Disputa pelo governo do Ceará se intensifica, une oposição e leva Camilo Santana a cogitar deixar o MEC para atuar nas campanhas do PT

O ministro da Educação, Camilo Santana (PT), afirmou nesta segunda-feira (19/01/2026) que avalia a possibilidade de deixar o comando do Ministério da Educação (MEC) para se dedicar integralmente às campanhas de reeleição do governador do Ceará, Elmano de Freitas, e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nas eleições de outubro de 2026. A decisão, segundo o próprio ministro, poderá ser tomada até março, prazo que considera decisivo diante da crescente complexidade do cenário eleitoral no estado.

A movimentação ocorre em meio ao avanço do ex-ministro Ciro Gomes, hoje filiado ao PSDB, que se lançou candidato ao governo do Ceará e aparece à frente nas principais pesquisas de intenção de voto. O contexto tem mobilizado o núcleo político do PT nacional, que considera estratégica a manutenção do controle do estado, governado pela legenda desde 2015 e considerado um dos principais redutos eleitorais de Lula no Nordeste.

Camilo Santana admite afastamento e reafirma apoio a Elmano e Lula

Durante conversa com jornalistas na sede do MEC, Camilo Santana destacou que o exercício da função ministerial exige dedicação nacional e o mantém fisicamente distante do Ceará, estado que governou por dois mandatos e pelo qual foi eleito senador em 2022. Segundo ele, essa condição limita sua atuação política local em um momento considerado decisivo para o partido.

Em declaração direta, o ministro reafirmou seu compromisso com a reeleição de Elmano de Freitas e de Lula, ressaltando que sua eventual saída não comprometeria a continuidade das políticas educacionais. Camilo afirmou que o ministério conta com uma equipe técnica consolidada e que os programas em andamento não sofreriam interrupções, independentemente de sua permanência ou não no cargo.

Apesar do apoio explícito a Elmano, interlocutores do PT avaliam que Camilo Santana também desponta como um plano alternativo, caso a candidatura do atual governador não consiga reagir ao crescimento de Ciro Gomes nas pesquisas. A possibilidade de o ministro assumir a cabeça de chapa permanece nos bastidores, ainda que oficialmente negada.

Pesquisas indicam cenário adverso para o governador petista

Os números mais recentes reforçam as dificuldades enfrentadas por Elmano de Freitas. Levantamento do instituto Ipsos-Ipec, realizado entre 13 e 16 de dezembro, aponta Ciro Gomes na liderança da corrida pelo governo do Ceará, com 44% das intenções de voto, contra 34% do governador. Em um eventual segundo turno, o ex-governador cearense venceria Elmano por 49% a 39%, diferença considerada expressiva pelos estrategistas do PT.

Para a direção nacional do partido e para o entorno do presidente Lula, perder o comando do Ceará para um antigo aliado político teria impacto simbólico e prático relevante. O estado é o terceiro maior colégio eleitoral do Nordeste e desempenha papel central nas estratégias eleitorais petistas desde a última década.

Peso eleitoral de Camilo e histórico recente fortalecem seu protagonismo

Camilo Santana é visto como um ativo eleitoral decisivo, sobretudo após sua atuação nas eleições municipais de 2024. À época, o ministro tirou duas semanas de férias para se dedicar à campanha de Evandro Leitão (PT) à Prefeitura de Fortaleza. Leitão iniciou a disputa atrás de Capitão Wagner (União) e de André Fernandes (PL), mas conseguiu avançar ao segundo turno e derrotar o candidato apoiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

Esse desempenho consolidou Camilo como um dos principais cabos eleitorais do PT no Nordeste, reforçando a avaliação interna de que sua presença direta na campanha estadual pode ser determinante para conter o avanço da oposição.

Ciro Gomes articula frente ampla e flerta com bolsonaristas

Do lado oposicionista, Ciro Gomes tem buscado construir uma chapa ampla, reunindo partidos de centro e de direita, inclusive setores ligados ao bolsonarismo. Após deixar o PDT — partido que integra a base de Elmano no estado — e se filiar ao PSDB, Ciro passou a criticar a aproximação da antiga legenda com o PT, tanto no plano estadual quanto nacional.

O ex-ministro também manifestou insatisfação com a condução interna do PDT, citando a “fritura” sofrida por Carlos Lupi durante a crise no INSS, que culminou na perda do comando do Ministério da Previdência.

Na tentativa de ampliar seu arco de alianças, Ciro fez acenos públicos a André Fernandes e a outras lideranças conservadoras. O movimento, contudo, encontrou resistência dentro do próprio campo bolsonarista, especialmente por parte da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que se posicionou contra uma aliança formal com o ex-governador cearense.

Composição de chapa segue indefinida e Senado vira peça-chave

Segundo o próprio Ciro Gomes, a composição de sua chapa majoritária ainda está em negociação. Entre os nomes citados estão o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio (União) e o ex-deputado federal Capitão Wagner, antigo adversário político. Não há, até o momento, definição sobre quem disputará o governo, o Senado ou outras posições estratégicas.

A segunda vaga ao Senado pelo Ceará permanece como um dos principais pontos de negociação e tende a influenciar diretamente a consolidação das alianças oposicionistas.

*Com informações do jornal O Globo e Sputnik Brasil.


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