Na segunda-feira, 20/12/2025, vieram a público novos elementos que ampliam o debate sobre os impactos econômicos e institucionais envolvendo o Frigorífico Ganha Fama, empreendimento localizado em Andaraí, na Chapada Diamantina. Construído pelo produtor rural Wilson Paes Cardoso, atual prefeito de Andaraí e presidente da União dos Municípios da Bahia (UPB), o frigorífico foi posteriormente vendido e integrado ao Grupo Friggom’s, hoje em recuperação judicial. O encerramento das atividades e o colapso financeiro do grupo deixaram prejuízos milionários a produtores rurais da região, ao mesmo tempo em que levantam questionamentos sobre governança empresarial, transparência patrimonial e os limites entre iniciativa privada, poder político local e interesse público.
Origem e estrutura do Frigorífico Ganha Fama
O Frigorífico Ganha Fama Ltda., de razão social registrada sob o CNPJ 08.655.915/0001-47, foi instalado em Andaraí com atividade principal de abate de bovinos (CNAE 1011-2/01). O empreendimento contou ainda com filial em Feira de Santana (CNPJ 08.655.915/0002-28), posteriormente baixada por encerramento voluntário.
Desde sua concepção, o frigorífico foi apresentado como um projeto estruturante para a Chapada Diamantina, com capacidade industrial relevante e promessa de integração da produção pecuária regional. A planta foi projetada para operar de forma multifuncional, com possibilidade de abate de bovinos, suínos, ovinos e caprinos, além de industrialização de derivados, comércio atacadista e varejista de carnes e atividades complementares.
Certificação sanitária e inauguração oficial
Em 11/08/2021, o Frigorífico Ganha Fama recebeu o Selo de Inspeção Estadual (SIE) da Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab), o que autorizava a comercialização de produtos em todo o território baiano. À época, a Adab destacou a conformidade integral do empreendimento com as normas sanitárias, incluindo caldeiras, graxaria, estação de tratamento de água e efluentes, além de maquinário de abate e industrialização.
A inauguração oficial ocorreu em 27/08/2021, com previsão de participação do então governador Rui Costa. O evento foi amplamente divulgado como marco de desenvolvimento regional, com expectativa de geração de até 3 mil empregos ao longo da cadeia produtiva, somando postos diretos, indiretos e induzidos.
Estrutura societária e atuação empresarial
Na filial de Feira de Santana, posteriormente extinta, Wilson Paes Cardoso figurava como sócio-administrador, ao lado de outros sócios, com capital social declarado de R$ 10,65 milhões. O escopo de atividades registrado era amplo, incluindo desde abate e industrialização de carnes até comércio atacadista de alimentos, máquinas agropecuárias, ferragens e representação comercial de insumos agrícolas.
Essa multiplicidade de CNAEs evidencia um modelo empresarial altamente diversificado, mas também mais complexo em termos de gestão, controle financeiro e fiscalização.
Venda do frigorífico e integração ao Grupo Friggom’s
Após a fase inicial de operação, o Frigorífico Ganha Fama foi vendido e incorporado ao Grupo Friggom’s, conglomerado baiano com atuação nos setores frigorífico, atacadista, varejista e logístico. Fundado em 2006, o grupo chegou a operar 20 lojas em sete municípios, mantendo como núcleo industrial o frigorífico de Andaraí.
Com faturamento anual superior a R$ 100 milhões em seu auge e cerca de 450 empregos diretos, o grupo passou a enfrentar, a partir de 2024, uma crise severa de liquidez, que culminou no pedido de recuperação judicial em 19/11/2025, no valor de R$ 166,4 milhões.
Recuperação judicial e denúncias de irregularidades
A recuperação judicial do Grupo Friggom’s, que tramita na 2ª Vara Empresarial de Salvador do Tribunal de Justiça da Bahia, entrou em nova fase de controvérsia após credor quirografário protocolar, em 18/12/2025, pedido formal de investigação judicial.
A manifestação aponta omissões patrimoniais relevantes, possível ocultação de receitas, especialmente ligadas a uma usina de energia solar instalada na Fazenda Bromélia, e a inclusão de dívida supostamente inexistente no valor de R$ 1,97 milhão. Segundo o credor, tais práticas podem caracterizar violação à boa-fé processual e comprometer a paridade entre credores.
Impactos diretos sobre produtores rurais
Enquanto a disputa judicial avança, produtores rurais da Chapada Diamantina relatam prejuízos expressivos, decorrentes de animais entregues e não pagos, contratos interrompidos e ausência de alternativa logística regional após a paralisação do frigorífico.
A promessa de encurtar distâncias, reduzir custos e formalizar a produção pecuária local deu lugar a um cenário de desorganização da cadeia produtiva, com impacto direto sobre pequenos e médios criadores, justamente o público que o empreendimento dizia priorizar.
Relação entre poder público e iniciativa privada
O caso ganha maior sensibilidade institucional pelo fato de Wilson Paes Cardoso, fundador do frigorífico, ocupar atualmente cargos públicos de destaque como prefeito de Andaraí e presidente da UPB. Embora a venda do empreendimento ao Grupo Friggom’s tenha ocorrido anteriormente, a sobreposição entre trajetória empresarial, liderança política e efeitos econômicos regionais amplia o interesse público sobre o desfecho do caso.
Desenvolvimento regional, risco sistêmico e transparência
O Frigorífico Ganha Fama ilustra, de forma emblemática, os riscos estruturais de projetos industriais concentrados em um único agente econômico, especialmente em regiões dependentes de cadeias produtivas específicas. A interrupção das atividades mostrou como a ausência de planos de contingência pode transferir perdas diretamente aos elos mais frágeis da cadeia.
A recuperação judicial do Grupo Friggom’s, marcada por denúncias de omissão patrimonial e possível ocultação de receitas, reforça a necessidade de maior rigor na fiscalização inicial desses processos, sobretudo quando envolvem ativos relevantes, operações recentes de venda e estruturas societárias complexas.
Do ponto de vista institucional, o episódio expõe a tensão permanente entre preservação da empresa, proteção dos credores e interesse público regional, exigindo atuação técnica firme do Judiciário e do Ministério Público para evitar que o instituto da recuperação judicial seja utilizado como mecanismo de blindagem patrimonial indevida.
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