Investigação da PF aponta Nelson Tanure como ‘sócio oculto’ do Banco Master e aprofunda suspeitas de fraudes financeiras

A Polícia Federal (PF) e o Ministério Público Federal em São Paulo (MPF-SP) avançaram nesta semana na investigação sobre uma complexa teia de fundos de investimento que, segundo os investigadores, conecta o empresário Nelson Tanure ao Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro. A apuração integra a segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes financeiras, manipulação de mercado e risco sistêmico ao sistema financeiro nacional, culminando no cumprimento de mandados de busca e apreensão autorizados pelo Supremo Tribunal Federal.

Avanço das investigações e decisão do STF

A representação da Polícia Federal, citada na decisão do ministro Dias Toffoli, sustenta que Nelson Tanure teria atuado como “sócio oculto” do Banco Master, exercendo influência por meio de fundos de investimento e estruturas societárias complexas. A autorização judicial alcançou, além do empresário, representantes do Banco Master e da Reag, gestora liquidada pelo Banco Central.

Segundo a PF, o conjunto de operações analisadas sugere interdependência operacional entre o empresário e a instituição financeira, com impactos relevantes na contabilidade do banco e potenciais reflexos sistêmicos no mercado.

Notas de defesa e posicionamento dos investigados

Em nota pública, Tanure negou ser controlador ou sócio do Banco Master, afirmando manter apenas relações estritamente comerciais, sempre em conformidade com a legislação. O empresário declarou ainda que vinha reduzindo gradualmente sua exposição ao banco e que eventuais perdas seriam compatíveis com operações de risco inerentes ao mercado financeiro.

A defesa de Daniel Vorcaro também refutou irregularidades, alegando que o Banco Master não realizou operações para beneficiar terceiros ou familiares, sustentando que, até a liquidação extrajudicial, o controlador teria promovido aportes sucessivos de capital para preservar a instituição e proteger credores e investidores.

Relatório da CVM e suspeita de manipulação de mercado

Um relatório técnico da Comissão de Valores Mobiliários apontou atuação “coordenada” e “interdependente” entre Tanure e o Banco Master em operações envolvendo a Ambipar, então em recuperação judicial. O documento descreve convergência de interesses e estratégias que teriam impactado de forma significativa a estrutura acionária e a cotação da companhia.

Entre os casos citados está o Phoenix FIP, fundo administrado pela Trustee DTVM — vinculada ao grupo do Banco Master — cujo beneficiário final seria o próprio Tanure. Em março de 2024, o fundo recebeu aporte de R$ 400 milhões e, no mês seguinte, venceu o leilão de privatização da Emae, sucessora da Eletropaulo.

Escalada de aportes, recompra de ações e valorização artificial

Em maio de 2024, o mesmo fundo recebeu novo investimento de R$ 1,25 bilhão, simultaneamente ao programa de recompra de ações da Ambipar. No período, fundos ligados à Trustee e ao Banco Master, além do fundador da empresa, teriam adquirido papéis de forma considerada “agressiva” pelos investigadores.

As ações da Ambipar saltaram de R$ 13 para R$ 97,35 em pouco mais de um mês. Para a CVM e o MPF, a sobreposição de operações contribuiu para um aumento artificial superior a 700%, sustentado por uma estrutura circular de fundos com cotistas e beneficiários ligados ao Banco Master e a Tanure.

Uso de ações como garantia e impacto contábil no banco

As ações supervalorizadas da Ambipar foram utilizadas como garantia para a arrematação da Emae. Em setembro de 2024, as cotas do ESNA FIP, que detinha exclusivamente papéis da Ambipar, foram transferidas do Banco Master para o Ilha de Patmos FIM, veículo de investimento ligado a Tanure, por valor cerca de 40% inferior ao preço de mercado.

De acordo com o MPF, a operação resultou em melhora do patrimônio líquido do Banco Master e em retorno financeiro estimado em R$ 296 milhões, reforçando a tese de que o banco teria sido beneficiário direto da suposta manipulação.

Queda abrupta das ações e prejuízo aos investidores

Após o pico, as ações da Ambipar despencaram para cerca de R$ 0,70, segundo os autos. Para os procuradores, a trajetória evidencia a artificialidade do patrimônio líquido do Banco Master e produziu prejuízo real aos investidores, elemento central para a caracterização das irregularidades investigadas.

O inquérito foi remetido ao STF após a citação de parlamentar com foro por prerrogativa de função, ampliando o alcance institucional do caso.

*Com informações das Agências Brasil, RFI, Sputnik e jornais O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, além da revista Veja e site Metrópoles.


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