projeta o carlismo clássico sobre um contexto já transformado, e a ilusão de ruptura, que interpreta mudanças de forma como se fossem mudanças de essência. O que se observa, em última instância, é a permanência histórica de um projeto de poder que soube se reinventar para sobreviver.
*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.











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