Neste domingo (25/01/2026), uma manifestação realizada em Brasília em defesa da anistia aos condenados pelos atos de 8 de Janeiro, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, terminou com dezenas de feridos após a incidência de raios durante forte chuva na região central da capital federal. O ato marcou o encerramento da caminhada de 240 quilômetros promovida pelo deputado federal Nikolas Ferreira, que partiu de Paracatu, em Minas Gerais, e reuniu milhares de apoiadores na Praça do Cruzeiro.
De acordo com o Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, 89 pessoas receberam atendimento no local, enquanto 47 manifestantes foram encaminhados a hospitais da rede pública após serem atingidos direta ou indiretamente pelas descargas elétricas. Até a noite de domingo, ao menos nove permaneciam internados, algumas em observação. O incidente ocorreu por volta das 12h50, cerca de uma hora antes da chegada do parlamentar ao ponto final da mobilização.
O episódio se deu em meio a chuva intensa, circunstância que levou as autoridades a adotarem medidas preventivas, como a retirada de cabos e equipamentos elétricos e o rebaixamento de um guindaste que sustentava uma grande bandeira do Brasil, diante do risco de novas descargas atmosféricas. Apesar do incidente, o ato foi mantido e seguiu sob monitoramento das forças de segurança.
Caminhada política e mobilização nacional
A mobilização em Brasília foi o desfecho de uma caminhada iniciada na segunda-feira (19/01), quando Nikolas Ferreira deixou Paracatu com destino à capital federal. Ao longo do trajeto, o deputado utilizou intensamente as redes sociais para documentar a jornada, que ganhou contornos de mobilização política permanente, com transmissões diárias, relatos pessoais e apelos diretos à sua base de apoio.
Segundo o parlamentar, a iniciativa teve como objetivo protestar contra as condenações relacionadas aos atos de 8 de Janeiro e denunciar o que classifica como excessos do Judiciário. Durante a caminhada, Nikolas afirmou ter recebido ameaças, razão pela qual passou a utilizar colete à prova de balas, por recomendação de sua equipe de segurança.
Embora o deputado tenha declarado que não desejava transformar o ato em um evento partidário, a manifestação contou com forte presença de políticos alinhados à direita, incluindo vereadores, deputados, senadores e pré-candidatos às eleições municipais e gerais de 2026. Entre os presentes esteve o vereador Carlos Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente.
Divergências sobre o número de participantes
A estimativa de público gerou divergências significativas entre instituições independentes e órgãos oficiais. Um levantamento realizado pelo Monitor do Debate Político do Cebrap, em parceria com a ONG More in Common, apontou que a manifestação reuniu cerca de 18 mil pessoas, com margem de erro de 12%, o que indica um público entre 15,8 mil e 20,1 mil participantes no momento de pico, às 15h15.
A metodologia empregada combinou análise de imagens aéreas captadas em dois horários distintos e o uso de software de inteligência artificial. Já a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal estimou que a caminhada e o ato final reuniram mais de 50 mil pessoas, ressaltando que a chuva intensa, o uso de guarda-chuvas e a alta circulação de manifestantes dificultaram a contagem precisa.
Discursos e recados ao Supremo
Após chegar à Praça do Cruzeiro, Nikolas Ferreira fez um discurso de tom confrontacional, dirigindo-se diretamente ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Do alto de um carro de som, afirmou que “o Brasil não tem medo de você” e declarou que o país viveria, segundo sua avaliação, um “pesadelo terrível”.
O parlamentar disse que a caminhada buscava “despertar o país” e reforçou críticas às decisões judiciais que resultaram na prisão e condenação de aliados do ex-presidente. As falas foram amplamente reproduzidas nas redes sociais e por veículos de imprensa, ampliando a repercussão política do evento.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro não participou da caminhada nem do ato final, mas manifestou apoio ao movimento por meio de declarações públicas e redes sociais. Em discurso breve a apoiadores em um dos pontos de pernoite da caminhada, afirmou tratar-se de um evento “pacífico e ordeiro”. Segundo aliados, sua ausência em atos públicos teria como objetivo evitar novos desgastes institucionais com o Supremo Tribunal Federal, especialmente com Alexandre de Moraes.
Apoios à distância e articulação política
Outro nome de destaque ausente fisicamente foi o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que se encontrava em viagem internacional a Jerusalém. Ainda assim, ele participou simbolicamente por meio de videochamadas com o deputado e manifestações públicas de apoio nas redes sociais.
A presença maciça de lideranças políticas regionais ao longo do trajeto e no ato final evidenciou que a caminhada extrapolou o caráter simbólico inicial e se consolidou como um instrumento de articulação política, com reflexos diretos no cenário eleitoral e institucional de 2026.
Protesto político, riscos reais e institucionalização do conflito
A manifestação em Brasília expõe, de forma clara, a institucionalização do conflito entre setores da direita política e o Supremo Tribunal Federal, em especial na figura do ministro Alexandre de Moraes. O discurso adotado por Nikolas Ferreira reforça uma estratégia de confronto direto, que mobiliza bases eleitorais, mas aprofunda a polarização e tensiona o equilíbrio entre Poderes.
O episódio dos feridos por raios acrescenta um componente concreto de risco a mobilizações de massa organizadas sob condições climáticas adversas. Embora o fenômeno natural seja imprevisível, a ocorrência levanta questionamentos sobre protocolos de segurança, planejamento logístico e responsabilidade dos organizadores diante de grandes concentrações humanas.
Por fim, a discrepância entre as estimativas de público revela não apenas dificuldades técnicas de contagem, mas também a disputa narrativa em torno da força política do movimento. Em um ambiente de elevada polarização, números tornam-se instrumentos simbólicos, frequentemente utilizados para legitimar discursos e projetar poder político.
*Com informações dos jornais O Globo, Folha de S.Paulo e Estadão, Revista Veja, site Metrópoles e Agência Brasil.











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