Com redutos sob ameaça, presidente Lula avalia escalar ministros e redesenhar alianças para conter avanço da oposição na Bahia e no Ceará, revela Revista Veja

A menos de um ano das eleições de 2026, o Palácio do Planalto passou a tratar como questão estratégica de sobrevivência política a preservação da hegemonia do PT no Nordeste. Pesquisas recentes indicam risco concreto de derrota do partido na Bahia e no Ceará, dois dos maiores e mais simbólicos colégios eleitorais da região, historicamente decisivos para o desempenho de Lula em disputas presidenciais. Diante desse cenário, o presidente avalia planos de contingência que incluem a entrada direta de ministros de Estado nas disputas locais, a revisão de candidaturas à reeleição e o redesenho das alianças para o Senado, em uma operação de alto impacto político com reflexos diretos no projeto de um quarto mandato presidencial, revela Revista Veja.

Nordeste: base histórica sob pressão inédita

Desde 2006, o Nordeste se consolidou como principal esteio eleitoral do PT, garantindo ao partido e a Lula vantagens numéricas decisivas nas disputas presidenciais. Ao longo de quase duas décadas, a região também se tornou território de hegemonia estadual petista, especialmente na Bahia e no Ceará, onde sucessivos governos do partido ajudaram a estruturar redes políticas, administrativas e partidárias profundas.

Esse capital político, no entanto, passou a ser visto como ativo em risco. Levantamentos de intenção de voto, ainda que preliminares, indicam fadiga do eleitorado, crescimento da oposição local e maior sensibilidade a temas como segurança pública, gestão administrativa e alianças nacionais. Mesmo com nove meses até o pleito, a simples possibilidade de retrocesso já provocou movimentações defensivas no núcleo do poder federal.

Ceará: cenário crítico e ameaça de derrota no primeiro turno

No Ceará, a avaliação interna é de alerta máximo. O estado é o terceiro maior colégio eleitoral do Nordeste e o oitavo do país, governado pelo PT há doze anos consecutivos. Em 2022, cerca de 70% dos eleitores cearenses votaram em Lula, patamar considerado essencial para qualquer projeto presidencial competitivo.

Esse cenário começou a se deteriorar com a entrada do ex-governador e ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) na disputa estadual. Pesquisa do Paraná Pesquisas aponta Ciro com 44,8% das intenções de voto, contra 34,2% do governador Elmano de Freitas (PT), que busca a reeleição. Os demais candidatos somam percentuais residuais, o que, no quadro atual, garantiria vitória de Ciro já no primeiro turno.

Em um eventual segundo turno, a vantagem do tucano se amplia para 51,9% contra 37,2%, diferença considerada politicamente difícil de reverter. A ascensão de Ciro está associada a uma estratégia bem delimitada: aliança com o PL, discurso duro sobre criminalidade — tema sensível em um estado que figura entre os mais violentos do país — e promessas de valorização salarial das polícias civil e militar.

Plano de contingência: Camilo Santana no centro da estratégia

Diante da deterioração dos números, o Planalto e a direção nacional do PT estruturaram um plano escalonado de contenção. A primeira etapa envolve a saída do ministro da Educação, Camilo Santana, da Esplanada para atuar integralmente na campanha de Elmano de Freitas. Camilo foi governador do Ceará, tem alta aprovação residual e é visto como fiador político natural do atual governo estadual.

Nos bastidores, porém, Camilo foi avisado de que pode ser chamado a disputar diretamente o governo, substituindo Elmano, caso as pesquisas não apresentem reação significativa. Trata-se de uma hipótese considerada drástica e politicamente traumática, pois rompe com a tradição de garantir ao governador o direito à tentativa de reeleição.

A possibilidade divide o próprio PT. O líder do governo na Câmara, José Guimarães, critica publicamente a ideia, enquanto Camilo, reservadamente, não rejeita a alternativa, ciente de que uma derrota no Ceará teria impacto nacional direto sobre Lula.

Bahia: hegemonia longa, desgaste visível e oposição competitiva

Na Bahia, o sinal de alerta é menos agudo, mas igualmente relevante. O estado é o maior colégio eleitoral do Nordeste e símbolo da hegemonia petista, que já dura quase vinte anos no Palácio de Ondina. Ainda assim, pesquisas recentes indicam liderança do ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil), com vantagem de nove pontos percentuais sobre o governador Jerônimo Rodrigues (PT).

Em 2022, Jerônimo venceu com 52% dos votos, enquanto Lula obteve 72% no segundo turno presidencial no estado. A diferença entre o desempenho passado e o cenário atual levou a cúpula petista a tratar a Bahia como frente estratégica sensível, sobretudo pelo peso simbólico e numérico que o estado representa.

Rui Costa: alternativa, ambição e cálculo sucessório

O plano de contingência baiano tem uma particularidade: o nome cogitado como reforço ou alternativa já integra o núcleo duro do governo federal. Ex-governador da Bahia entre 2015 e 2022, o ministro da Casa Civil Rui Costa é visto como figura capaz de reorganizar o palanque estadual, dialogar com prefeitos e recuperar parte da base eleitoral.

Rui Costa não esconde sua resistência a cargos legislativos e mantém ambições nacionais no médio prazo. No desenho interno do PT, liderar um esforço decisivo para garantir a vitória de Lula no Nordeste poderia reposicioná-lo como nome relevante no cenário pós-Lula, ampliando seu capital político para uma eventual disputa presidencial futura.

Publicamente, Jerônimo Rodrigues minimiza o risco e atribui o resultado das urnas ao desempenho nacional do governo. Internamente, contudo, nenhuma hipótese foi descartada, e a direção do PT acompanha os números com cautela.

O Senado como fator de instabilidade adicional

Além das disputas pelos governos estaduais, a montagem das chapas ao Senado adiciona uma camada extra de tensão política. Em 2026, estarão em jogo duas vagas por estado, o que exige alianças mais amplas, maior distribuição de espaço e concessões delicadas.

Na Bahia, o PT discute uma chapa majoritária predominantemente petista, com Jerônimo Rodrigues, Jaques Wagner buscando a reeleição e Rui Costa ocupando a segunda vaga ao Senado. Essa configuração deixa em posição secundária aliados históricos, como o PSD, comandado por Otto Alencar, e ameaça diretamente o senador Angelo Coronel, cujo mandato se encerra.

A proposta de acomodar Coronel como suplente, apostando em uma futura nomeação ministerial de um dos eleitos, é vista como politicamente frágil e pouco atrativa para o PSD, partido que elegeu 115 prefeitos baianos em 2024, capilaridade considerada essencial para qualquer campanha estadual competitiva.

Ceará: disputa tripla e dilema das alianças

No Ceará, o cenário é igualmente complexo. Três nomes disputam duas vagas ao Senado: Eunício Oliveira (MDB), José Guimarães (PT) e Junior Mano (PSB), este último apadrinhado pelo senador Cid Gomes. Caso Eunício confirme candidatura, o MDB pode ser forçado a abrir mão da vice-governadoria, atualmente ocupada por Jade Romero, também do partido.

Nesse contexto, Lula terá de decidir se prioriza o fortalecimento do PT na chapa ou se amplia o arco de alianças para garantir maior capilaridade eleitoral, tempo de propaganda e estabilidade política nos palanques estaduais.


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