A menos de nove meses das eleições presidenciais de 2026, a oposição ao governo federal enfrenta um cenário de fragmentação crescente no campo da direita e do centro-direita, marcado pela multiplicação de pré-candidaturas e pela ausência de consenso em torno de um nome capaz de enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um confronto direto. O movimento mais recente — a decisão do PSD, presidido por Gilberto Kassab, de lançar simultaneamente três presidenciáveis — acirrou disputas internas, reorganizou alianças partidárias e ampliou as incertezas sobre a capacidade de unificação da oposição.
O movimento do PSD e o novo capítulo da disputa presidencial
O ponto de inflexão ocorreu na terça-feira, 27 de janeiro, quando o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, anunciou sua saída do União Brasil para se filiar ao PSD. O gesto reposicionou a legenda no centro do debate eleitoral ao reunir, sob o mesmo partido, três governadores com pretensões presidenciais: Caiado, Ratinho Junior (Paraná) e Eduardo Leite (Rio Grande do Sul).
Segundo a direção nacional do PSD, a estratégia consiste em avaliar, ao longo dos próximos meses, qual nome reúne melhores condições de viabilidade eleitoral, capacidade de diálogo com o centro político e menor índice de rejeição junto ao eleitorado. O objetivo declarado é consolidar uma candidatura competitiva que transite do centro à direita, fora da influência direta do bolsonarismo e resistente a aproximações com o governo federal.
Agenda econômica e discurso de oposição ao governo Lula
Em encontro com empresários e representantes do mercado financeiro em São Paulo, os três presidenciáveis do PSD apresentaram linhas convergentes de discurso. As falas enfatizaram austeridade fiscal, redução do tamanho do Estado, estímulo ao investimento privado, aumento da produtividade e endurecimento no combate ao crime, temas que delineiam o eixo central de uma futura plataforma de oposição ao governo Lula e ao Partido dos Trabalhadores.
Ratinho Junior defendeu um mandato voltado à reorganização da máquina pública e ao destravamento da economia, com foco no crescimento do setor privado e na geração de empregos. Eduardo Leite, por sua vez, destacou a necessidade de superar o ambiente de polarização política, defendendo uma candidatura que dispute espaço com os extremos e dialogue com o eleitorado moderado.
Relação com o bolsonarismo e cálculo eleitoral
Apesar do esforço de diferenciação em relação ao bolsonarismo mais radical, o PSD evita confronto direto com esse campo político. A legenda reconhece o peso eleitoral da família Bolsonaro e mantém interlocução com Flávio Bolsonaro, hoje apontado como o nome mais competitivo da direita em levantamentos de intenção de voto.
Pesquisas recentes indicam que, embora Flávio Bolsonaro apresente desempenho relevante nas simulações eleitorais, ele também carrega elevados índices de rejeição, fator considerado decisivo por dirigentes do PSD na avaliação sobre sua capacidade de aglutinar uma frente ampla de centro-direita.
Estratégias paralelas e o exemplo internacional
Parte da oposição defende que a fragmentação inicial pode ser estratégica. Aliados de Caiado e dirigentes do PL sustentam a tese de que a multiplicação de candidaturas no primeiro turno pode fortalecer a oposição, permitindo a convergência em torno do nome mais votado no segundo turno, a exemplo do ocorrido no Chile.
Nesse contexto, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, reafirmou que manterá sua candidatura até o fim, defendendo a oxigenação do sistema político. Já o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, embora declare publicamente que não disputará o Planalto, segue sendo tratado nos bastidores como potencial nome de unificação, caso haja desistências no campo bolsonarista.
Rearranjos partidários e disputas nos bastidores
A saída de Caiado do União Brasil foi recebida com alívio por dirigentes da sigla e do PP, que negociam a formação de uma federação partidária. Nessas legendas, cresce a avaliação de que a consolidação de uma candidatura competitiva passa, inevitavelmente, por alianças com o PL.
Ao mesmo tempo, há desconfiança sobre a real disposição do PSD em levar uma candidatura própria até o fim. O partido ocupa ministérios no governo federal e mantém alianças regionais com o PT em diversos estados, o que alimenta suspeitas de que o lançamento de presidenciáveis possa funcionar como instrumento de barganha política em negociações futuras.
Precedentes históricos e riscos da fragmentação
A fragmentação da direita não é inédita na história eleitoral brasileira. Em 1989, a pulverização de candidaturas contribuiu para um segundo turno marcado por rearranjos inesperados, em um contexto de transição política. Analistas avaliam que um cenário excessivamente fragmentado em 2026 pode, novamente, favorecer candidaturas mais consolidadas.
Ainda assim, há quem veja no atual movimento uma tentativa de reconstrução do centro político, desde que consiga se materializar em torno de um projeto claro, coeso e eleitoralmente viável.
Com informações da Revista Veja.











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