Feira de Santana mantém uma relação histórica profunda com a literatura de cordel, expressão cultural que durante décadas funcionou como principal meio de comunicação popular na cidade e em outras regiões do Nordeste. Antes da consolidação do rádio, da televisão e do acesso amplo à leitura formal, os folhetos rimados, vendidos e declamados em feiras-livres, cumpriram papel central na difusão de informações, narrativas, valores e memórias coletivas. Integrante da identidade da chamada Princesa do Sertão, o cordel permanece vivo por meio de autores, colecionadores e novos produtores, que atualizam seus temas e reafirmam sua relevância cultural e educativa.
Metropolitana e cosmopolita, Feira de Santana nasceu e se consolidou a partir da cultura popular. Nesse contexto, o cordel ocupou, por muito tempo, o lugar de principal veículo de comunicação acessível às camadas populares. Em um cenário marcado pela escassez de meios eletrônicos e pelo analfabetismo, os folhetos impressos, acompanhados da declamação em voz alta, tornaram-se instrumentos de informação, entretenimento e formação cultural.
Nas feiras-livres — espaço central da vida econômica e social feirense — era comum a presença de cordelistas, folheteiros e declamadores. Os autores produziam os textos; os vendedores os comercializavam; e os leitores pagos, geralmente alfabetizados e dotados de boa voz, recitavam os versos para o público, ampliando o alcance das narrativas.
Franklin Machado e a projeção do cordel feirense
Falar da história do cordel em Feira de Santana implica citar Franklin Machado, conhecido como “Maxado”. Feirense, advogado e jornalista, ele optou por dedicar a vida ao cordel, abrindo mão de uma trajetória profissional convencional para viver da produção e comercialização de versos populares.
Durante anos, Franklin Machado percorreu cidades brasileiras e estrangeiras, levando o cordel feirense a outros públicos. Viveu em São Paulo e em diferentes localidades, projetando essa forma literária além das fronteiras nacionais, inclusive em Portugal, país associado às origens históricas do cordel. Sua trajetória contribuiu decisivamente para a valorização e a difusão da literatura popular produzida em Feira de Santana.
Jurivaldo Alves e a Cordelteca do MAP
Outro nome central é Jurivaldo Alves da Silva, natural de Baixa Grande e radicado em Feira de Santana desde os 17 anos. Instalado no Mercado de Arte Popular (MAP), onde mantém a Cordelteca no Box CO08, Jurivaldo reúne um acervo estimado em cerca de 5 mil volumes, considerado um dos mais valiosos do país. Parte significativa dessas obras é rara e não se encontra à venda.
Jurivaldo conheceu o cordel ainda na adolescência, quando não sabia ler e dependia da escuta atenta das declamações nas feiras. Ao longo da vida, exerceu dezenas de profissões — todas lícitas — como trabalhador rural, camelô, garimpeiro, motorista, ator de circo, vaqueiro, trapezista, inventor e empresário, até consolidar-se como cordelista, folheteiro e guardião da memória dessa tradição.
Atualmente, além de produzir e comercializar cordéis, atua como palestrante em eventos culturais, intérprete do cangaceiro Lampião e referência no estudo da literatura popular nordestina.
Mestres do verso e obras emblemáticas
Ao reconstituir a história do cordel em Feira de Santana, Jurivaldo destaca Antônio Alves, natural de Mata de São João, que viveu mais de meio século na cidade e faleceu em 2013. Considerado um mestre dos versos, Antônio Alves produzia cordéis a partir de fatos cotidianos, transformando acontecimentos locais em narrativas rimadas de grande circulação.
Entre os exemplos citados estão “Os Perigos de Fernando e Joventina”, inspirado em uma confusão ocorrida em um cabaré da cidade, além de títulos como “Vaquejada Sinistra” e “A Briga de Lampião com Antônio Silvino no Inferno”. Estima-se que ele tenha produzido cerca de 200 livros.
Outro nome lembrado é Erotildes Miranda, com origem entre Candeal e Feira de Santana. Embora tenha produzido cerca de 40 cordéis, sua obra é reconhecida pela qualidade literária. Também é mencionado Rodolfo Coelho Cavalcante, alagoano radicado na Bahia, apontado como um dos maiores cordelistas do estado.
Novas gerações e reinvenção temática
O panorama atual do cordel em Feira de Santana é considerado positivo. Entre os nomes mais recentes, são citados Nivaldo Cruz, Garotinho, Adauto Borges, Ademar, Patrícia Oliveira e João Ramos. A produção contemporânea reflete uma mudança temática significativa.
Hoje, os cordéis de temática infantil e histórica ganham espaço, substituindo gradualmente narrativas centradas no cangaço, em conflitos violentos, amores trágicos e disputas políticas episódicas. Com caráter didático, muitos desses textos passaram a ser utilizados em ambientes escolares, ampliando o alcance da literatura de cordel e contribuindo para sua renovação.
Cordel, identidade e política cultural
A permanência do cordel em Feira de Santana revela a força da cultura popular como elemento estruturante da identidade local. Mais do que uma manifestação folclórica, o cordel funcionou historicamente como instrumento de comunicação, memória e interpretação da realidade social, especialmente entre as camadas excluídas dos meios formais de informação.
O reconhecimento institucional dessa tradição, contudo, ainda enfrenta desafios. Embora iniciativas pontuais valorizem o cordel, a preservação de acervos, o estímulo à produção autoral e a integração sistemática às políticas educacionais dependem de maior continuidade e investimento público.
Ao se reinventar por meio de novos temas e formatos, o cordel demonstra capacidade de adaptação sem perder sua essência. Essa vitalidade reforça seu papel como patrimônio cultural vivo, cuja preservação exige não apenas celebração simbólica, mas políticas culturais consistentes e duradouras.











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