O Parlamento Europeu decidiu suspender a ratificação do acordo comercial firmado entre a União Europeia e os Estados Unidos, em resposta direta à ofensiva do presidente americano Donald Trump para assumir o controle da Groenlândia, território semiautônomo ligado ao Reino da Dinamarca. A medida, anunciada nesta terça-feira (20/01/2026), ocorre em meio a ameaças tarifárias, declarações públicas de caráter coercitivo, tensões militares no Ártico e forte instabilidade econômica, às vésperas do Fórum Econômico Mundial de Davos, configurando a mais grave crise entre aliados ocidentais em décadas .
Suspensão do acordo UE–EUA e cálculo político europeu
O acordo comercial, assinado em julho de 2025, previa a remoção de tarifas sobre produtos industriais americanos e deveria entrar em vigor entre março e abril de 2026, após aprovação formal do Parlamento Europeu e dos governos nacionais do bloco. A decisão de sustar a ratificação foi assumida como um gesto político deliberado, com o objetivo de pressionar Washington e sinalizar limites institucionais claros diante da estratégia americana.
Líderes parlamentares europeus destacaram que o congelamento do acordo constitui uma das ferramentas de pressão mais relevantes disponíveis, dado o peso do mercado europeu para empresas industriais, tecnológicas e financeiras dos Estados Unidos. Paralelamente, a União Europeia avalia um pacote de retaliações comerciais que pode atingir até 93 bilhões de euros em importações americanas, além de restrições ao acesso de empresas dos EUA a licitações públicas, investimentos estratégicos e serviços no bloco.
A estratégia de Trump e a ofensiva sobre a Groenlândia
A crise se agravou após Trump anunciar tarifas iniciais de 10% sobre exportações de oito países europeus, com possibilidade de elevação para 25% a partir de junho, caso esses governos não aceitem a anexação da Groenlândia. O presidente americano classificou o território ártico como “imprescindível para a segurança nacional e mundial” e afirmou publicamente que “não há volta atrás” em seu objetivo.
Em um movimento sem precedentes recentes, Trump publicou imagens geradas por inteligência artificial retratando a Groenlândia, o Canadá e a Venezuela como territórios americanos, além de divulgar mensagens privadas trocadas com líderes europeus. A combinação de retórica beligerante, pressão econômica e simbolismo visual foi interpretada por diplomatas como uma forma explícita de coerção política, ampliando a ruptura com práticas tradicionais de negociação entre aliados.
Militarização do debate e reação no Ártico
O avanço retórico americano coincidiu com o envio de pequenos contingentes militares europeus à Groenlândia, no contexto de treinamentos liderados pela Dinamarca. A iniciativa, apoiada por países como a França, foi interpretada como gesto de solidariedade e dissuasão.
Trump reagiu incluindo esses países no novo pacote tarifário e reiterando que os Estados Unidos são “o país mais poderoso do planeta”, capazes de garantir a paz global “através da força”. A postura elevou o risco de militarização indireta de um conflito político-comercial, em uma região estratégica para sistemas de alerta e defesa do Atlântico Norte.
Macron endurece discurso e lidera reação política
No Fórum Econômico Mundial de Davos, o presidente francês Emmanuel Macron assumiu o tom mais contundente entre os líderes europeus. Macron acusou Washington de tentar “subordinar a Europa” por meio de tarifas, classificando a prática como inaceitável, sobretudo quando utilizada para pressionar a soberania territorial de aliados.
O líder francês defendeu que a União Europeia não deve se curvar à “lei do mais forte”, reiterou o compromisso com o Estado de Direito e confirmou o envio de militares franceses à Groenlândia. Em resposta, Trump ameaçou impor tarifas de até 200% sobre vinhos e champanhes franceses, ampliando o conflito para setores simbólicos da economia europeia.
Davos sob tensão e alerta institucional europeu
A crise dominou a agenda em Davos. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que a resposta europeia será “firme, unida e proporcional”, alertando que uma escalada descontrolada beneficiaria adversários estratégicos comuns.
Von der Leyen anunciou um aumento significativo dos investimentos europeus na Groenlândia, ao mesmo tempo em que sinalizou disposição para cooperar com os Estados Unidos na segurança do Ártico, desde que respeitados princípios de soberania e cooperação multilateral.
Já o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, tentou conter a volatilidade, pedindo cautela e afirmando que não se deveria reagir de forma precipitada, embora reconhecendo a gravidade do momento.
Impactos na Otan, mercados e ordem internacional
A disputa atingiu diretamente a Organização do Tratado do Atlântico Norte. Trump voltou a questionar o compromisso dos aliados com a defesa coletiva, sugerindo que a Otan só é forte enquanto conta com os Estados Unidos. O secretário-geral da aliança, Mark Rutte, confirmou conversas com Washington, mas evitou declarações públicas mais duras.
No campo econômico, os efeitos foram imediatos: bolsas globais registraram quedas expressivas, o ouro atingiu máximas históricas e o aumento da aversão ao risco reacendeu temores de uma nova guerra comercial transatlântica, com impacto direto sobre cadeias globais de suprimentos e investimentos.













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