Antes da popularização dos anúncios luminosos, do neon e das estratégias modernas de marketing, a identidade visual do comércio feirense era construída por letristas e pintores que, com tinta e pincel, transformavam fachadas, placas e veículos em verdadeiras peças artesanais. Entre o final da década de 1940 e os anos 1980, em meio ao acelerado crescimento urbano e comercial da cidade, esses profissionais exerceram papel central na comunicação visual, deixando marcas estéticas e culturais que hoje sobrevivem apenas na memória histórica.
Do pós-guerra até os anos 1980, Feira de Santana experimentou um crescimento incomum, impulsionado por sua posição estratégica como maior entroncamento rodoviário do Norte e Nordeste. O intenso fluxo de caminhões, aliado à concentração das mais importantes oficinas mecânicas da região, fomentou um ambiente urbano dinâmico e em constante expansão.
Nesse contexto, multiplicaram-se as lojas no centro comercial, criando uma demanda contínua por identificação visual. Sem recursos tecnológicos disponíveis, comerciantes recorriam aos letristas para registrar nomes, marcas e anúncios diretamente nas paredes, em placas de madeira ou metal, ou ainda em faixas de tecido utilizadas para inaugurações e eventos festivos.
A comunicação visual era artesanal, direta e funcional, mas também carregada de identidade estética, criatividade e singularidade, refletindo o talento individual de cada profissional.
Pintores de fachadas e a arte nos caminhões
Além das fachadas comerciais, os caminhões tornaram-se verdadeiras telas itinerantes. Para-choques e lameiras eram pintados com frases espirituosas, românticas ou provocativas, muitas vezes carregadas de humor popular e referências culturais da época.
Motoristas recorriam a esses pintores para personalizar seus veículos, exigindo precisão nos traços, harmonia nas letras e impacto visual. Entre os mais requisitados estava China (Sebastião José Ferreira), reconhecido pela qualidade técnica e criatividade. Ao seu lado, nomes como Dodô e Maxixe também se destacaram, conforme recorda o cordelista Jurivaldo Alves, que exerceu a atividade por breve período.
Algumas frases tornaram-se emblemáticas, como:
- “Nas curvas do teu corpo, capotei meu coração”
- “Na terra em que os brutos também amam, mulher não tem coração”
- “Mulher e parafuso comigo é no aperto”
Por outro lado, mensagens ofensivas ou preconceituosas geraram conflitos graves, incluindo um episódio que resultou na morte de um motorista pernambucano em Vitória da Conquista, após a pintura de uma frase considerada insultuosa.
Riscos do ofício e relatos de quem viveu a profissão
O trabalho dos letristas não era isento de riscos. Jurivaldo Alves relata dois episódios que o levaram a abandonar a profissão: um trabalho realizado deitado sobre uma caixa d’água, sob forte insolação, e outro envolvendo um choque elétrico durante a instalação de uma faixa atravessando a Avenida Senhor dos Passos.
Ainda assim, alguns profissionais alcançaram reconhecimento artístico. China tornou-se referência pelos traços perfeitos, domínio de estilos como o gótico e o sombreado, além da capacidade de criar desenhos e paisagens com alto nível de acabamento. Casado com Romenilse Ferreira, deixou oito filhos, netos e bisnetos, embora nenhum tenha seguido a profissão, apesar do talento artístico presente em descendentes como Emerson e Micaele.
O Cine Teatro Íris e a cidade anunciada à mão
A pintura manual também esteve presente na divulgação cultural. O extinto Cine Teatro Íris, por exemplo, utilizava grandes placas de madeira apoiadas em postes em frente à Igreja Senhor dos Passos para anunciar filmes, elenco, dias e horários de exibição.
Esses cartazes funcionavam como pontos fixos de informação, integrando o cotidiano urbano e reforçando a centralidade da comunicação visual artesanal na vida da cidade.
Personagens marcantes e o fim de uma era
Entre os letristas que marcaram época, Maxixe, vindo de Salvador, destacava-se como verdadeiro artista plástico. Produzia desenhos com rapidez impressionante, sem esboços prévios, e chegou a ganhar bom dinheiro desenhando em boates. Já Dodô, reconhecido como letrista de excelência, teve uma morte trágica e simbólica: portador de epilepsia e com histórico de alcoolismo, caiu durante uma chuva e acabou se afogando em um local naturalmente seco, na esquina da Rua Artur de Assis com a Rua São José.
Com o avanço tecnológico, essas profissões praticamente desapareceram. A tradicional maleta de madeira, que ao ser aberta revelava pincéis, tintas e lixas organizados como uma pequena prateleira, tornou-se peça de memória.
Memória urbana e apagamento cultural
A substituição da pintura manual pelos anúncios luminosos representa mais do que uma mudança tecnológica: simboliza o apagamento progressivo de uma cultura visual construída pela habilidade individual e pela identidade local. O desaparecimento dos letristas reflete a padronização estética imposta pelo marketing contemporâneo.
Embora mais eficientes do ponto de vista comercial, os anúncios modernos eliminaram a singularidade das fachadas e a relação direta entre o artesão e o espaço urbano. Pouco se discute, contudo, a perda simbólica e cultural desse processo, especialmente em cidades como Feira de Santana, cuja história urbana foi moldada por esses profissionais.
A ausência de políticas de preservação da memória visual evidencia uma lacuna institucional. Registros, depoimentos e acervos poderiam ter sido sistematizados para garantir que esse legado não sobreviva apenas em relatos orais e colunas históricas.
*Com informações do jornalista Zadir Marques Porto.








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