O secretário nacional de Comunicação do Partido dos Trabalhadores (PT), Éden Valadares, afirmou que a eleição geral de 2026 constitui a prioridade absoluta da legenda, com todos os esforços concentrados na reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do governador da Bahia Jerônimo Rodrigues e na ampliação das bancadas estadual e federal do campo governista. Embora tenha ressaltado que não há definição prévia sobre candidaturas individuais, o dirigente não descartou a possibilidade de vir a disputar um mandato eletivo, desde que essa decisão resulte de uma construção coletiva no partido.
A declaração foi feita durante entrevista ao programa Política Ao Vivo, quando Valadares foi questionado sobre o cenário político futuro, incluindo a eleição municipal de Salvador em 2028. Segundo ele, não existe candidatura natural no PT para a sucessão na capital, e qualquer debate sobre nomes deve considerar a relevância histórica, política e social de Salvador no contexto baiano e nacional.
Foco estratégico em 2026 e cautela sobre 2028
Valadares enfatizou que o partido atua sob a compreensão de que antecipar disputas futuras pode comprometer a estratégia eleitoral imediata. Para o dirigente, a eleição de 2026 exige disciplina política, unidade interna e coordenação nacional, sobretudo diante do objetivo de consolidar o projeto político iniciado com o retorno de Lula à Presidência da República.
Ao tratar especificamente da sucessão municipal em Salvador, o secretário destacou que o tema ainda não foi debatido internamente e que a definição ocorrerá no momento adequado. Para ele, a capital baiana demanda responsabilidade política compatível com seu peso institucional e simbólico, o que afasta decisões precipitadas ou personalistas.
Nesse contexto, Valadares reiterou que não possui “fetiche” por candidaturas. Lembrou que suas experiências eleitorais ocorreram no âmbito interno do PT, quando concorreu e venceu disputas como a de presidente estadual da legenda, cargo exercido após obter cerca de 60% dos votos, período no qual afirma ter se dedicado integralmente à organização partidária na Bahia.
Trajetória política e posicionamento ideológico
O secretário nacional de Comunicação também relembrou sua atuação no movimento estudantil, na União Nacional dos Estudantes (UNE) e em diferentes funções exercidas nos governos petistas, inclusive durante a gestão da ex-presidente Dilma Rousseff. Atualmente, ocupa uma posição estratégica na direção nacional do partido, responsável por formular e articular a comunicação política da legenda.
Apesar de afirmar que uma candidatura não integra seus planos imediatos, Valadares foi categórico ao definir seu posicionamento político. Segundo ele, independentemente do papel que venha a desempenhar — como dirigente partidário, integrante do governo ou eventual candidato — sua atuação será de oposição ao magalhismo que, em sua avaliação, busca se reafirmar na Bahia.
Ao tratar do tema, o dirigente diferenciou o fenômeno histórico do carlismo daquele que hoje se manifesta na política baiana. A referência, segundo Valadares, é ao magalhismo contemporâneo, associado à tentativa de reatualização de um projeto de poder familiar liderado por ACM Neto e sustentado por aliados como o atual prefeito da capital, Bruno Reis. Para o dirigente petista, trata-se de uma visão política que procura preservar práticas hierárquicas e centralizadoras, incompatíveis com as transformações sociais e institucionais vividas pela Bahia nas últimas décadas.
Big Techs, eleições e soberania digital
Além das questões eleitorais locais e nacionais, Valadares dedicou parte significativa da entrevista à análise do impacto das grandes plataformas digitais sobre o processo democrático. Segundo ele, a comunicação política migrou de forma decisiva para as redes sociais, onde algoritmos privados exercem influência direta sobre o alcance, a visibilidade e a hierarquização das informações.
O secretário afirmou que há sinais claros de alinhamento político dessas empresas com narrativas conservadoras, citando a presença de executivos de grandes plataformas na posse do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Para Valadares, experiências internacionais recentes reforçam o alerta sobre a possibilidade de interferência indireta nos processos eleitorais.
Nesse cenário, ele destacou a atuação do presidente Lula em fóruns multilaterais, como o G20, onde o tema da soberania digital foi tratado como questão estratégica. Segundo o dirigente, o controle do fluxo de informações por conglomerados privados configura uma forma de “colonialismo digital”, capaz de submeter Estados nacionais a interesses econômicos externos.
Regulamentação das plataformas e defesa da cidadania
Valadares defendeu que o interesse nacional, a proteção dos direitos fundamentais e a integridade da democracia não podem ficar subordinados à lógica do lucro das grandes empresas de tecnologia. Para ele, a prática de condicionar alcance informacional à monetização compromete o debate público e distorce a formação da vontade política do eleitor.
O secretário revelou estar concluindo uma série de artigos sobre o tema, nos quais sustenta que o voto não pode ser determinado por algoritmos privados. Em sua avaliação, a regulamentação das redes sociais é um instrumento necessário para garantir o direito de comunicar, ouvir e ser ouvido sem filtros econômicos ou interferências corporativas.
Segundo Valadares, as eleições de 2026 tendem a ser particularmente desafiadoras justamente pela centralidade das plataformas digitais no processo político. A resposta institucional, afirma, passa por regulação democrática, fiscalização transparente e fortalecimento da cidadania.
Carlismo e magalhismo: distinção conceitual e base teórica
Do ponto de vista analítico, a substituição do termo carlismo por magalhismo decorre de uma distinção histórica e sociológica formulada pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto. Segundo essa abordagem, o carlismo constituiu um fenômeno político personalista, ancorado na liderança carismática e centralizadora de Antônio Carlos Magalhães, encerrando-se como ciclo histórico com a morte do ex-senador, em 2007. Tratava-se de um poder concentrado na figura do líder, pouco transferível e dependente de sua presença direta na arena política.
O magalhismo, por sua vez, representa a continuidade estrutural de um projeto de poder familiar, agora desvinculado da liderança fundadora, mas sustentado pelo capital político, eleitoral e simbólico acumulado ao longo de décadas. Essa distinção dialoga com a tradição marxista, especialmente com as formulações de Karl Marx sobre a reprodução das relações de poder e de Antonio Gramsci acerca da hegemonia, entendida como a capacidade de um grupo dirigente manter sua influência não apenas pela coerção direta, mas pela reorganização cultural, institucional e simbólica do poder. Nessa perspectiva, o magalhismo não é uma simples repetição do carlismo, mas sua reconfiguração histórica, adaptada às condições da democracia representativa, preservando traços como centralidade familiar, hierarquização política e controle regional sob novas formas discursivas e eleitorais.
Magalhismo, estratégia eleitoral e disputa pelo controle informacional
As declarações de Éden Valadares evidenciam uma estratégia política clara do PT: manter foco absoluto na eleição de 2026, evitando antecipações que fragilizem a coesão interna, ao mesmo tempo em que delimita com precisão seus adversários históricos na Bahia. A adoção do conceito de magalhismo confere maior precisão histórica ao discurso, ao reconhecer o encerramento do carlismo como ciclo personalista e a permanência de um projeto familiar reconfigurado.
No plano nacional, a ênfase na soberania digital amplia o debate para além da disputa partidária tradicional e insere o papel das Big Techs no centro da agenda democrática. O desafio central será converter esse diagnóstico em políticas públicas eficazes, capazes de equilibrar liberdade de expressão, inovação tecnológica e proteção institucional do processo eleitoral.
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