EUA e Venezuela negociam exportação de petróleo venezuelano para refinarias americanas após captura de Maduro

Autoridades de EUA e Venezuela negociam exportações de petróleo venezuelano para refinarias americanas após bloqueio e captura de Maduro. O acordo pode redirecionar cargas da China, aliviar estoques da PDVSA e evitar novos cortes de produção. A Chevron segue como única exportadora autorizada, enquanto se discutem licenças, leilões e até uso da Reserva Estratégica dos EUA. O cenário combina pragmatismo energético, pressão política e incertezas jurídicas.
EUA e Venezuela negociam exportação de petróleo para refinarias americanas após bloqueio e captura de Maduro, com impacto geopolítico e energético.

Autoridades de Caracas e Washington discutem, desde o início de janeiro, a exportação de petróleo bruto venezuelano para refinarias dos Estados Unidos, segundo cinco fontes dos setores governamental, industrial e de transporte marítimo ouvidas pela Reuters. As negociações ocorrem após o bloqueio imposto pelo governo de Donald Trump em meados de dezembro e a captura do presidente Nicolás Maduro por forças americanas, medida que agravou a crise política e energética do país. O eventual acordo pode redirecionar cargas antes destinadas à China, aliviar gargalos de armazenamento da estatal PDVSA e evitar novos cortes na produção, hoje pressionada pelas sanções.

Negociações energéticas em meio ao bloqueio

As conversas concentram-se em viabilizar vendas imediatas do petróleo retido em navios-tanque e tanques de armazenamento, além de estruturar licenças americanas para empresas que operam com a PDVSA. O objetivo é impedir reduções adicionais da produção, já afetada pela falta de espaço para estocagem.

Atualmente, a Chevron é a única empresa dos EUA autorizada a exportar petróleo venezuelano, enviando entre 100 mil e 150 mil barris por dia (bpd) para o mercado americano. Com o bloqueio, a PDVSA passou a reduzir a produção; fontes alertam que, sem uma saída rápida para exportação, novos cortes serão inevitáveis.

Refinarias da Costa do Golfo do México, historicamente adaptadas ao petróleo pesado venezuelano, importavam cerca de 500 mil bpd antes das primeiras sanções energéticas impostas por Washington. A retomada parcial desse fluxo é vista como tecnicamente viável, mas politicamente sensível.

China, sanções e realocação de cargas

Um ponto central das tratativas é a realocação de cargas originalmente destinadas à China, principal compradora do petróleo venezuelano na última década. O redirecionamento ampliaria o volume exportado aos EUA em um momento de pressão máxima sobre Caracas.

Desde 2020, sanções americanas restringiram o comércio de petróleo com a Venezuela, afetando parceiros e rotas. Agora, autoridades discutem mecanismos de venda, como leilões de cargas para compradores americanos e licenças específicas para parceiros comerciais da PDVSA que permitam contratos de fornecimento.

Também entrou na pauta a possibilidade de o petróleo venezuelano reabastecer a Reserva Estratégica de Petróleo dos EUA no futuro, hipótese ainda preliminar e dependente de decisões políticas e regulatórias.

Reações oficiais e silêncio institucional

Até o momento, Casa Branca, PDVSA e autoridades venezuelanas não se pronunciaram oficialmente sobre os termos das negociações. O Ministério do Petróleo da Venezuela acusou os EUA de tentar se apropriar das reservas do país e classificou a captura de Maduro como “sequestro”.

No plano jurídico, o procurador-geral venezuelano Tarek Saab pediu que a Justiça americana reconheça falta de jurisdição e imunidade de chefe de Estado a Maduro, que se declarou inocente das acusações de tráfico de drogas em audiência em Manhattan.

Transição política incerta e disputa interna

A líder da oposição María Corina Machado afirmou que uma “Venezuela livre” poderá se tornar o “centro energético” das Américas, defendendo abertura de mercados e restauração do Estado de Direito. Apesar disso, o governo Trump sinalizou disposição para trabalhar temporariamente com a presidente interina Delcy Rodríguez, avaliando a estabilidade institucional no curto prazo.

Rodríguez, aliada histórica de Maduro, denunciou a operação americana e, simultaneamente, acenou com cooperação pragmática. Segundo fontes, Washington condiciona avanços a combate ao narcotráfico, afastamento de agentes estrangeiros hostis e revisão das vendas de petróleo a adversários dos EUA.

Produção em queda e reservas estratégicas

A Venezuela detém cerca de 303 bilhões de barris em reservas comprovadas, majoritariamente de petróleo pesado e de extração complexa. A produção média de 2025 foi de 1,1 milhão de bpd, aproximadamente um terço do nível dos anos 1970, refletindo má gestão, subinvestimento e sanções.

Com os principais portos petrolíferos paralisados por dias consecutivos, títulos da dívida venezuelana registraram valorização diante do otimismo de investidores com um cenário pós-Maduro e eventual normalização do setor.

Energia, poder e precedentes

A negociação petrolífera revela a centralidade do petróleo como instrumento de barganha geopolítica. Ao discutir exportações enquanto mantém pressão política e militar, Washington busca estabilidade energética sem abrir mão de condicionantes estratégicas.

O processo expõe tensões entre pragmatismo econômico e legalidade internacional. A ausência de clareza sobre destino dos recursos e marcos regulatórios para uma estatal sancionada indica riscos de governança e contestação judicial.

Por fim, o precedente institucional — a maior intervenção americana na região desde 1989 — amplia o debate sobre ordem internacional, soberania e segurança energética, com impactos que ultrapassam a relação bilateral e repercutem nos mercados globais.


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