O Governo Lula exonerou, na noite de sexta-feira (09/01/2026), Marcos de Brito Campos Júnior, então diretor de Administração e Finanças do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), após o avanço de investigações da Polícia Federal que o apontam como destinatário de suposta propina em dinheiro vivo no âmbito da Operação Sem Desconto, que apura um esquema milionário de descontos indevidos em aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A exoneração ocorreu quase um mês após o dirigente ter sido alvo de busca e apreensão e de medidas cautelares determinadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
A decisão foi formalizada depois de a defesa de Marcos de Brito informar, ainda na tarde de sexta-feira, que ele havia colocado o cargo à disposição do Dnit. Até então, não havia ato administrativo confirmando a saída. A medida ocorre em meio ao aprofundamento das investigações conduzidas pela Polícia Federal, que identificou diálogos indicando a entrega de valores em espécie ao ex-diretor.
Mensagens indicam entrega de dinheiro vivo
Segundo informações encaminhadas pela Polícia Federal ao STF, mensagens extraídas do celular do empresário e lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, detalham orientações para a entrega de R$ 20 mil em dinheiro vivo a Marcos de Brito Campos Júnior. Em 10 de agosto de 2023, o lobista solicitou a um funcionário, Rubens Costa, que providenciasse a quantia de forma sigilosa.
Nos diálogos, o empresário orienta que o dinheiro fosse retirado do cofre e acondicionado de maneira discreta, em envelope ou recipiente que não chamasse atenção, com o objetivo explícito de “evitar desconforto” ao destinatário. Para a Polícia Federal, o teor das mensagens indica a tentativa de ocultação da origem e da natureza dos valores.
Com base nesses indícios, Marcos de Brito foi alvo de busca e apreensão em 18 de dezembro e passou a utilizar tornozeleira eletrônica por determinação do ministro André Mendonça, relator do caso no STF.
Defesa nega recebimento de propina
A defesa de Marcos de Brito Campos Júnior nega qualquer envolvimento em práticas ilícitas. Em nota, o advogado Flávio Henrique Santos afirmou que o ex-diretor possui patrimônio modesto e compatível com suas receitas, estando em dia com suas obrigações fiscais e civis. A defesa sustenta que não houve recebimento de recursos oriundos do esquema investigado e que as acusações serão devidamente esclarecidas no curso do processo judicial.
Ainda segundo a defesa, a decisão de colocar o cargo à disposição do Dnit teria como objetivo preservar a instituição e permitir que as investigações transcorram sem interferências administrativas.
Ampliação do inquérito e conexões políticas
As investigações da Operação Sem Desconto não se restringem ao Dnit. A Polícia Federal identificou também diálogos que indicam a entrega de dinheiro vivo a um ex-assessor parlamentar do senador Weverton Rocha, vice-líder do governo no Senado. Em representação enviada ao STF, a PF chegou a apontar o parlamentar como possível “sustentáculo político” do esquema, embora o Supremo tenha autorizado apenas medidas de busca e apreensão, e não a prisão do senador.
Os diálogos utilizam termos cifrados como “encomenda” e “impressões”, que, segundo os investigadores, seriam referências a pagamentos em espécie. Em um dos episódios, saques bancários de alto valor realizados por empresas ligadas ao Careca do INSS coincidem temporalmente com as mensagens trocadas para a entrega dessas “encomendas”.
Menções ao filho do presidente entram no radar
Outro desdobramento relevante da investigação envolve menções a Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A Polícia Federal informou ao STF que apura se Fábio Luís teria atuado como “sócio oculto” do Careca do INSS em negócios privados, por meio da empresária Roberta Luchsinger, que mantinha contrato de consultoria com o lobista.
A PF ressalta, contudo, que não há, até o momento, indícios de participação direta de Fábio Luís nos descontos fraudulentos em aposentadorias. As menções identificadas decorrem de depoimentos, registros de viagens aéreas realizadas em conjunto com a empresária e diálogos apreendidos, todos ainda sob análise.
A defesa de Fábio Luís classificou as referências como ilações e afirmou que ele não possui relação direta ou indireta com o INSS. A própria Polícia Federal destacou, em sua representação, a necessidade de cautela para evitar conclusões precipitadas baseadas em afirmações de terceiros.
Prisões e próximos passos da investigação
O Careca do INSS está preso desde setembro do ano passado, apontado como líder de um esquema milionário de descontos indevidos em benefícios previdenciários, sustentado por pagamentos de propina a agentes públicos. Na fase mais recente da operação, também foi preso seu filho, Romeu Antunes.
Com o avanço das apurações, a expectativa é que novos pedidos de diligências e oitivas sejam apresentados ao STF, inclusive no que diz respeito às conexões políticas e empresariais do esquema.
Crise institucional e erosão da confiança pública
A exoneração de um diretor estratégico do Dnit, em meio a suspeitas de corrupção vinculadas ao INSS, evidencia a fragilidade dos mecanismos de controle interno na administração pública federal e a persistência de esquemas que atravessam diferentes órgãos do Estado. O caso reforça a percepção de que estruturas administrativas continuam vulneráveis à captura por interesses privados.
Os desdobramentos políticos, com a inclusão de assessores parlamentares e a citação de figuras próximas ao núcleo do poder, ampliam a complexidade institucional da investigação e tensionam a relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário. A atuação do STF como instância centralizadora das apurações confere formalidade jurídica ao processo, mas também concentra elevado grau de sensibilidade política.
Ao mesmo tempo, a cautela expressa pela Polícia Federal ao tratar de menções indiretas e vínculos ainda não comprovados revela a necessidade de equilíbrio entre transparência investigativa e responsabilidade institucional, sob pena de contaminação do debate público por especulações.
*Com informações do Estadão.
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