Caso Banco Master: investigações avançam, prejuízo bilionário se consolida e conexões políticas ampliam a crise institucional

A Polícia Federal retoma nesta terça-feira (27/01/2026) uma nova rodada de depoimentos de executivos e ex-dirigentes do Banco Master, controlado pelo empresário Daniel Vorcaro, no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura um conjunto de supostas fraudes financeiras envolvendo a tentativa de venda da instituição ao Banco de Brasília (BRB). As investigações apontam para a comercialização irregular de até R$ 12,7 bilhões em carteiras de crédito falsas, além de práticas que teriam contribuído para a maior quebra bancária da história recente com impacto direto sobre o Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

A liquidação do Banco Master e de outras empresas do conglomerado, decretada pelo Banco Central do Brasil em novembro de 2025, atingiu mais de 1,6 milhão de clientes e pode gerar um rombo superior a R$ 47 bilhões ao FGC. Paralelamente ao impacto econômico, o caso ganhou contornos políticos e institucionais relevantes, em razão das conexões mantidas por Vorcaro com autoridades dos Três Poderes, ampliando a pressão por esclarecimentos em Brasília.

Liquidação extrajudicial e colapso do modelo de negócios

O Banco Central determinou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras quatro empresas do grupo em 18 de novembro de 2025, apontando três fatores centrais: crise de liquidez, violações às normas do Sistema Financeiro Nacional e comprometimento da situação econômico-financeira das instituições. No mesmo dia, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal ao tentar embarcar em um jato particular com destino aos Emirados Árabes Unidos, sendo posteriormente liberado.

Relatórios do Banco Central indicam que, entre 2019 e 2024, o Banco Master expandiu agressivamente suas operações com base na emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) que ofereciam rendimentos superiores à média do mercado. A estratégia atraiu investidores, mas elevou significativamente o custo de captação e tornou o banco dependente da entrada contínua de novos recursos para honrar compromissos anteriores.

Com o agravamento da crise de liquidez a partir de 2024, a instituição intensificou a venda de ativos, especialmente carteiras de crédito consignado, em um esforço para cobrir vencimentos. Segundo o Banco Central, o banco passou a não conseguir “rolar” integralmente suas captações, situação reconhecida pelo próprio Vorcaro em depoimento à Polícia Federal, embora ele sustente que a instituição permanecia solvente até a véspera da liquidação.

Dependência do FGC e riscos transferidos ao sistema

Em depoimento, Vorcaro afirmou que o modelo de negócios do Banco Master era “100% baseado” no funcionamento do Fundo Garantidor de Crédito, que garante até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em caso de quebra bancária. Embora legal, a estratégia transferiu riscos relevantes ao fundo, utilizado como instrumento de marketing para atrair investidores a produtos de alto retorno.

As estimativas preliminares indicam que o FGC deverá desembolsar cerca de R$ 39 bilhões para clientes do Banco Master e do Letsbank, além de R$ 6,7 bilhões para clientes do Will Bank, totalizando aproximadamente R$ 47 bilhões. Até o momento, o fundo já pagou R$ 26 bilhões em garantias, configurando o maior impacto desde sua criação, em 1995.

Will Bank e a expansão problemática do conglomerado

Outro desdobramento relevante foi a liquidação do Will Bank, decretada em 21 de janeiro de 2026. A instituição, adquirida pelo Banco Master em fevereiro de 2024, descumpriu obrigações junto à bandeira Mastercard, o que levou o Banco Central a concluir pela insolvência e pelo comprometimento financeiro, agravado pelo vínculo societário com o conglomerado já liquidado.

À época da aquisição, o Will Bank possuía cerca de 6 milhões de clientes, especialmente no Nordeste, ampliando a base total do grupo para mais de 10 milhões de correntistas. A liquidação incluiu a indisponibilidade de bens de controladores e ex-administradores, repetindo o procedimento adotado no caso do Banco Master.

Fundos de previdência e risco aos cofres públicos

Além do impacto direto sobre o FGC, as investigações avançaram sobre investimentos realizados por fundos de previdência públicos em títulos emitidos pelo Banco Master. A Operação Barco de Papel, deflagrada em janeiro de 2026, apura aportes de R$ 970 milhões feitos pela Rioprevidencia entre 2023 e 2024.

Esses investimentos não contam com a cobertura do FGC e, em caso de prejuízo, o ônus poderá recair sobre governos estaduais e municipais. O governador do Rio de Janeiro, Claudio Castro, exonerou o então presidente da Rioprevidência, um dos alvos da operação. Economistas alertam para a possibilidade de judicialização, dada a utilização de recursos previdenciários em ativos de alto risco.

Risco sistêmico descartado, mas fiscalização em debate

Apesar da magnitude do prejuízo, o Banco Central afirma que o caso não representa risco sistêmico. O conglomerado Master respondia por 0,57% dos ativos e 0,55% das captações do Sistema Financeiro Nacional, sendo classificado como instituição de pequeno porte (segmento S3).

Especialistas, como a economista Carla Beni, descartam contágio bancário, mas defendem maior rigor regulatório sobre fintechs e bancos de menor porte, especialmente no uso do FGC como alavanca de crescimento.

A atuação do STF e as controvérsias envolvendo Dias Toffoli

O caso ganhou nova dimensão institucional após o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, assumir a relatoria de um recurso da defesa de Vorcaro, determinando a remessa das investigações ao Supremo e impondo sigilo ao processo.

A atuação do ministro passou a ser questionada após revelações de viagens em jato particular com advogado ligado ao Banco Master e decisões que restringiram o acesso parlamentar a dados fiscais e bancários do empresário. Posteriormente, veio à tona a liquidação da gestora CBSF Distribuidora de Titulos e Valores Mobiliarios, suspeita de atuar em benefício do grupo Master, além de negócios imobiliários envolvendo familiares de Toffoli.

Pedidos de afastamento do ministro foram arquivados pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, mas lideranças políticas articulam iniciativas no Congresso para questionar sua permanência na relatoria.

Relações políticas sob investigação

As apurações também buscam esclarecer se houve influência política em favor do Banco Master. Vorcaro admitiu contatos institucionais com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, que nega ter tratado da operação envolvendo o BRB. Reportagens apontam ainda encontros com o presidente Luiz Inacio Lula da Silva, supostamente intermediados pelo ex-ministro Guido Mantega, o que é negado pelo empresário.

Outro nome citado é o do ex-presidente Michel Temer, contratado como mediador nas negociações com o BRB. Além disso, doações eleitorais feitas por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, às campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcisio de Freitas, ampliaram o escrutínio público sobre as conexões do grupo.

Crise financeira, fragilidade regulatória e desgaste institucional

O escândalo do Banco Master expõe, de forma contundente, as fragilidades de um modelo de crescimento baseado na exploração dos limites do Fundo Garantidor de Crédito, transferindo riscos privados ao conjunto do sistema financeiro. Embora o Banco Central descarte risco sistêmico, o impacto bilionário sobre o FGC e a participação indireta de bancos públicos evidenciam um problema de interesse público que ultrapassa a esfera privada.

No plano institucional, a condução do caso no Supremo Tribunal Federal, especialmente sob a relatoria de Dias Toffoli, agravou a percepção de opacidade e conflito de interesses. A combinação entre decisões judiciais controversas, vínculos pessoais revelados e arquivamento de pedidos de afastamento contribui para o desgaste da credibilidade das instituições.

Politicamente, as investigações ainda não comprovaram tráfico de influência, mas os múltiplos contatos de Vorcaro com autoridades de diferentes espectros ideológicos reforçam a necessidade de transparência. O desfecho do caso será decisivo não apenas para a responsabilização individual, mas também para o aperfeiçoamento da regulação financeira e para a confiança pública nas instituições de controle.

*Com informações da BBC Brasil.


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