Contratos de sigilo, ofensiva digital e embate institucional: caso Banco Master expõe tensão entre Banco Central, TCU e STF em meio a suposta corrupção da República

Sede do Banco Central do Brasil está em meio a controvérsias institucionais envolvendo a liquidação do Banco Master, atuação do TCU e do STF, que supostamente atua para anteder advogados de parentes e amigos de ministros da Corte.

Brasília, quinta-feira (08/01/2026) — A liquidação do Banco Master pelo Banco Central desencadeou uma sequência de episódios que combinam contratos de confidencialidade com multa de R$ 800 mil, ofensiva coordenada de influenciadores digitais, questionamentos do Tribunal de Contas da União e reações do sistema financeiro, expondo tensões institucionais sobre os limites da autonomia do regulador bancário e do controle externo. Documentos obtidos pelo Estadão, decisões recentes do TCU e manifestações de entidades do setor compõem um quadro de elevada sensibilidade econômica e política.

Contratos de confidencialidade e ofensiva contra o Banco Central

Documentos obtidos pelo Estadão revelam a existência de acordos de confidencialidade oferecidos por agências de marketing a influenciadores digitais para a produção de conteúdos críticos ao Banco Central após a liquidação do Banco Master. Um dos contratos traz as iniciais de Daniel Vorcaro, controlador da instituição, e estabelece multa de R$ 800 mil em caso de quebra de sigilo.

O acordo define como confidenciais todas as informações relacionadas a interações, documentos, análises e materiais vinculados a projetos conduzidos pela empresa UNLTD, citando um “Projeto DV”. O texto ressalta que o compromisso se aplica independentemente de vínculo formal de contratação, ampliando o alcance das cláusulas de sigilo.

As obrigações incluem manter absoluto sigilo, não divulgar ou comentar informações com terceiros, utilizar dados apenas para fins internos e adotar medidas para impedir acessos não autorizados. O descumprimento sujeita o signatário à multa estipulada, sem prejuízo de indenizações adicionais.

Articulação com influenciadores e narrativa digital

A abordagem a perfis políticos e comunicadores foi feita por André Salvador, sócio da Unltd Network Brazil, que se apresentou como responsável por “gerenciamento de reputação e gestão de crise”. Em mensagem a um assessor parlamentar, Salvador descreveu a iniciativa como parte de uma “disputa política contra o sistema”.

Foram enviados exemplos de vídeos de influenciadores com grande alcance, como Carol Dias, Paulo Cardoso, Marcelo Rennó, André Dias e o perfil humorístico Alfinetei. As publicações criticavam a rapidez da liquidação do Master e repercutiam a decisão do TCU de pedir esclarecimentos ao Banco Central.

Levantamento citado no material indica que o pico da mobilização digital ocorreu em 27 de dezembro, com 4.560 postagens, seguido de redução nos dias subsequentes, concentradas principalmente na plataforma X. O principal alvo das críticas foi Renato Dias Gomes, ex-diretor do BC responsável pelo veto à tentativa de aquisição do Master pelo Banco de Brasília (BRB).

TCU confirma recurso do Banco Central e debate autonomia

Paralelamente, o TCU confirmou o recebimento de recurso do Banco Central contra decisão do ministro relator Jhonatan de Jesus, que havia determinado uma inspeção no órgão regulador. O BC sustenta que a medida deveria resultar de deliberação colegiada, e não de decisão monocrática.

Em nota institucional, o TCU reafirmou que, embora o Banco Central possua autonomia técnica e decisória, integra a administração pública federal e está sujeito ao controle externo previsto na Constituição. Segundo o tribunal, a atuação não fragiliza o regulador, mas reforça a legitimidade das decisões públicas.

Suspensão da inspeção e envio do caso ao Plenário

Diante da repercussão, Jhonatan de Jesus decidiu suspender a inspeção e submeter o caso ao Plenário do TCU, alegando que a controvérsia assumiu “contornos desproporcionais” para uma providência instrutória comum. O ministro defendeu, contudo, que o regimento interno da Corte lhe confere poderes para determinar inspeções quando necessárias à instrução processual.

O Banco Central, em nota técnica enviada ao TCU, detalhou o histórico da liquidação, apontou supostas irregularidades e informou o envio de apurações ao Ministério Público Federal sobre novas fraudes que teriam sido cometidas pelo Master. Para o relator, a ausência de documentação primária motivou a iniciativa de inspeção.

Atuação do BRB e investigações em curso

A tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB também entrou no foco das investigações. Vídeos gravados por executivos do banco estatal circularam internamente após o anúncio da operação, destacando vantagens técnicas do negócio. O diretor jurídico Jacques Veloso afirmou que todos os trâmites legais estavam sendo observados para evitar prejuízos a funcionários e controladores.

A transação acabou barrada pelo Banco Central, que posteriormente decretou a liquidação do Master. O caso passou a ser investigado pela Polícia Federal, sob relatoria do ministro Dias Toffoli, no Supremo Tribunal Federal.

Reações do sistema financeiro e críticas institucionais

A decisão do TCU de determinar inspeção no Banco Central gerou reação negativa de entidades representativas do setor. A Frente Parlamentar de Comércio e Serviços e a UNECS manifestaram preocupação com possível interferência externa nas atribuições do regulador.

Associações como Febraban, ABBC, Acrefi e Anbima divulgaram notas de apoio à atuação do Banco Central, defendendo a autonomia e independência do órgão para decretar liquidações extrajudiciais quando necessárias à proteção do sistema financeiro e à mitigação de riscos sistêmicos.

O presidente do TCU, Vital do Rêgo, classificou a liquidação como “fato consumado” e afirmou que, embora a decisão caiba ao Banco Central, a fiscalização do ato é prerrogativa da Corte.

Autonomia, controle e pressão pública

A sucessão de fatos no caso Banco Master evidencia um ambiente de elevada tensão institucional, no qual se confrontam a autonomia técnica do Banco Central e o papel constitucional de controle do TCU. A liquidação de uma instituição financeira de médio porte, por sua natureza, produz impactos sistêmicos e exige decisões céleres, o que amplifica a sensibilidade política e econômica do processo.

A revelação de contratos de sigilo associados a uma ofensiva digital organizada adiciona um elemento preocupante ao debate público, ao sugerir tentativas de influenciar a percepção social sobre atos regulatórios por meio de pressão indireta. Embora a atuação de influenciadores não seja ilícita em si, a combinação de cláusulas restritivas e penalidades elevadas levanta questionamentos sobre transparência e liberdade de manifestação.

Do ponto de vista institucional, a decisão de submeter o caso ao Plenário do TCU indica reconhecimento de que a controvérsia ultrapassou o âmbito técnico. O desfecho poderá estabelecer precedentes relevantes sobre os limites entre supervisão regulatória, controle externo e a exposição pública de decisões sensíveis para a estabilidade do sistema financeiro.

*Com informações dos jornais O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Revista Veja, site Metrópoles e Agência Brasil.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Facebook
Threads
WhatsApp
Twitter
LinkedIn

Deixe um comentário

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading

Privacidade e Cookies: O Jornal Grande Bahia usa cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com o uso deles. Para saber mais, inclusive sobre como controlar os cookies, consulte: Política de Cookies.