As liquidações do Banco Master, decretada pelo Banco Central do Brasil em novembro de 2025, e da gestora Reag Investimentos, confirmada em janeiro de 2026, revelaram um dos episódios mais graves do sistema financeiro nacional. As investigações apontam para fraudes bilionárias, uso indevido de fundos de investimento para ocultar prejuízos, tentativa de transferência do passivo para um banco público, além de tensões institucionais envolvendo o Supremo Tribunal Federal, o Tribunal de Contas da União, o Banco Central e a Polícia Federal. O colapso atingiu diretamente cerca de 1,6 milhão de clientes e impôs ao sistema bancário o maior acionamento da história do Fundo Garantidor de Crédito.
Controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, o Banco Master expandiu-se rapidamente ao oferecer CDBs com rentabilidade muito acima da média do mercado, chegando a 140% do CDI. O modelo, embora atraente para investidores, exigia assunção crescente de riscos e dependia de captação contínua para honrar compromissos.
Relatórios do Banco Central indicam que, enquanto o balanço era inflado artificialmente, a liquidez real — recursos disponíveis para pagamentos imediatos — se deteriorava. O descompasso entre ativos registrados e caixa efetivo tornou-se insustentável quando a confiança do mercado começou a ruir, em 2024.
Como funcionava o esquema financeiro
Entre 2023 e 2024, investigadores estimam que R$ 11,5 bilhões tenham sido desviados por meio de triangulações financeiras. O banco concedia empréstimos a empresas de fachada, que aplicavam os recursos em fundos administrados pela Reag.
Esses fundos adquiriam ativos de baixo ou nenhum valor real, como certificados do extinto Besc, por preços inflados, elevando artificialmente o patrimônio. O Banco Central identificou seis fundos suspeitos, com patrimônio conjunto de R$ 102,4 bilhões, nos quais o dinheiro circulava entre intermediários até alcançar os beneficiários finais.
Estrutura de pirâmide e colapso da captação
Para postergar a inadimplência, o Master concedia empréstimos com carência de até cinco anos e utilizava novas emissões de CDBs para pagar investidores antigos, prática típica de esquema Ponzi. O modelo dependia da entrada constante de novos recursos.
Com o avanço das suspeitas e o escrutínio regulatório em 2024, a captação secou. Sem novos investidores e com obrigações crescentes, o caixa entrou em colapso, revelando a fragilidade estrutural do banco.
Tentativa de venda ao BRB
Em busca de liquidez, o Master simulou a compra de uma carteira de crédito de R$ 6 bilhões da empresa Tirreno, operação que existia apenas no papel. Após manipulação de taxas de juros, a mesma carteira foi revendida ao Banco de Brasília por R$ 12 bilhões.
Análises do Banco Central demonstraram que as operações não existiam, levando à interrupção da negociação e, posteriormente, ao veto à venda do controle do Master ao BRB. Segundo investigadores, a estratégia buscava fundir balanços e diluir a fraude dentro de um banco público.
Intervenção, limites e liquidação
Diante do risco sistêmico, o Banco Central limitou a captação a 100% do CDI e acionou mecanismos emergenciais. Desde abril de 2025, o FGC passou a cobrir CDBs vencidos por meio de linha especial.
O controlador tentou aportar recursos com a venda de ativos pessoais, sem sucesso. A liquidação foi decretada quando o banco já não conseguia pagar nem 15% dos vencimentos semanais, evidenciando a insolvência.
Papel da Reag Investimentos
Fundos administrados pela Reag são apontados como peça central na sustentação do esquema. A gestora é suspeita de facilitar a criação de empresas de fachada, inflar o valor de ativos fictícios e pulverizar recursos para ocultar perdas.
A liquidação da Reag, após a segunda fase da Operação Compliance Zero, é considerada desdobramento direto do caso Master, reforçando a conexão entre as estruturas.
Tensão entre órgãos públicos
Apesar de o Master representar apenas 0,5% dos ativos do sistema financeiro, o caso desencadeou disputas institucionais. Questionamentos simultâneos surgiram no STF, no TCU e no Congresso sobre decisões técnicas do Banco Central.
O ministro Dias Toffoli concentrou ações judiciais relacionadas ao caso, autorizou a custódia de material no STF e, posteriormente, liberou a análise pela Polícia Federal com apoio da Procuradoria-Geral da República, após negociações para preservar o sigilo bancário.
Impacto para clientes e investidores
Com a liquidação, o FGC deverá ressarcir cerca de 1,6 milhão de clientes, com desembolso estimado em R$ 41 bilhões, aproximadamente um terço do patrimônio do fundo. O limite de cobertura é de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, e os pagamentos dependem da consolidação da lista de credores.
Fundos da Reag não contam com proteção do FGC. Além disso, 18 fundos de pensão estaduais e municipais, que investiram R$ 1,86 bilhão, não serão ressarcidos por se tratarem de instrumentos não cobertos pela garantia.
Um marco para a regulação financeira
O caso Master–Reag evidencia fragilidades na supervisão, falhas em auditorias e limitações das agências de rating, que atestaram a saúde financeira do banco pouco antes do colapso. O episódio também expõe os riscos de modelos de crescimento baseados em rentabilidade artificial e alavancagem excessiva.
Os desdobramentos institucionais revelam tensões entre órgãos de controle e a dificuldade de equilibrar sigilo bancário, fiscalização e transparência em crises complexas. A tentativa de transferência do problema para um banco público amplia o debate sobre responsabilidade e governança.
Historicamente, o caso tende a se tornar referência para mudanças regulatórias, revisão de práticas de mercado e fortalecimento da supervisão, com impactos duradouros sobre a credibilidade do sistema financeiro brasileiro.











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