Caso Banco Master: defesa de Daniel Vorcaro recusa acesso da PF a celular em acareação no STF, enquanto versões divergentes expõem falhas de governança e aprofundam investigação

Durante acareação realizada no Supremo Tribunal Federal (STF) no fim de 2025, a defesa do fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, recusou pedido da Polícia Federal para levantar o sigilo do celular do banqueiro, mesmo após solicitação formal da delegada responsável pela investigação. O episódio, registrado em vídeo e posteriormente tornado público por decisão do ministro Dias Toffoli, insere-se no conjunto de apurações que investigam a negociação de carteiras de crédito sem lastro, supostas falhas graves de governança no Banco de Brasília (BRB) e prejuízos bilionários ao sistema financeiro nacional.

A negativa foi feita pelo advogado Roberto Podval à delegada Janaína Palazzo, da Polícia Federal, sob o argumento de que o aparelho continha informações pessoais e havia risco de vazamentos. Segundo o defensor, apesar da garantia de sigilo absoluto, houve perda de confiança após a divulgação prévia de perguntas que seriam formuladas durante o depoimento. O conteúdo audiovisual da acareação foi liberado após pedido do Banco Central e determinação do relator do caso no STF.

Recusa ao acesso ao celular e tensão com a Polícia Federal

Durante a audiência, a delegada questionou a possibilidade de acesso ao celular de Vorcaro, como parte das diligências investigativas. A defesa recusou de forma categórica, sustentando receio de exposição indevida de dados pessoais. O advogado afirmou que a decisão foi motivada pela divulgação antecipada de informações sensíveis do processo, o que, segundo ele, comprometeria a segurança do material.

A recusa foi registrada em vídeo e passou a integrar o debate público após a retirada do sigilo dos autos. O episódio evidenciou o ambiente de tensão entre defesa e investigadores, em um inquérito que envolve interesses financeiros relevantes e instituições centrais do sistema bancário.

Versões conflitantes sobre a origem das carteiras de crédito

No mérito da investigação, a acareação colocou frente a frente Daniel Vorcaro e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, que apresentaram versões divergentes sobre a origem das carteiras de crédito consideradas problemáticas, adquiridas pelo banco público a partir de 2025.

Vorcaro afirmou que o BRB tinha conhecimento de que parte dos créditos não havia sido originada pelo Banco Master, mas por uma empresa terceira, a Tirreno. Segundo ele, o modelo de negócios previa a comercialização de carteiras estruturadas por outros agentes do mercado, em um formato que não se restringia à originação própria.

Costa, por sua vez, negou essa interpretação. O ex-presidente do BRB declarou que sempre entendeu que os ativos tinham origem no próprio Master e que apenas posteriormente surgiram dúvidas quanto à procedência das carteiras. Ele afirmou que somente após a análise de contratos, em abril de 2025, foram identificados padrões documentais distintos, levando o banco a questionar quem seriam os originadores específicos.

Atuação da Polícia Federal e suspeita de créditos sem lastro

A divergência entre os depoentes foi explorada pela Polícia Federal, que conduz investigação sobre um suposto esquema de negociação de créditos sem lastro. O caso integra o conjunto de apurações que culminaram na liquidação do Banco Master e na identificação de prejuízos bilionários no sistema financeiro.

Durante a audiência, a delegada ressaltou o conflito de versões e questionou se o BRB teria sido informado explicitamente sobre a participação de terceiros na originação dos créditos. Após uma intervenção explicativa de Costa, Vorcaro optou por não responder à pergunta, reforçando o impasse narrativo entre as partes.

Banco Central aponta falhas graves de governança no BRB

Paralelamente à acareação, o diretor de fiscalização do Banco Central do Brasil, Ailton Aquino, prestou depoimento à Polícia Federal em dezembro de 2025. Em cerca de uma hora de oitiva, Aquino afirmou de forma categórica que houve falha na governança do BRB, que, segundo ele, deveria ter identificado a fraude relacionada aos créditos do Banco Master.

O diretor destacou que, do ponto de vista técnico, era plenamente possível verificar a existência ou não dos créditos negociados. Ele ressaltou que a transferência de um grande volume de ativos ocorreu em um momento em que o Banco Master enfrentava uma crise evidente de liquidez, o que, por si só, deveria ter acionado alertas rigorosos na supervisão interna do BRB.

Crise de liquidez e questionamentos sobre lógica financeira

Aquino afirmou que, à época das operações, a crise de liquidez do Banco Master era clara e conhecida pelas autoridades monetárias. Segundo ele, o banco já havia ingressado no regime de compulsório, enfrentando inclusive processo administrativo por descumprimento das exigências legais.

Nesse contexto, o diretor do Banco Central levantou uma questão central para a investigação: como uma instituição sem ativos líquidos suficientes poderia gerar e transferir um volume tão elevado de créditos ao BRB. Para o fiscalizador, trata-se de uma inconsistência lógica que reforça a suspeita de irregularidades estruturais nas operações analisadas.

Condução do inquérito no STF e justificativas de Toffoli

O inquérito tramita no Supremo Tribunal Federal sob relatoria de Dias Toffoli, que divulgou nota pública para rebater críticas à condução do caso. No comunicado, o ministro afirmou que foi escolhido por sorteio, que todas as medidas cautelares foram mantidas para evitar vazamentos e que o sigilo se justifica pela existência de diligências em andamento.

Toffoli reconheceu, pela primeira vez, a possibilidade de remeter o processo à primeira instância após o encerramento das investigações, desde que não haja risco de nulidades processuais. Ele também ressaltou que pedidos de nulidade apresentados pelas defesas foram rejeitados e que a Polícia Federal teve o prazo de investigação prorrogado por mais 60 dias.

Pressões institucionais e debate sobre competência

A permanência do caso no STF tem sido alvo de críticas de parlamentares e juristas, que apontam desgaste institucional e questionam a necessidade de tramitação na Suprema Corte. Parte dessas críticas envolve decisões como a custódia de provas fora das dependências da Polícia Federal, a redução de prazos para depoimentos e o decreto de sigilo máximo.

Apesar das pressões, a Procuradoria-Geral da República manifestou-se favoravelmente à supervisão do STF, e pedidos de suspeição contra o relator foram rejeitados. A expectativa, segundo interlocutores do tribunal, é que apenas após o término das investigações seja avaliada uma eventual redistribuição de competência.

*Com informações dos jornais O Globo, Folha de S.Paulo e Estadão, Revista Veja, site Metrópoles e Agência Brasil.


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